Buscar
Nota

Lula é cobrado por atingidos da Vale sobre acordo final de Mariana; entenda

2 de outubro de 2024
14:37
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Enquanto o governo federal divulga a cifra de R$ 100 bilhões como o valor necessário “para recuperar o que foi estragado” e “cuidar do povo”, como disse o presidente Lula em entrevista no início de setembro, os atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, no município mineiro de Mariana, defendem que não há reparação possível sem incluir quem vive as consequências do crime ambiental. Na última semana, lideranças de comunidades de Minas Gerais e Espírito Santo vieram a Brasília para pressionar o governo por sua inclusão na mesa de negociações, visto que nem sequer sabem o que está previsto no acordo.

“A gente está tendo uma repactuação que não é transparente e ele [Lula] prometeu que seria transparente com os atingidos”, afirmou Valeriana Gomes de Sousa, que representa os atingidos da cidade de Naque (MG), em coletiva de imprensa na última sexta-feira (27). 

“Repactuação sem atingidos não é repactuação”, acrescentou Joelma Fernandes, coordenadora da Comissão de Atingidos de Governador Valadares (MG). “Só existe dinheiro, esse montante [a ser pago pelas empresas], porque existem atingidos”, defendeu. “[Os atingidos são] pessoas capazes de sentar nessa mesa de repactuação e discutir, pessoas que entendem do processo, porque sentem na pele”, explicou. Em novembro, o colapso da estrutura que despejou 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos em áreas públicas e rios, como o rio Doce, além de ter destruído a comunidade de Bento Rodrigues, completa nove anos. 

Lula já anunciou que o acordo deve ser assinado “até o começo de outubro”, o que coloca os atingidos em uma corrida contra o tempo. Em agosto do ano passado, eles divulgaram uma carta aberta ao presidente com o mesmo pleito e, ainda em janeiro daquele ano, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) se reuniu com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também com o mesmo objetivo. O grupo afirma estar buscando uma agenda com Lula desde o início do mandato. “Tentamos de tudo”, desabafou Sousa.

Na manhã da última sexta (27), antes da coletiva, as lideranças compareceram à posse da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, e distribuíram um ofício solicitando participação no novo acordo de reparação, além de escuta ativa nas comunidades, controle social dos recursos e limpeza completa do rio Doce, entre outros. O documento foi entregue para Evaristo, além da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, e Rui Costa, da Casa Civil. 

Até então, só as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton, as responsáveis pelo colapso da barragem, e alguns representantes do poder público sentaram-se à mesa de negociações. Entre eles, a Advocacia-Geral da União (AGU), que representa o governo federal, além dos governos de Minas Gerais  e Espírito Santo, e instituições de Justiça. 

Questionados sobre por que os atingidos não foram incluídos nas discussões da repactuação, e se existiria previsão de inclusão, a AGU e a Presidência não responderam. 

Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que “é compromisso desta gestão trabalhar por uma solução que respeite as partes e, principalmente, os direitos da população duramente castigada pelo rompimento da barragem, além de assegurar a recuperação do meio ambiente das áreas atingidas”, e relembrou a fala de Lula na entrevista à Rádio Vitoriosa, na qual ele afirma que “o objetivo do governo é utilizar o recurso do acordo ‘para recuperar o que foi estragado, para cuidar do povo’”.

Atingidos lutam por direito à saúde e fiscalização dos recursos 

Uma das principais pautas dos atingidos é a saúde, visto que os rejeitos despejados pela barragem são tóxicos e podem gerar problemas renais, alergias, além de outras enfermidades. 

“Ao longo de nove anos, nós estamos abandonados no direito à saúde, porque no Brasil não existe tratamento para as pessoas contaminadas. Estamos colecionando laudos e mais laudos médicos, e óbitos, infelizmente”, explicou Simone Silva, parte da Comissão dos Atingidos de Barra Longa e integrante da Comissão Técnica de Saúde dos atingidos de Minas Gerais. “Queremos saber o que está sendo tratado na mesa de repactuação, o que está se falando das nossas vidas e o que está se falando da nossa saúde lá”, acrescentou. 

Já Varner de Santana Moura, que representa os atingidos do Espírito Santo, destacou a necessidade de controle social dos recursos recebidos após o acordo. “Que seja garantido acompanhamento, monitoramento, validação e fiscalização dos recursos destinados aos nossos territórios. Que o atingido saiba e tenha consciência de onde o seu recurso será aplicado e que ele faça o papel de fiscalizador, porque esse recurso pertence aos atingidos”, finalizou. 

Para Ana Carolina Salomão, sócia do escritório Pogust Goodhead, que representa os atingidos de Mariana em cortes internacionais, “a reparação justa e completa só é possível com a participação e escuta dos atingidos”. “Dar voz às vítimas de desastres ambientais e quantificar os impactos sobre cada atingido é um requisito básico para se alcançar uma reparação justa e completa”, explicou, em entrevista à Pública. No dia 21 deste mês, será iniciado, na Corte de Londres, o julgamento sobre a responsabilidade da mineradora BHP no rompimento da barragem de Fundão. 

Edição:

Notas mais recentes

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado
Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas
Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno
Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar
Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022