Buscar
Vídeo

O samba do Tio Esperança

Tio Toninho relembra a história do Cruz da Esperança, cujo espaço foi demolido pela Prefeitura, mas onde o samba resiste

Vídeo
Assistir vídeo
26 de agosto de 2026
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
José Cícero/Agência Pública

Na manhã de 29 de julho, toda a comunidade do samba e do futebol de várzea se deparou com a Prefeitura de São Paulo demolindo a sede do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, na Zona Norte da capital. A ação foi em cumprimento de uma ordem judicial de reintegração de posse na área, onde está prevista a construção do Parque Campo de Marte.

Criado em 1958 por um grupo de taxistas negros, o clube ocupava o terreno no Campo de Marte desde o fim da década de 1970. O espaço se tornou referência no futebol de várzea após receber diversos jogadores que foram destaque em times tradicionais: “Todo jogador de bola vinha jogar no Cruz: Basílio, Serginho Chulapa, Solito, Mauro, Casagrande, Viola, Ataliba. Vou até parar de citar nomes, porque corro o risco de esquecer alguém, mas muita gente passou no Cruz”, conta Antônio Marcos, presidente do Cruz da Esperança, conhecido como Tio Toninho.

Três dias após a demolição do espaço, Toninho concedeu entrevista à Agência Pública em sua casa. Visivelmente abatido, até aquele momento ele não havia saído de casa – ainda estava impactado pelo longo processo de negociação com a Prefeitura até a derrubada das paredes que havia ajudado a construir.

Com diversos álbuns de fotografias à mesa, Toninho se emocionou ao rememorar a sua relação com o futebol de várzea, a chegada ao clube na década de 1960, os bailes black que aconteceram entre os anos 1970 e 1980 e as rodas de samba que se mantêm desde os anos 1990. O espaço, também chamado de “Pequena África Paulista”, é apontado como patrimônio vivo da memória negra e da música popular na Zona Norte da cidade.

Apesar da perda do espaço físico, o samba continua acontecendo todos os finais de semana na região da Casa Verde, próximo à antiga sede. E a história ainda não terminou na Justiça: no dia 20 de agosto, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região publicou uma decisão que proíbe a Prefeitura de São Paulo e a concessionária de fazer novas intervenções físicas no solo ou subsolo do terreno, incluindo escavações, terraplenagem, fundações, compactação do terreno e outras atividades de impacto equivalente, até que estudos técnicos sobre possíveis vestígios arqueológicos e bens culturais no local sejam realizados.

Para o Tio Toninho,  a decisão da Justiça é positiva para a comunidade, porém chegou tarde. “A notícia [da decisão] pra nós foi muito ótima, se bem que atrasada porque chegou depois da demolição. Se chegasse antes eles não poderiam mexer”, lamenta.

A decisão recente foi motivada, dentre outros elementos, por uma vistoria feita pelo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no local em 18 de junho deste ano. O relatório de fiscalização constatou que a área “apresenta potencial arqueológico relevante”. O documento solicitou ao órgão o aprofundamento dos estudos técnicos antes da realização de novas intervenções por parte da concessionária. A vistoria aconteceu antes da demolição da sede do Cruz da Esperança.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026
Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi