Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

Ao voltar para casa, Nilcilene encontrou o cão de guarda assassinado e estirado no chão

2 de março de 2012

A lavradora jurada de morte Nilcilene Miguel de Lima recebeu um recado do crime organizado do sul do Amazonas no dia 1 de março. Ao descer da viatura da Força Nacional, acompanhada de dois policiais, ela encontrou o seu cachorro morto com um tiro no ouvido estirado perto do portão.

“Eu tô apavorada, não tem condição de ficar aqui”, ela disse, por telefone, na manhã desta sexta-feira, 2 de março.  Jurada de morte, a lavradora tem proteção ostensiva pelo Programa de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos desde outubro do ano passado.

Nem nove homens armados ao seu redor podem lhe garantir segurança em uma área dominada por madeireiros e grileiros, sem presença do Estado. Nilcilene enfrenta ameaças desde 2009, quando fez as primeiras denúncias de roubo de madeira e invasão de terras no assentamento do qual é líder (leia matéria completa aqui).

Quem achou o cachorro foi Raimundo Oliveira, marido dela. “Ele ficou em pânico, nao quis nem tirar o corpo do lugar de tanto medo. Agora tá cheio de urubu lá em casa”. O vira-lata “Chorinho” era o mais bravo dos quatro cachorros da casa e o primeiro a latir e correr para o portão quando alguém se aproximava.

Nilcilene teve que passar três dias fora e Raimundo ficou sozinho, sem a escolta. O casal acha que a ausência dos homens da Força Nacional foi notada pelos agressores. “Está muito perigoso. O Raimundo não está mais dormindo sozinho em casa. Quando eu saio, ele tem que se esconder na casa de alguém porque está correndo risco de vida”.

Assustados, Raimundo e Nilcilene não dormiram na noite passada. Ficaram ouvindo a movimentação dos madeireiros na estrada. “Fazia tempo que eu não via eles tirarem tanta madeira daqui. A serra comeu a noite toda, passaram mais de dez caminhões na estrada de casa”, diz Nilcilene.

Com o aumento das chuvas desse período, as estradas de terra que levam ao assentamento ficaram intransitáveis. A viatura da Força Nacional quebrou e Nilcilene foi obrigada a passar três noites na cidade de Acrelândia, onde fica a base da equipe policial. Por isso, Raimundo ficou sozinho em casa.

” Os madeireiros aproveitaram que a estrada está ruim e falaram pros produtores (os lavradores do assentamento) que eles consertam, desde que o povo pague com madeira. E o povo aceitou, tá todo mundo deixando eles pegarem madeira para consertar a estrada. No assentamento dá para ver as toras de árvore empilhadas. “.

O casal se preocupa com o momento em que o governo retirar a escolta. Os contratos do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos duram três meses. O primeiro venceu em janeiro, mas a Comissão Pastoral da Terra intercedeu pela prorrogação.

“Se a escolta for embora, a gente tem que ir junto, se não eles vão me matar”.

 

Leia mais: Nilcilene, com escolta e colete à prova de balas: “eles vão me matar”

Trabalhadora próxima à líder é assassinada em Rondônia

Vídeo: pistoleiros perseguem famílias ligadas à líder 

O fazendeiro e o político, quem está por trás dos crimes?

Sul do Amazonas: confrontado por pistoleiros, governo recua

 

Relatos: “A ordem era tocar fogo com a gente dentro”

“Tem muita gente sumida, enterrada lá para dentro”

“Tomaram a frente, as fundiárias e depois as costelas”

Seja aliada da Pública

Faça parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doações a partir de R$ 10,00/mês.

Comentários de nossos aliados

 Ver comentários

Esta é a área de comentários dos nossos aliados. Quer se tornar aliado? Clique aqui!

Carregando…
Você precisa ser um aliado para comentar.
Só aliados podem denunciar comentários.
Fechar

Explore também

A presidente Dilma Rousseff, durante coletiva de imprensa

| De olho | Dilma espera votação decisiva no Senado

8 de maio de 2016 | por

Resultado da votação da admissibilidade do impeachment pelo Plenário do Senado pode afastar a presidente por até 180 dias

As falhas e inconsistências do Cadastro Ambiental Rural

1 de agosto de 2016 | por e

Levantamento da Pública revela que mais de dois terços dos imóveis rurais declarados no CAR do Pará apresentam alguma sobreposição e pelo menos 20 registros definitivos validados em terras indígenas, o que é proibido

Ao lado da casa de Fortunato da Silva, que não tem energia, passa uma linha de alta tensão que liga os municípios de Jucás e Catarina (CE)

Não vai ter Copa

23 de maio de 2014 | por

Pelo menos 242 mil famílias ainda não têm energia elétrica em casa. Percorremos 1.300 quilômetros no sertão do Ceará para contar a rotina de algumas pessoas que não vão assistir à Copa do Mundo

Mais recentes

Dos barões amigos de meu avô às prisões de hoje

18 de junho de 2019 | por

O repórter Matias Maxx conta a história por trás de sua bombástica reportagem sobre a vida de presos não pertencentes a facções

Crédito de bancos permite “fluir a economia” ligada ao trabalho escravo, diz procurador do MPT

17 de junho de 2019 | por

Segundo Rafael de Araújo Gomes, é a primeira vez no mundo que uma ação tenta responsabilizar os bancos pelo financiamento de empresas denunciadas na lista suja

Disputa por terra pode ter levado a assassinato de sindicalista no Pará

13 de junho de 2019 | por

Polícia Civil de Rio Maria trabalha com duas linhas principais de investigação para a morte com sinais de execução de Carlos Cabral; nossa reportagem esteve lá e conta como os conflitos de terra fazem da região a líder de chacinas no país

Login para aliados

Participe e seja aliado.

Fechar