AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Andrew Jennings: Como eu ajudei o FBI a investigar a FIFA

Jornalista britânico revela como auxiliou a polícia americana a apertar o cerco contra a corrupção na organização que comandará a Copa do Mundo de 2014

A revelação recente de que o FBI está investigando a FIFA deve dar um basta a três décadas de corrupção institucional, personificada nos últimos tempos pelo seu presidente, Joseph Blatter.

Tenho conversado com agentes especiais da Seção de Crime Organizado e Negócios Ilícitos do Departamento de Justiça em Washington e com o Esquadrão de Crime Organizado de Nova York desde que eles me contataram, procurando provas, há cerca de três anos.

Agora, tornou-se público que a polícia americana está investigando “um grande caso” envolvendo corrupção na FIFA. A investigação inclui denúncias de fraude e suborno, e teve início nas confederações de futebol da América Central, América do Norte e do Caribe.

Mas o rastro de dinheiro leva ao quartel-general da FIFA em Zurique, na Suíça. Fontes não oficiais confirmaram que Daryan Warner, filho mais velho do famigerado ex-vice-presidente da FIFA, Jack Warner – que hoje é Ministro da Segurança Nacional em Trinidad e Tobago, no Caribe – tornou-se uma testemunha em cooperação com a investigação do FBI. Warner Jr. está morando na Flórida nos últimos tempos, e claramente não está livre para deixar os Estados Unidos. O FBI ainda não divulgou que indícios tem contra ele, mas é provável que seja algo substancial o bastante para que ele quebre a confiança do seu pai em troca de redução de tempo de prisão.

Daryan Warner, o filho, sempre foi o “administrador” do dinheiro, organizando a lavagem e ocultação de subornos e de todo tipo de atividade ilícita de seu pai no futebol – desviando verbas, negociando ingressos da Copa do Mundo e embolsando subornos vultosos de países que sonham sediar uma Copa do Mundo. Warner trabalhava de maneira orquestrada em Nova York com seu parceiro e membro do comitê executivo da FIFA, Chuck Blazer.

A carreira de Jack Warner, o pai, na FIFA, começou a estremecer em maio de 2011, quando ele foi pego com um milhão de dólares para suborno, distribuídos em envelopes de 40 mil dólares em dinheiro vivo para entregar a associações de futebol caribenhas. O objetivo era persuadi-las a votar em Mohamed Bin Hammam, que concorria à presidência da FIFA contra o atual presidente Joseph Blatter. Na época Chuck Blazer “dedurou” Warner para a FIFA – mas logo ele mesmo se envolveu em alegações de corrupção muito bem documentadas.

Para onde vai a investigação do FBI?

Para começar, eles não estão sozinhos. Há 18 meses corre uma investigação paralela feita por autoridades tributárias americanas, o Serviço Interno de Receita (IRS, em inglês). A investigação secreta vai de Port of Spain, em Trinidad e Tobago, ao luxuoso prédio comercial Trump Tower, na Quinta Avenida em Nova York, até as Ilhas Cayman, Miami, Zurique na Suíça, seguindo até o Golfo Pérsico. As autoridades americanas tiveram cooperação com polícias de Londres e da Suíça.

O roubo em escala industrial cometido por Warner e Blazer está entremeado à estrutura da FIFA. A dupla abominável foi repetidamente encorajada a pilhar garantias e ingressos da Copa do Mundo. Em troca, conseguiam votos para manter Blatter no poder.

Amantes do futebol sonham que o FBI acabe achando razões para estender sua investigação ao império africano de Issa Hayatou e ao resto da FIFA.

Enquanto o FBI espalha suas teias, membros da FIFA em Zurique devem procurar seus advogados para saber o que dizer quando os policiais baterem às suas portas. Se eles lidaram com pagamentos corruptos autorizados por Blatter ou pelo secretário-geral Jerôme Valcke, seria sensato seguir o exemplo de Daryan Warner e se tornar também testemunhas colaboradoras em vez de se arriscar à extradição ou prisão.

Funcionários honestos dentro da FIFA poderiam denunciar outros nomes. Afinal, seria injusto que apenas Warner e Blazer fossem presos por conta da pilhagem da FIFA. Nos últimos anos, mais da metade comissão executiva da FIFA estava envolvida com atividades duvidosas.

O FBI tem mostrado interesse em investigar, por exemplo, a escolha do Qatar como sede da Copa do Mundo de 2022. Os agentes obtiveram informações muito específicas a esse respeito. Outro grupo de investigadores trabalhando em conjunto com o FBI está de olho em uma outra grande decisão da FIFA – desta vez sobre ingressos.

Após as revelações em 2010 feitas por jornalistas britânicos do Sunday Times e da BBC sobre corrupção no alto escalão da FIFA, Blatter deveria ter sido despejado do poder e ter seus negócios financeiros devassados. Em vez disso, ele conseguiu escapar com o anúncio de investigações “independentes” dentro da FIFA – sempre controladas por ele.

Agora, desde dezembro do último ano, blogueiros de Trinidad têm gritado ao mundo que Daryan Warner, filho de Jack, foi preso no aeroporto de Miami carregando uma sacola de dinheiro. O valor relatado varia de US$ 100 mil a US$ 750 mil, dependendo do blog. Alguns dizem que o outro filho de Jack, Daryl Warner, também foi preso. No início de março, apesar de ameaças de Jack Warner, até mesmo a cautelosa grande imprensa de Trinidad começou a publicar matérias sobre “o filho de um membro de gabinete” preso em Miami por acusação de lavagem de dinheiro.

Um efeito colateral deste escândalo pode ser o fim da administração cada vez mais absurda da primeira-ministra Kamla Persad-Bissessar, de Trinidad e Tobago, que indicou Warner para tomar conta da polícia (sim, é sério) e do exército (sério!) – apesar dele ter rapidamente saído da FIFA antes das investigações progredirem.

Por conta dos milhões de dólares que Warner gastou comprando vitórias nas urnas para o seu partido (UNC), Kamla lhe deu carta branca para perseguir oponentes e indicar aliados incompetentes para altos cargos no governo. As últimas revelações de corrupção em Trinidad mostram que Warner criou secretamente, com verba do governo, sua própria milícia privada, similar aos Ton Ton Macoutes do Haiti.

Com a bênção da imprensa britânica

Mas o próximo alvo da investigação do FBI talvez seja o prestigioso jornal britânico Financial Times, que promove conferências de negócios e acabou de anunciar um “Encontro de Negócios de Futebol” a ser realizado no Rio de Janeiro, em junho.

A grande atração será o presidente da FIFA, Joseph Blatter.

O evento do Financial Times no luxuoso hotel Copacabana Palace será organizado pela empresa International Football Arena, sediada em Zurique, responsável por encontros de futebol onde repórteres passivos, donos de clubes e potenciais patrocinadores pagam para se enturmarem com Blatter.

O homem responsável pelas relações públicas, Peter Hargitay, apresenta todos os presentes enquanto seu filho, Stevie, ocupa-se dos apertos de mão na entrada.

No site do encontro do Financial Times, Stevie está listado como “Contato de patrocínio”. Em sua conta de twitter, ele se descreve como um “linguista da astúcia” e produtor de cinema. Um de seus filmes, o épico “Minas curtem caras gays”, ensina como fingir ser homossexual para que as “minas” fiquem afim de você.

O correspondente de esportes do Financial Times, Roger Blitz, vai comandar a conferência.

Como jornalista, ele tem oportunidades de ouro!

Podia pedir para o palestrante principal, Blatter, esclarecer sobre a investigação do FBI e como US$ 100 milhões em subornos envolvendo uma empresa de marketing foram lavados em Liechtenstein para líderes da FIFA.

Ou então Blitz poderia perguntar se o coração de Blatter alterou-se quando ele descobriu um suborno de um milhão de francos suíços para o ex-presidente da FIFA, João Havelange, sendo lavado por meio de uma conta da organização, em 3 de março de 1997.

Blitz também poderia sugerir ao evasivo Peter Hargitay que revele à plateia o nome dos membros da FIFA que ele planejou subornar com 4 milhões de libras da Associação Inglesa de Futebol, em troca da Inglaterra sediar a Copa do Mundo. Ou que entretenha a platéia com histórias de seus sete meses  de prisão em Miami por tráfico de cocaína.

Entre seus muitos negócios, Hargitay também mantém uma agência de detetives particulares, a AB Investigation, que promete a seus clientes “vigilância em nível governamental” e até mesmo “intervenção física de acordo com os interesses de clientes corporativos”. Um negócio anterior de Hargitay garantia poder hackear contas de bancos.

Quando os escândalos envolvendo subornos começaram a aparecer em 2002, Blatter contratou Peter Hargitay para corromper o jornalismo inglês. Hartigay se gaba de desviar os repórteres dos problemas de seus clientes. E fez um grande trabalho em Londres. A maioria dos repórteres de esportes ignoraram o escândalo da empresa de marketing esportivo ISL.

O que eu informei aos agentes do FBI

Tem sido uma longa espera até o FBI tomar uma atitude. Nos anos em que mantivemos contato, eu entreguei documentos provando que dirigentes da FIFA receberam subornos e lhes apresentei fontes com informações de primeira mão. Mantivemos longas ligações telefônicas e trocamos cerca de 100 emails.

Depois que eu contei sobre informações confidenciais disponíveis na Suíça, eles estabeleceram contato com autoridades criminais suíças sob o Tratado de Assistência Mútua.

Durante uma conferência em Miami em 2010, onde contei sobre a corrupção na FIFA e as evidências de que a organização operava como uma família do crime organizado, tive ainda uma longa conversa com um conselheiro sênior do Serviço Interno de Receita do governo americano. Tanto os organizadores do evento quanto eu fomos ameaçados por advogados da FIFA antes da conferência.

A última vez em que encontrei com o FBI cara a cara foi em um escritório particular perto da embaixada americana em Londres, na semana anterior às Olimpíadas de 2012. Mais uma vez, pude lhes entregar documentos cruciais. Eles me disseram que um dos documentos era “particularmente útil para seus objetivos”. Tratava-se de uma lista de subornos envolvendo muitos dos membros principais da FIFA. E disseram que, “enquanto o processo judicial parece glacial, as coisas estão progredindo”.

Nos últimos dois anos, enquanto Blatter tem persuadido jornalistas ingênuos a publicar matérias redentoras sobre seu programa de “reformas” da FIFA, investigadores de agências federais em Washington e Nova York têm juntado provas de corrupção relacionadas às votações para sedes da Copa do Mundo.

A possibilidade de novas votações para as Copas de 2018 e 2022 não pode ser descartada. Se for comprovado suborno, isso pode manchar a próxima.

Parece que o Congresso da FIFA coreografado por Joseph Blatter nas ilhas Maurício, no fim de maio, será dos mais agitados. O presidente da FIFA está montando o evento num local muito caro para a maioria da imprensa esportiva e estrangeira. Se os agentes do FBI estiverem trabalhando bem nos bastidores, será difícil levar a sério essa festança.

Afinal, se Blatter ainda estiver livre para comparecer, terá que fingir que tudo está bem e que o FBI é apenas um “inconveniente”.

* Pesquisa adicional: Karrie Kehoe

 

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