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Entrevista

“Meu pai sabia demais”

Filha do embaixador do Brasil no Paraguai durante a ditadura acredita que denúncia de corrupção em Itaipu pode ter provocado morte de seu pai

Entrevista
16 de março de 2015
12:34
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Em novembro de 2014, o Instituto João Goulart encaminhou denúncia ao MPF- RJ sobre a morte do embaixador José Jobim em 1979. O documento alega que agentes da ditadura assassinaram o político, que declarara publicamente estar escrevendo um livro de memórias no qual denunciaria o esquema de corrupção na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Jobim iniciou sua carreira como jornalista mas logo enveredou para a diplomacia. Foi embaixador do Brasil no Paraguai, Equador, Colômbia, Argélia, Vaticano, Malta e no Marrocos.

O diplomata foi enviado em fevereiro de 1958 para a embaixada do Brasil em Assunção, no Paraguai, sendo responsável pelas negociações para a construção da hidrelétrica binacional. Em 1964, viajou novamente ao país vizinho para articular a compra de turbinas russas para a construção do megaempreendimento. A parceria com a União Soviética, que estava sendo negociada há tempos, foi cancelada por conta do golpe militar e o consórcio brasileiro e paraguaio comprou os equipamentos da multinacional alemã Siemens. O orçamento do projeto inicial “Sete Quedas” saltou de 1,3 bilhão para 13 bilhões de dólares.

Para a advogada Lygia Jobim, filha do embaixador, a declaração de Jobim na posse do presidente Figueiredo, no dia 15 de março de 1979 em Brasília, tem relação direta com sua morte: “Lá, não sei o porquê, ele teve a infelicidade de mencionar que estava escrevendo as suas memórias e que ia fazer essa denúncia. Meu pai sabia demais. Ele voltou pro Rio de Janeiro e, menos de uma semana depois, foi encontrado morto”, conta.

Lygia Jobim
Lygia Jobim. Foto: Reprodução

Leia mais: Os Ecos de Itaipu 

O volume 3 do relatório da Comissão Nacional da Verdade, “Perfis de mortos e desaparecidos políticos”, apresenta o caso de José Jobim. No texto há a indicação do superfaturamento da obra, que foi descrito pelo Coronel Alberto Carlos Costa Fortunato no livro A Direita Explosiva no Brasil, publicado em 1996. “Conhecem a história sobre o aumento de 23% no custo de Itaipu? Pois o negócio foi o seguinte: lá pelas tantas, o governo paraguaio pretendeu (mais adequado seria dizer que condicionou) um aumento de 23%. Os representantes brasileiros articularam um conchavo e combinaram o seguinte: vocês topam aumentar em 46% (metade para cada um)? Então, como o governo do Paraguai sabia que somente o Brasil pagaria a conta, fechou negócio. Quer dizer, pagamos 46% a mais pelo custo da obra. Tudo o que faltava dali para a frente foi reestudado e aumentado. Quem sabia essas coisas não podia fazer nada ou estava com o rabo preso”.

José Jobim foi sequestrado no bairro do Cosme Velho em março de 1979 e encontrado morto dois dias depois, na Barra da Tijuca. As circunstâncias da morte do embaixador são incongruentes – desde a distância entre os bairros até a disposição da cena na qual Jobim foi encontrado. Na época, o delegado Rui Dourado (o mesmo que ajudou o ex-embaixador Manoel Pio Corrêa a montar o  Ciex – Centro de Informações do Exterior, órgão de espionagem da ditadura) alegou suicídio.

“Os policiais da 9ª delegacia do Catete [responsável pela investigação do caso] comentavam entre si que o meu pai poderia ter se suicidado. E não tinha nem corpo, como eles estavam falando em hipótese de suicídio?”, questiona Lydia. “Ele saiu de casa depois do almoço dizendo à empregada o que queria jantar – coisa que um suicida não vai fazer”, aponta. As investigações foram infrutíferas.

Para Lygia, dada a proximidade de Jobim com Itaipu, o embaixador sabia sim de esquemas de sobrepreços nas obras. Segundo ela, havia em sua casa uma mala que continha a documentação comprobatória do esquema – pouco tempo depois da morte de seu pai “a mala sumiu, desapareceu”. “A caixa preta de Itaipu deve ser uma coisa monstruosa”, diz. “Em Itaipu foi gasto 20 vezes mais concreto do que no Eurotúnel. Ali realmente a corrupção deve ter corrido solta. Essa caixa preta tem que ser aberta. Isso tem que aparecer”.

Veja abaixo documentário “Itaipu, a quem interessa a escuridão”:

Essa matéria é resultado do concurso de microbolsas para reportagens investigativas sobre Energia promovido pela Agência Pública em parceria com o Greenpeace.

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