AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Três perguntas sobre a direita brasileira 

A Pública entrevistou o cientista político Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná, para saber sua visão sobre a nova direita brasileira

A direita jovem que emergiu no Brasil principalmente no período eleitoral do ano passado é um fenômeno social que ainda não foi suficientemente estudado pela academia, explica o professor Adriano Codato, da pós-graduação da UFPR.  “Estas são impressões iniciais sobre um fenômeno aparentemente novo. Minhas respostas devem ser tomadas, portanto, como sugestões para que reportagens jornalísticas e pesquisas acadêmicas possam ilustrar e comprovar ou não o acerto delas”. Veja aqui suas respostas.

Vemos cada vez mais sites de direita e demonstrações nas ruas que exibem faixas contra Bolsa-Família, Cotas Raciais, e até uma curiosa palavra de ordem, defendida pelo jovem líder do MBL, Kim Kataguiri, pedindo “Mais Mises, menos Marx”. A direita cresceu entre a juventude ou saiu do armário? O senhor diria que ela foi mobilizada principalmente contra os programas sociais dos governos do PT?

Há as duas coisas. A direita, como corrente parlamentar, voltou a crescer, revertendo o movimento de queda constante do número de representantes na Câmara dos Deputados que se observava desde 1994. A extrema-direita, como corrente de opinião, começou a aparecer com uma estridência até então inédita (ou ao menos sem precedentes desde o fim do comunismo). Ocorre que se essa extrema-direita é, em termos ideológicos, idêntica àquela do período da Guerra Fria, hoje tem, graças ao estrondo proporcionado pelas novas mídias e à bajulação da velha mídia, um alcance muito maior do que jamais teve. Por sua vez, se a direita parlamentar conta ainda com o concurso das suas figuras políticas tradicionais (o grande proprietário, o médio empresário, o cacique partidário, etc.), hoje se vê revigorada por uma nova legião de políticos dos partidos fisiológicos e pela figura emblemática do pastor-deputado. Temos assim um cenário em que uma extrema-direita pretensamente moderna (“menos estado, mais mercado”) precisa se contentar em se ver representada politicamente pelo baixo clero e por tudo o que há de mais atrasado, reacionário e obscurantista em termos civilizacionais que a cena política do Brasil pode produzir. A fotografia em que os líderes dos Revoltados on line e do Movimento Brasil Livre posam alegremente com os deputados Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha é, me parece, a síntese disso. Essa é, por enquanto, a vanguarda da oposição, visto que o PSDB, ou melhor dizendo, alguns dos seus líderes, não parece muito à vontade para assumir, ainda, uma agenda abertamente de direita.

Os que se dizem “liberais” no país vão desde empresários que participaram de conselhos de administração de estatais e câmaras do setor empresarial, como Gerdau, até outros que se dizem libertarians como Salim Mattar, da Localiza. Pode se falar em tendências de direita no Brasil como os Libertarians, os Tea Partiers ou os Evangélicos americanos? Há uma aliança programática entre as diversas tendências da direita para derrubar o estado de bem-estar social que identificam com o PT?

Talvez Geraldo Alckimin, da Opus Dei, possa fazer essa síntese ultraconservadora em 2018. 

Não há essa aliança, nem em termos programáticos, nem em termos político-eleitorais. Ou no Brasil não há ainda uma aliança entre antiestatistas (nosso equivalente dos Libertarians), antipetistas (nossos Tea Partiers, só que menos ideológicos) e antiminorias (a santa cruzada dos nossos Evangélicos) porque, penso eu, as agendas dos três grupos ainda não se aproximou suficientemente uma da outra. E porque, principalmente, não há um líder ou um partido que possa encarnar num mesmo movimento as três bandeiras. Celebridades de internet e polígrafos das várias mídias não contam a não ser como agitadores e propagandistas das três figuras da direita nacional. Talvez Geraldo Alckimin, da Opus Dei, dizem os entendidos em sua biografia, possa fazer essa síntese ultraconservadora em 2018. Eduardo Cunha pode ser entendido então como um experimento para ver se a coisa engrena. Nesse contexto, a ojeriza ao Bolsa Família (seu “assistencialismo”), o ódio às Cotas Raciais (a sabotagem da “meritocracia”), o espanto diante da abertura dos bens de consumo privativos das classes médias aos remediados (o “capitalismo”, enfim…) são mais a desculpa para se opor ao PT e ao seu governo do que a razão real que os anima. Quem de fato se aflige com tudo isso são as altas camadas médias, que aliás estão onde sempre estiveram, nem mais à direita nem mais à esquerda, e que pensam como sempre pensaram: que a política é um privilégio dos letrados, que os cursos superiores são o destino dos bem-nascidos, que a corrupção é o único mal nacional e que pobre deveria é andar de ônibus.

Como o senhor dividiria a direita brasileira? Em que facções? Elas se distribuem em diferentes partidos ou podemos considerar algum deles como sede da direita ideológica?

Sugiro, provisoriamente, uma divisão dessa direita em três grandes alas: a político-institucional, a moral-comportamental e a econômico-liberal.

Será necessário nos próximos anos um baita esforço por parte da academia para compreender essa nova/velha direita brasileira. Nesse sentido, a topografia desse grande campo reacionário ainda está por ser feita. Sugiro, provisoriamente, uma divisão dessa direita, que ainda teima em não dizer seu nome, em três grandes alas: a político-institucional, a moral-comportamental e a econômico-liberal. As duas primeiras se encontram e se resumem na figura do pastor-deputado, mas, para usar a linguagem dos Evangelhos, não há só uma forma de manifestação desse fenômeno. Seu “nome é Legião, porque são muitos”. A direita institucional tem progressivamente deixado de concorrer às eleições proporcionais pelos grandes partidos (DEM, PP, PTB) e se alojado nas micro-legendas que costumamos chamar de partidos fisiológicos (por oposição aos ideológicos). Vamos ver aonde isso vai. A direita “comportamental” tem uma agenda conservadora bem definida contra todos os direitos do século XX: os direitos das minorias de gênero, os direitos humanos, os direitos trabalhistas, o direito penal, etc. Essa variante da direita brasileira se acha em quase todos os partidos do Congresso e seus apóstolos não são sempre e necessariamente o pastor-deputado. Até porque é preciso lutar em várias frentes. A direita “liberal” (em termos econômicos) é, me parece, a que está aí há mais tempo: escreve nos jornais, recita no rádio, declama na TV, posta na internet o receituário de sempre em defesa do capital rentista (“apertar o cinto e gastar com juros”). Enfim: que uns tenham PhD por Chicago e outros sejam pregadores na Baixada Fluminense, que uns se metam em parecer Carlos Lacerda na tribuna e outros  ressuscitem o militar autoritário são instantâneos de uma corrente política que parece estar se firmando entre o eleitorado das grandes cidades. A ver.

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Comentários

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  • Acho que a direita no pais nunca se expôs como agora, e a nossa juventude na ânsia de tentar algo novo está sendo cooptada em muitos casos ingenuamente por esta direita. Mas tudo isto faz parte do amadurecimento político de uma nação, daqui há alguns anos vamos ver o retorno da direita no poder. E todos vão ver de novo o quão amargo é esta turma no poder, principalmente os trabalhadores de baixa renda que são maioria. Pra mim isto é totalmente desnecessário, se nós fossemos mais reflexivos e se nós pensarmos mais a respeito do que é realmente efetivo em termos de progresso do pais. É fácil ver que a direita jamais vai estar do lado dos mais pobres. E isto é um fato histórico.

  • Ernesto Chávez de Castro

    O certo mesmo seria proibir que toda opinião de direita fosse manifestada, pois não passam de destilação de ódio e preconceito da elite golpista contra nossa querida mãe-presidenta.
    Sou a favor do boicote contra brancos em universidades públicas, cotas de 100% para negros e índios em vestibulares e concursos públicos.
    Somos a favor do aborto.
    Somos a favor da proibição da religião.
    Somos a favor do casamento entre espécies e até mesmo entre objetos.
    Somos a favor de um Estado forte, nas mãos do poder popular, sem poder nenhum nas mãos da burguesia exploradora.
    Somos a favor da substituição do natal para o Dia do Proletário em 25/12.
    Viva o bolivarianismo!

    Enviado via iPhone 6s Plus

  • Arnaldo F

    Tenho um texto em que defino os seis principais grupos de direita no Brasil. O entrevistado se confunde, e muito. Faz uma mistura infernal. A teocracia neopentecostal é algo totalmente à parte dos outros grupos, nada tem a ver direitos trabalhistas, possui um projeto próprio e vem crescendo.

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