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Tucano acerta ao alertar para desastre na queda do PIB

Secretário-geral do PSDB afirmou que recessão pode durar três anos seguidos, algo inédito no país; afirmação está correta

“Poderemos ter três anos de queda do PIB, algo nunca antes experimentado em nossa economia.” – deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP), secretário-geral do partido, durante discurso feito no plenário da Câmara no dia 14 de junho

Correto

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Em discurso realizado no plenário da Câmara no dia 14 de junho, o deputado Silvio Torres (PSDB-SP) destacou que o Brasil “atravessa uma crise inédita”. O parlamentar utilizou os valores de referência do Produto Interno Bruto (PIB) para avaliar o cenário econômico vivido pelo país, e se posicionou quanto à reincidência de valores negativos para um dos índices mais importantes de definição econômica de um país. O Truco no Congresso ­– projeto de fact-checking da Agência Pública, feito em parceria com o Congresso em Foco – verificou a frase do parlamentar e constatou que está correta.

Antes de passar para a checagem e para que possamos entender melhor a funcionalidade da economia brasileira, vamos a alguns termos técnicos. A estagnação do setor econômico, por exemplo, significa que os índices do mercado – sejam eles de demanda, investimento, exportação ou consumo – permaneceram sem alterações. Ao pontuarmos a recessão, estamos falando que o volume de riqueza produzido pelo país (PIB) diminuiu em relação ao gerado no ano anterior. Já quando o volume de produção e de demanda apresentam crescimento, dizemos que o período econômico prevê a expansão dos índices.

Agora, vamos explicar, ponto a ponto, a frase dita pelo deputado. Ao mencionar que esta será a primeira vez que o Brasil terá três anos seguidos de retrocesso no PIB, Silvio Torres acertou, já que desde o início da série histórica do indicador – considerado o principal medidor do crescimento econômico de uma região, aplicado pela primeira vez em 1920 –, os períodos de recessão mais longos duraram, no máximo, dois anos. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1930 (-2,1%) e 1931 (-3,3%), anos que contabilizaram, pela primeira vez na história do país, dois anos seguidos de recessão.

No Brasil, a responsabilidade pelo cálculo esteve a cargo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) até 1990. Em seguida, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a fazer a medição. Em um dos estudos desenvolvidos pelo IBGE, chamado “Estatísticas do século 20”, foram retratados os valores dos anos anteriores à aplicação mundial do índice. Entre 1900 e 2000, o PIB do país foi multiplicado por 100. Já nas duas últimas décadas do século, apesar da economia estagnada e das crises de 1981-1984 – vista como a mais severa – e de 1988-1994 – tratada pelo estudo como a mais longa – o índice não registrou retração em mais de dois anos consecutivos.

Ao declarar que o país enfrenta “algo nunca antes experimentado em nossa economia”, o deputado Silvio Torres fez referência à retração do PIB em 2015 (-3,8%); às previsões para o índice em 2016 (-3,5%), e avaliou que essa situação vai perdurar, pelo menos, até 2017, quando o indicador deve fechar o ano com queda de até 1%. Dessa forma, seriam contabilizados três anos consecutivos na história do Brasil com valores negativos para o PIB. Esse cenário realmente nunca foi experimentado pela economia brasileira.

Os números citados pelo deputado foram divulgados pelo atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em discurso a empresários no Palácio do Planalto em 8 de junho. O chefe da pasta avaliou que a recessão atual é mais grave do que a vivida nos anos 1930, e chamou a atenção para a retração do PIB em 2015, 2016 e 2017.

“Estamos vivendo a crise mais intensa da história do Brasil. Vamos esperar, mas não será surpresa se a contração deste ano for a mais intensa desde que o PIB começou a ser medido, no início do século 20. É uma crise que gerou 11 milhões de desempregados. Temos que reverter esse processo”, afirmou o ministro da Fazenda.

E o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Ellery, afirma que, em termos de queda da produtividade da economia brasileira, o principal critério é a medição do PIB. O professor, ao comentar a fala de Meirelles, disse concordar com o ministro. Ele explicou ainda que, apesar de a economia mundial também estar conturbada, “a crise é nossa”.

“Em 2015, só dez países cresceram menos que o Brasil. E todos eles tinham problemas graves, como guerra civil ou epidemia. E segundo o FMI [Fundo Monetário Internacional], em 2016 a previsão é de que só cinco países estejam atrás do Brasil. Nós temos sim uma crise muito grave e é preciso que façamos reformas. A gente precisa melhorar os indicadores para que seja mais fácil investir no Brasil”, ponderou.

O professor também avaliou como o Brasil chegou nesses valores tão baixos para o índice. Para Ellery, a partir de 2006 e 2007, o governo começou a seguir um caminho muito perigoso ao interferir de forma direta no processo de crescimento. O doutor em economia explicou que as intervenções começaram “suaves”, mas na crise de 2008 o cenário foi agravado.

“Começaram a usar recursos públicos em empresas. Por exemplo, o BNDES que emprestava cerca de R$ 20 bilhões por ano, passou a emprestar R$ 200 bilhões. E isso começou a gerar empresas que vivem mais de pedir empréstimo pro governo que de eficiência própria. No Brasil a gente empenhou demais nisso, usando o dinheiro do governo, e não tem retorno porque grande parte desse investimento não deveria ter sido realizado”, enfatizou.

A série histórica, produzida pelo IBGE, também aponta a queda de 3,8% do PIB em 2015 como recorde. O valor é considerado o maior desde 1990, quando o governo do ex-presidente Fernando Collor registrou queda de 4,3% no indicador. Para 2016, a expectativa traçada pelo instituto de pesquisa avalia que a retração, apesar de menor que a contabilizada no ano passado, deve registrar queda de 3,5%.

O deputado Silvio Torres (PSDB-SP) alertou para a gravidade da crise

O deputado Silvio Torres (PSDB-SP) alertou para a gravidade da crise. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Para 2017 – apesar de as pesquisas adiantarem que o indicador deve ter recuperação de 1% –, as expectativas continuam apontando retração no indicador. O prognóstico é decorrente de avaliação feita pela FGV, apresentada no último dia 13. Segundo a coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV/Ibre), Silvia Matos, haverá nova estagnação do índice em 2017, fator que mantém os valores abaixo de zero, já que não prevê crescimento acentuado.

Dessa forma, apesar de não apresentar maiores quedas, a paralisação do PIB em 2017 representa que o indicador não conseguirá se recuperar da recessão vivida nos anos anteriores, deixando o índice negativo pelo terceiro ano consecutivo.

“Olhando todos estes números a gente acredita que 2017 ainda será fraco. Esse é o ponto importante. Vai ser melhor do que este ano, mas ainda não dá para estimar um crescimento forte de 2% ou até em torno de 1%. O nosso número ainda mostra uma certa estagnação”, explicou. “Não adianta nada a gente crescer rapidamente em 2017, com uma inflação alta, e em 2018 ter que retomar uma subida de juros. Acho que a gente vai devagar e sempre. Acho que este é o ponto importante”, acrescentou a coordenadora do boletim.

Roberto Ellery avaliou apesar das expectativas do mercado, a projeção para 2017 deve ser vista com cautela, já que “tem muita coisa para acontecer” até lá. “Estamos vivendo um momento muito incerto. As previsões precisam ser vistas com muito cuidado, mas é possível que em 2017 tenhamos novo PIB negativo, sim. E se for, teremos esse fato inédito”, destaca. “Mas, mesmo assim, os valores atingidos em 2015 e 2016 não são vistos desde a década de 30, quando teve a grande depressão da economia brasileira. E isso já é bem grave”, acrescenta Ellery.

De acordo com ele, esse cenário, além de “atrapalhar muito”, significa que a população, como um todo, está empobrecendo. Ele pontua que “essa crise é muito séria e as pessoas parecem não levar tão a sério. Esse é um dos momentos mais duros da economia brasileira na história dela”. “Você precisa ter crescimento por meio de eficiência, e esse tipo de crescimento não existe no Brasil há pelo menos 30 anos. Ou a gente cresce com capital, ou colocando mais gente para trabalhar, mas não existem projetos que garantam a eficiência da máquina pública. Esse é o drama do Brasil”, finaliza o economista da UnB.

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Comentários

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  • Ivan Mussa

    “Estamos vivendo a crise mais intensa da história do Brasil.”

    A frase é ambígua. Mais intensa ou mais extensa? Há diferença. O PIB é um indicador dentre muitos. Pra afirmar isso, não deveríamos comparar dados de desemprego, inflação, miséria, etc . com outros momentos da história? O deputado pode ter acertado quanto à extensão de três anos, mas dizer que essa é a crise mais intensa da história é uma afirmação sem embasamento.

    Gosto das verificações da Pública, mas essa me pareceu demasiado “boazinha” com o blefe do deputado.

    • nataliaviana

      Oi Ivan. quem afirmou que era a “crise mais intensa” foi o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. A frase checada pelo Truco foi: “Poderemos ter três anos de queda do PIB, algo nunca antes experimentado em nossa economia.” Abraço!

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