Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

7 fatos sobre a reforma trabalhista

Nos debates em torno da proposta no Congresso, nem sempre os parlamentares usaram dados de forma correta

Checagem
3 de julho de 2017
15:37
Este artigo tem mais de 9 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Centrais sindicais protestaram em todo o país contra as reformas trabalhista e previdenciária no dia 30 de junho
Centrais sindicais protestaram em todo o país contra as reformas trabalhista e previdenciária no dia 30 de junho
Centrais sindicais protestaram em todo o país contra as reformas trabalhista e previdenciária no dia 30 de junho. Foto Jaelcio Santana/ForçaSindical/FotosPublicas

Durante as discussões da reforma trabalhista proposta pelo governo Michel Temer (PMDB), deputados e senadores da base aliada e da oposição dispararam uma série de dados para apoiar ou criticar o projeto. Nem sempre as informações estavam corretas. Ao longo dos últimos meses, o Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – analisou sete argumentos usados pelos parlamentares. Veja quais são os fatos por trás das frases usadas pelos políticos.


1. O Brasil não é campeão mundial em processos trabalhistas.

O argumento falso de que o Brasil é o maior recordista em ações trabalhistas tem sido repetido insistentemente no Congresso e na imprensa. A afirmação foi encontrada pelo Truco no relatório da reforma trabalhista analisado na comissão especial da Câmara que debateu a proposta, elaborado pelo deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN). Nossa checagem mostrou que não há nenhum levantamento mundial ou pesquisa que comprove isso. Especialistas não recomendam comparar países com legislações completamente diferentes nessa área. Além disso, o grande número de processos não ocorre por falhas na legislação atual.

Saiba mais em Falhas na CLT tornam o Brasil campeão de processos trabalhistas?


2. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é alterada constantemente.

Pelo menos 53 leis, decretos e medidas provisórias alteraram a CLT desde que foi criada, há 74 anos. As alterações serviram para complementá-la, regular alguns dos pontos ou modificar outros. Por isso, é falso dizer que se trata de uma legislação que ficou parada no tempo, como insinuou o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), em relatório apresentado na Comissão de Assuntos Sociais. O próprio parlamentar entrou em contradição no documento, que lista várias das mudanças.

Veja em Imprecisões cercam argumentos a favor da reforma trabalhista.


3. O desemprego jamais chegou a 4,8% no governo Lula.

Ao comparar os índices de desemprego do governo Temer com os registrados nos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o deputado Caetano (PT-BA) exagerou e disse que a taxa era de 4,8% na administração do seu companheiro de partido. Embora a quantidade de desempregados tenha diminuído ao longo dos oito anos de Lula, a menor média anual foi de 6,7%, atingida em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os índices de desemprego foram mais baixos no governo Dilma Rousseff (PT), com a taxa média caindo a 4,8% em 2014. Mas logo depois começaram a aumentar progressivamente.

Leia mais em Ao criticar reforma trabalhista, deputado exagera dados do governo Lula.


4. A informalidade não prejudica 45% dos trabalhadores.

A parcela de trabalhadores na informalidade é realmente muito alta no Brasil. De acordo com estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados do IBGE, o porcentual está em 45%. Mas não está certo dizer que todas essas pessoas sofrem por estarem nessa condição, como fez o senador Romero Jucá (PMDB-RR) no relatório apresentado à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. Ainda que pequena, uma parte dos informais sem carteira assinada ou que trabalha por conta própria consegue rendimentos superiores a cinco salários mínimos.

Saiba em Imprecisões cercam argumentos a favor da reforma trabalhista.


5. A reforma trabalhista não muda a Constituição, mas retira direitos.

Por se tratar de um projeto de lei, a reforma trabalhista não tem o poder de alterar a Constituição. Há, no entanto, direitos que só são garantidos pela CLT e por leis complementares e eles não estão protegidos. Foi o que afirmou corretamente o senador Paulo Paim (PT-RS) no relatório apresentado à Comissão de Assuntos Sociais do Senado. A proposta do governo torna muitos desses direitos negociáveis, às vezes diretamente entre patrão e empregado. Para especialista na área ouvida pelo Truco, haverá precarização se a lei for aprovada.

Leia mais em Imprecisões cercam argumentos a favor da reforma trabalhista.


6. O PT não deixou 14 milhões de pessoas desempregadas.

O desemprego começou a crescer no segundo mandato de Dilma, mas é distorcido dizer que todos os desempregados que existem hoje vêm do governo petista. Checado pelo Truco, o deputado federal Pauderney Avelino (DEM-AM) fez essa afirmação no plenário da Câmara. Diferenças na metodologia impedem de comparar os números do final do governo PT com os dados do IBGE de 2003, quando Lula assumiu, ou de 2011, quando Dilma iniciou seu primeiro mandato. Quando foi aprovado o impeachment, havia 12 milhões de desempregados. Ainda assim, todos os governos anteriores sempre tiveram um contingente variável de pessoas à procura de trabalho. O número nunca foi zero – e isso impede que todo o grupo seja colocado na conta de um presidente ou partido.

Veja em Parlamentar distorce informações ao acusar PT de desempregar 14 milhões.


7. Força de trabalho potencial não pode ser somada ao total de desempregados.

Para inflar o contingente de pessoas desocupadas, o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) somou o número de desempregados com outro dado, o da força de trabalho potencial. Segundo o IBGE, são “pessoas que gostariam de trabalhar, mas não procuraram trabalho, ou que procuraram, mas não estavam disponíveis para trabalhar”. Com isso, a conta passou de 14 milhões para 21 milhões de brasileiros. O instituto alerta que é errado fazer esse tipo de cálculo, por se tratarem de grupos diferentes. A medição serve para traçar um retrato mais fiel do mercado de trabalho.

Saiba em Imprecisões cercam argumentos a favor da reforma trabalhista.

Entenda mais sobre a metodologia e sobre os selos de classificação adotados pelo Truco no site do projeto. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org ou para o nosso WhatsApp: (11) 96488-5119.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Parlamentares-patrões conduziram mudanças trabalhistas

|

Empresa de relator do projeto de terceirização acumula processos trabalhistas; maioria de parlamentares que aprovou a lei é de empresário e/ou representante de entidades patronais; presença empresarial se repete em reforma trabalhista

As bancadas do Senado

|

Maiores grupos da Casa defendem o agronegócio e o setor empresarial e não devem ter dificuldades em se alinhar às pautas do novo governo

Notas mais recentes

Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Leia também

Parlamentares-patrões conduziram mudanças trabalhistas


As bancadas do Senado


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imagem do presidente Lula como alvo em clube de tiro em São Paulo

Homens praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo

|

Gravação aconteceu em clube de tiro que já foi alvo de ação policial; vereador já foi condenado por prática semelhante
Colagem com as fotos de Rodrigo Cataratas e Alexanfre Ramagem

Foragido, líder do garimpo ilegal Rodrigo Cataratas tem empresas e bens de luxo nos EUA

|

Condenado por garimpo na terra Yanomami ajudou na fuga de Alexandre Ramagem e, por isso, também está foragido da Justiça

Ministério Público encurrala Meta para barrar bloqueios e restrições nas eleições

|

Ação quer impedir que algoritmos barrem conteúdos; Pública mostrou que grupos pró-Lula foram acusados de terrorismo

Políticos têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar ao TSE

|

Flávio Bolsonaro tem mais de sete perfis de apoio não declarados; Janones, um; Campopiano e Pavanato também têm rede
Colagem com as fotos do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e do cantor Gusttavo Lima

Bolsonarista, Gusttavo Lima pressionou Vorcaro por acordo para movimentar R$ 23 bilhões

|

Cantor que declarou apoio a Flávio Bolsonaro propôs a dono do Master fornecer maquininhas em MG: "Vamos trabalhar, bb"

Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

|

Rumor? Exagero? Mentira? Reunimos um guia de questionamentos que estão na cabeça do eleitor para nossas investigações
Imagem aérea de local desmatado em Rurópolis

Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

|

Volta a índices de desmatamento do governo Bolsonaro podem aproximar floresta de ponto de não retorno
Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais
Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas