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Reportagem

Executivos tentaram influenciar EUA sobre nacionalização do gás na Bolívia

Em conversas com diplomatas americanos em 2006, representantes da Shell e British Gas exageraram nas previsões e deixaram clara sua irritação com decreto de Evo Morales

Reportagem
8 de julho de 2011
15:00
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Dois documentos da diplomacia americana – um do consulado de São Paulo e outro da embaixada dos EUA em La Paz – vazados pelo WikiLeaks revelam como o vice-presidente para América do Sul da companhia britânica British Gas (BG), Rick Waddell, e o CEO da Shell no Brasil, Vasco Dias, tentaram influenciar a opinião dos Estados Unidos sobre as consequências da nacionalização do gás boliviano, lançando mão de uma série de boatos que posteriormente se revelariam falsos.

O mais flagrante dos rumores chegou a ouvidos americanos no dia 20 de outubro de 2006, quase seis meses após Evo Morales ter assinado o decreto que estatizou os recursos energéticos do país. Então, Rick Waddell reclamava do teor dos novos contratos oferecidos às empresas estrangeiras que exploravam os hidrocarbonetos bolivianos.

“As autoridades bolivianas são inexperientes e não entendem como são negociados os contratos no mundo real hoje em dia”, disse o executivo da BG, por telefone, aos funcionários do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo. “Também não sabem que tipo de exigências são realistas.” Sendo assim, continua o documento, Rick Waddell atestou aos diplomatas: “não há maneira” de que a BG aceite o acordo proposto pelos bolivianos – e “duvido que qualquer outra empresa o assine”.

No entanto, oito dias depois de trocar figurinhas com os norte-americanos, a mesma British Gas (além de outras sete empresas, entre elas a Petrobras) firmaram contrato com os bolivianos, atendendo o prazo limite imposto pelo presidente Evo Morales para a renegociação dos termos de exploração.

Sem gás para a Argentina?

O executivo da BG também teria dito que, após a nacionalização, a Bolívia enfrentaria dificuldades em alcançar a meta auto-imposta de abastecer a Argentina com 20 milhões de metros cúbicos diários de gás a partir de 2010. “Waddell disse que os bolivianos já têm dificuldades em cumprir seu atual compromisso de enviar 7,7 milhões de metros cúbicos por dia aos argentinos”, escreveram os diplomatas naquele então.

“O acordo irá requerer muitos bilhões de dólares para construir novos dutos, explorar novos campos e desenvolver os existentes. Tanto dinheiro, opinou o executivo, pode apenas vir de empresas multinacionais, que não estão dispostas sequer a considerar investir na Bolívia em meio a tantas incertezas.”

Cinco anos depois, em 30 de junho de 2011, os governos de Evo Morales e Cristina Fernández de Kirchner, em cerimônia realizada em Buenos Aires, inauguraram o Gasoduto de Integração Juana Azurduy, com 48 km de extensão e capacidade para enviar diariamente à Argentina 27,7 milhões de metros cúbicos de gás natural até 2020.

A falta de investimentos por parte da estatal boliviana YPFB também foi menor do que prevista pelo executivo da BG. Pouco mais de um ano após a nacionalização do gás, a companhia hispano-argentina Repsol-YPF prometeu injetar US$ 98 milhões nas reservas bolivianas. Em 2008, a Repsol-YPF e sua filial, Andina, foram as que mais destinaram capital às jazidas do país: US$ 292 milhões.

A própria British Gas, de Rick Waddell, endereçou à Bolívia investimentos de US$ 52,3 milhões em 2007 e US$ 38,8 milhões no período seguinte.

Juntas, todas as empresas estrangeiras em operação no país colocaram na indústria hidrocarbonífera boliviana US$ 587 milhões em 2007 e US$ 967 milhões em 2008. Atualmente, a BG tem participações em seis blocos de exploração de gás na Bolívia, inclusive nos campos de Margarita e Itaú, os maiores descobertos em solo boliviano até agora.

“Tapa na cara do Brasil”

Enquanto Rick Waddell dizia aos diplomatas norte-americanos que a nacionalização do gás e do petróleo na Bolívia havia sido um “tapa da cara do Brasil”, representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), em reunião  com funcionários do Consulado dos Estados Unidos, pareciam tranquilos quanto às consequências do decreto de Evo Morales para a economia brasileira.

“Os representantes da FIESP não esperam, no curto ou médio prazos, nenhuma interrupção no abastecimento de gás ao Brasil. O comércio, explicaram, é muito importante a ambos os países para que o presidente boliviano tome medidas políticas tão drásticas”, escreveram os diplomatas. “Para a indústria brasileira”, continuam os emissários da FIESP, “as preocupações sobre a escassez de gás estão esclarecidas, mas existe alvoroço popular sobre um corte na oferta”.

De acordo com o documento, as razões que fizeram os industriais paulistas descartarem uma possível interrupção no fornecimento de gás eram bastante simples: primeiro, em 2006, existiam mais de um milhão de veículos movidos a gás natural no Sudeste brasileiro; e, segundo, “aproximadamente 35% dos impostos bolivianos vêm das taxas pagas pela Petrobras, e 70% do gás boliviano é vendido ao Brasil”.

Finalmente, os representantes da FIESP lembraram os diplomatas americanos de que a “Bolívia é dependente dos portos brasileiros para suas exportações, e promover antagonismos com seu vizinho gigante pode ser extremamente arriscado”.

As afirmações da FIESP também desmentiriam as palavras do presidente da Shell no Brasil, Vasco Dias. Em conversa privada com o ex-embaixador Clifford Sobel no Consulado do Rio de Janeiro, apenas uma semana depois de Evo Morales ter decretado a nacionalização do gás, o executivo avaliou: “O Brasil está preocupado sobre o potencial déficit de abastecimento no futuro próximo, pois viabilizar a produção adicional de gás no próprio país será um processo lento, complexo e caro”.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública. LEIA MAIS

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