Agência de Jornalismo Investigativo

Computadores, impressoras, aparelhos de ar-condicionado, GPS´s e até cachorros foram entregues às unidades de combate às drogas entre pelo menos 2004 e 2009

4 de julho de 2011

De acordo com o que se pode presumir de um telegrama da embaixada dos Estados Unidos de 10 de dezembro de 2010, o país da América do Norte doa equipamentos regularmente à polícia brasileira, que os utiliza em serviços de inteligência no combate às drogas.

O documento é uma espécie de prestação de contas das inspeções do material doado realizadas pela embaixada nas unidades que receberam os produtos. Segundo o telegrama, quem os registra e inspeciona é o NAS, sigla em inglês para Seção de Assuntos Relacionados a Narcóticos (tradução livre), departamento antidrogas de cada embaixada estadunidense, diretamente vinculado ao Departamento de Estado dos EUA. As doações seriam parte do acordo bilateral de cooperação no combate às drogas entre os dois países.

De acordo com o telegrama vazado pelo WikiLeaks, foram inspecionadas sete unidades policiais em quatro cidades foram visitadas: Brasília, São Paulo, Belém e Manaus. O relatório lista o material doado e relata em que condições ele se encontrava no momento da inspeção.

Entre os equipamentos doados, constam mais de 100 computadores entregues entre 2004 e 2009 à Polícia Federal e às Polícias Civil de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Servidores, no-breaks, impressoras, scanners celulares Nextel, aparelhos GPS, aparelhos de ar-condicionado e até cachorros pré-treinados. Também constam doações para Manaus, Belém, Porto Velho, Porto Seguro, Brasília, Campo Grande e Teresina.

Segundo o documento, “os materiais doados continuam a aumentar a capacidade de coleta de informações por meio de serviços de inteligência das SIUs [Unidades Especiais de Investigação]. (…) O Programa de Lavagem de Dinheiro foi aumentado por meio da compra de equipamentos e a cooperação coordenada entre a entidade de combate ao crime do Brasil e suas contrapartes”.

O telegrama relata ainda que especialistas estadunidenses em prisões conduziram uma avaliação do sistema prisional federal do Brasil, contribuindo para a instituição de uma “parceria para ajudar a melhorar o sistema”.

Por fim, o relatório chama a atenção para o fato de a polícia brasileira ter dificuldades em fazer a manutenção e o conserto dos equipamentos doados. “As garantias do produto geralmente não cobre a manutenção no Brasil, e o alto custo do frete faz dos consertos um procedimento muito caro. Além disso, peças de reposição para os computadores fabricados nos EUA não estão prontamente disponíveis no Brasil”.

O documento é parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública. LEIA MAIS

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