Pedro, de 15 anos, transmite ao vivo por uma câmera instalada na laje da sua casa a construção do estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo

Pedro, de 15 anos, transmite ao vivo por uma câmera instalada na laje da sua casa a construção do estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo

10 de fevereiro de 2012
07:00
Este texto foi publicado há mais de 10 anos.
Especial: Copa Pública

Bem antes do evento inaugural da Copa de 2014, no metrô da linha vermelha numa manhã de sábado, a tatuagem no braço direito do rapaz sentado ao meu lado anuncia: Gaviões da Fiel. O destino era o extremo da Zona Leste de São Paulo para conhecer Pedro Lima Salomão, um corintiano de 15 anos que colocou a obra do estádio do Timão, em Itaquera, ao alcance dos olhos do mundo inteiro.

Da janela de sua casa, registrou e compartilhou cada tijolo e estrutura de ferro no momento em que os operários os colocavam. E continua ligado: na tela do computador, a câmera instalada na laje da casa se movimenta para a direita, para a esquerda e dá um zoom no terreno, oferecendo ângulos diferentes. Tudo automático, programado antecipadamente no computador.

A imagem não é de primeira, mas dá pra ter uma boa noção do que já foi feito até agora. A arquibancada já vai alta. No centro, o que ocupa o espaço são as máquinas, que de longe se confundem com a estrutura grandiosa de uma das obras mais controversas da Copa.

Embora tenha sido anunciado como investimento privado, o estádio orçado em R$ 820 milhões está sendo construído com um empréstimo de R$ 400 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O governo e a Prefeitura de São Paulo também anunciaram incentivos fiscais de R$ 70 e R$ 420 milhões, respectivamente. Em 27 de janeiro deste ano, o governo federal incluiu a obra no programa Recopa, que dá direito a suspensão de cobrança de Cofins, PIS/Pasep, Imposto de Importação e Imposto sobre produtos industrializados (IPI) sobre máquinas e equipamentos importados para a Arena Fundo de Investimento Imobiliário, que é um fundo gerado da união entre o Corinthians e a Odebrecht.

A façanha de Pedro inflama a torcida do Corinthians, ávida para conquistar um estádio, e ameniza a crítica dos que desconfiam do uso de dinheiro público em obras privadas. Pedro já deu as caras em praticamente todas as emissoras da TV aberta, mas a timidez ainda é notável no sorriso do garoto de fala baixa e um pouco arrastada.

“Tudo começou porque meus parentes de outras cidades, em Ribeirão Claro, no Paraná, e em Minas Gerais, pediam pra tirar fotos. Pouca gente acreditava que ia sair o estádio. Tem uns que ainda não acreditam”, conta. Foi quanto teve a ideia: por que não instalar uma câmera na laje de casa para provar que a construção vai de vento em popa? Dito e feito.

Com o apoio do pai, Reinaldo Pelaes, engenheiro civil e eletricista, compraram e instalaram a câmera, que era protegida da chuva por uma garrafa PET cortada. “A gente só não conseguia passar a imagem para a internet”. Foi aí que César Carlos Souza, também corintiano, amigo do pai de Pedro e técnico em informática entrou na jogada e ajudou a colocar o blog para funcionar.

Hoje a primeira câmera já é enfeite na estante da sala dos computadores. Com ajuda dos participantes do chat do site, que fizeram uma vaquinha, foi substituída por um novo modelo, usado para vigilância, com a cúpula invertida para baixo.

Com o sucesso do blog, criado entre o final de julho e o início de agosto do ano passado, o Arena Timão Ao Vivo virou um site, com mais de um milhão de acessos até agora e anunciantes conquistados. “Hoje chega a 15, 20 mil acessos por dia”, diz Pedro. Ele conta que nem pensou em ganhar dinheiro quando começou o projeto. Mas é bom para ajudar a pagar a conta de luz que aumentou consideravelmente. E para ajudar seu projeto do coração, ver da janela seu time jogar: “A torcida é uma coisa muito linda”.

Em seu quarto, ao lado das miniaturas de carros e motos, está a caneca de edição especial do centenário do Corinthians. Atrás da porta, uma grande bandeira pendurada. Seus ídolos são o ex-jogador Ronaldo e os atuais Ralf, volante, e Alex, meio campista.

Pedro também sonha em ser jogador de futebol. Fez dois testes, um para o Santo André e outro para a Portuguesa. Não passou, mas acha que tem chance. “É que é muito difícil, são muitas pessoas [concorrendo]”. Os pais querem que continue a estudar, mas ele ainda não sabe o que prestar para o vestibular.

Com a ajuda de Pablo Sartori, jornalista na Rádio Itaquera que se tornou amigo depois de uma entrevista, Pedro finalmente pisou no campo que tanto espia da janela de sua casa. “Fiquei arrepiado!” diz. Acompanhado de associados e conselheiros do Corinthians, ele descobriu que é mais famoso do que pensava. “Todo mundo me reconheceu, fiquei feliz”, conta. Depois de conhecer o estádio, será que ainda falta alguma coisa? “Falta eu jogar no Corinthians!”, revela com grande ambição, mas sorriso tímido.

Ainda que pense no sucesso do site como pontapé para a carreira de jogador, Pedro acredita que os benefícios também podem vir para seu bairro. Chama atenção para as melhorias estruturais que acha serem necessárias. “Aqui vai ser a abertura da Copa do Mundo. A avenida que tem é pequena pra receber uma Copa do Mundo e também os jogos do Corinthians. Tem que melhorar, porque se não as duas torcidas vão entrar pelo mesmo lugar. Aí vai ser um inferno”, critica o jovem.

Pedro pretende deixar a câmera ligada pelo menos até o estádio ficar pronto. Quer, claro, filmar durante a Copa do mundo, mas não sabe se o Corinthians – e a FIFA – vão deixar. Nem mesmo tem certeza de que sua vista privilegiada se manterá quando os muros se erguerem.

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