Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

“Tu sabes que se a gente perder a terra, tu vais perder a vida”

A frase da mulher do fazendeiro resume a série de ameaças sofridas por Nádia Pinho da Silva, liderança rural em Santana do Araguaia, Pará

Reportagem
29 de julho de 2013
10:02
Este artigo tem mais de 13 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

No município de Santana do Araguaia, distante 1.255 km de Belém, divisa do Pará com Mato Grosso, Nádia Pinho da Silva, 44 anos, dorme pouco, atenta aos menores ruídos da rua. Se alguém bate à porta, checa direitinho quem é, antes de atender. Tem sido assim desde janeiro de 2007. Na manhã do dia 8, daquele mês, Nádia era uma das lideranças à frente das 55 famílias de trabalhadores rurais que acamparam diante da fazenda Ouro Verde, na zona rural do município, e ali ficaram dois anos, antes da expulsão definitiva por uma liminar de despejo da Vara Agrária do município vizinho de Redenção, cumprida com apoio ostensivo da Polícia Militar de Belém. A ação originou uma série de outras ocupações. E Nádia passou a viver entre ameaças e enfrentamentos.

Nádia chegou a ser presa, acusada por um crime que não cometeu. Em liberdade, convive com as ameaças constantes (Foto: Ney Marcondes)
Nádia chegou a ser presa, acusada por um crime que não cometeu. Em liberdade, convive com as ameaças constantes (Foto: Ney Marcondes)

Se não foi por acaso, também não foi por inclinação pessoal que Nádia Pinho se tornou uma das líderes dos trabalhadores rurais. O pai, cearense, trabalhava em uma fazenda e tinha um pequeno lote de terra em uma vila que ficava distante 80 km do centro de Santana do Araguaia, também no Pará. Nádia nasceu e cresceu no meio rural – a terra da família se perdeu com a morte do pai, em 2003, incorporada por grileiros a outras propriedades.

Em 2006, Nádia recebeu uma oferta inusitada. Se cozinhasse para os posseiros que ocuparam uma fazenda, a Vitória Régia, ganharia um lote de terra. Para quem havia crescido sonhando com um pedaço de terra, a proposta soou como música. Dez alqueires foi a parte do latifúndio que lhe coube, ocupado por 27 famílias. Numa manhã de quinta-feira santa em 2007, viu uma picape se aproximar e um homem perguntar se eles sabiam onde estavam. Ali era a fazenda Nobel, anunciou, sem que ninguém soubesse disso.

O impasse chegou a Brasília. O ouvidor agrário Gersino Filho se dispôs a intermediar a situação. Nádia nunca havia posto os pés na capital federal. Na reunião costurou-se um acordo com o dono da fazenda: as famílias desocupariam o local e o Incra faria a vistoria da terra. Os trabalhadores rurais aceitaram e ficaram em uma divisa da fazenda Vitória Régia. Para defender seus interesses criaram uma associação, a Associação dos Trabalhadores Sem Terra Brasil Novo.

No final do ano o acordo começou a ser descumprido. Um gerente da fazenda apareceu na área dos sem terra com pistoleiros a reboque. Passaram trator nos roçados, queimaram barracos. Com as chuvas de fim de ano, e o início da estação de plantio no Pará, os trabalhadores rurais tinham feito suas roças, mesmo em terras da Nobel. “Isso gerou polêmica porque fomos acusados de descumprir o acordo”, lembra Nádia.

Da polêmica veio o primeiro despejo, em 2008, e as famílias tiveram que acampar à margem da rodovia BR-158. Foram mais de nove meses de acampamento, até reocupar a fazenda novamente. Nesse período Nádia Pinho começou a se aproximar da Comissão Pastoral da Terra. Em 2010 disputou e conquistou uma vaga no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santana do Araguaia.

Nádia Pinho é uma das lideranças entre 55 famílias na divisa entre PA e MT (Foto: Ney Marcondes)
Nádia Pinho é uma das lideranças entre 55 famílias na divisa entre PA e MT (Foto: Ney Marcondes)

O primeiro desafio foi organizar um grupo que pretendia retomar as terras de uma colônia chamada Verde-Bandeira, desapropriada pelo Incra, e grilada por um fazendeiro. Ao reivindicar no Incra a terra conquistada, Nádia passou a sofrer ameaças.

“Um homem chamado Amaral me parou uma vez e disse: ‘Já sei quem você é. É quem comanda o sindicato”. E deu um prazo até o dia seguinte para que ela retirasse uma ocorrência de espancamento de sem-terra ocorrido dias antes numa das ocupações desencadeadas pelo sindicato. Segundo Nádia, o emissário estava a mando do fazendeiro João Moreira, que tinha uma das fazendas ocupadas pelo acampamento Pé da Serra. Dias antes havia ocorrido um despejo do acampamento, com um agricultor ferido à bala. A fazenda estava em vias de desapropriação pelo Incra e o fazendeiro era acusado da agressão.

“A mulher do fazendeiro, Regina, me disse assim: ‘Tu sabes que se a gente perder a terra vais perder a vida’,” conta Nádia.

Os entreveros com pistoleiros a mando de fazendeiros renderam outra dor de cabeça a Nádia Pinho. Numa das ações de despejo da fazenda Nobel, um dos posseiros, de 55 anos, foi humilhado à vista de todos por um pistoleiro. Jurou vingança. No dia 14 de fevereiro desse ano, cumpriu a promessa e matou o pistoleiro.

“Quando a polícia prendeu o ‘seu’ Pedro, disseram a ele que se me acusasse de ter sido a mandante, aliviariam o lado dele. E ele fez isso”, diz Nádia.

Nádia foi ameaçada pela mulher do fazendeiro, quando reclamava por terras desapropriadas pelo Incra (Foto: Ney Marcondes)
Nádia foi ameaçada pela mulher do fazendeiro, quando reclamava por terras desapropriadas pelo Incra (Foto: Ney Marcondes)

No dia 22 de maio, saiu o mandado de prisão contra Nádia Pinho e outra trabalhadora, Késia Furtado. Orientada pela CPT Nádia se entregou e permaneceu encarcerada por 12 dias. A mulher do pistoleiro mandou recado ameaçando Nádia, e o irmão dele começou a passar devagar diversas vezes em frente à casa dela. O fazendeiro diz que não vai aceitar perder as terras. “São três linhas de tiro me rodeando”, diz Nádia Pinho.

Com três filhos, viúva, Nádia tenta não envolver a família nos conflitos. “A gente não vive, não sabe o que vai acontecer. Eu não tenho plano de ir embora daqui, porque é a minha raiz, vivi aqui minha vida inteira. Mesmo com medo vou continuar. É o que posso fazer”, diz.

Fotos: Ney Marcondes

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Maria Joel da Costa herdou a luta e as ameaças de morte

|

Viúva, ela virou presidente do sindicato e passou a denunciar o trabalho escravo nas fazendas de Rondon do Pará

Maria do Carmo luta por sua comunidade e pela floresta

|

Ameaçada de morte, há três anos Du Carmo trabalha para garantir a sobrevivência de sua comunidade em harmonia com a preservação da floresta amazônica

Notas mais recentes

Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Leia também

Maria Joel da Costa herdou a luta e as ameaças de morte


Maria do Carmo luta por sua comunidade e pela floresta


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas