Agência de Jornalismo Investigativo

Autoras da décima reportagem financiada por crowdfunding contam como foi o trabalho por trás da história

Este texto foi publicado há mais de 7 anos.
“É difícil para a mulher aceitar ter um filho concebido em um ato extremamente violento” Irotilde Gonçalves,pioneira do serviço de aborto legal

Escolhemos falar sobre o serviço do aborto legal na rede pública de saúde no Brasil porque este é um tema pouquíssmo abordado pela imprensa, apesar de ser um direito garantido por lei. Diversos questionamentos nos motivavam: será que as mulheres brasileiras conhecem esse direito? O que acontece quando uma delas tenta realizar o procedimento? Quais são os profissionais envolvidos – será que eles estão preparados? Quais esferas do poder público são responsáveis por garantir o atendimento? E sobretudo: quem são as mulheres que recorrem a essa alterativa? Há, entre elas, distinções de cor, classe?

Durante a apuração prévia, constatamos algo que enfrentaríamos ao longo de todo o processo: o obscurantismo. As informações eram escassas e quem deveria cedê-las muitas vezes se negou a fazê-lo. Foi o caso, primeiro, do Ministério da Saúde, que afirmou não divulgar a lista dos hospitais referência no serviço por “motivos de segurança”. Ainda assim, inscrevemos a pauta e fomos escolhidas. A apuração da reportagem começou já naquela primeira semana, e instigou em nós três um faro para toda questão feminina e feminista. Mas sabíamos que a matéria ia além da sua pauta específica: investigar o serviço de aborto legal era falar, acima de tudo, sobre direitos humanos, sobre a violência contra a mulher em todas as suas formas.

Como ficou provado nesses cinco meses de trabalho, era entrar em contato com engodos religiosos, políticas públicas, com histórias amargas e indigestas, machismo e desigualdades. Já desconfiávamos que aborto no Brasil, autorizado por lei ou não, era um problema de saúde pública. Mas descobrimos que a questão se encontra sob um guarda-chuva de fatores que não se limitam a falhas no Sistema Único de Saúde. A discussão sobre aborto no Brasil é refém de valores socioculturais, herança de uma sociedade patriarcal que empurra a mulher para margem e anula todas as suas possibilidades de se tornar protagonista. Logo, as políticas públicas voltadas às mulheres deste país apenas seguem essa mesma dinâmica, a de coadjuvante. Com o aborto é pior: nem coadjuvante ele é. A impressão que ficou é que existem poucos corajosos lutando por sua inclusão definitiva na saúde pública. O aborto é mal visto, mal falado, abafado.

Encontramos muitos entraves para a produção da reportagem. Como já citado, o acesso à informação foi o maior deles. A exemplo do Ministério da Saúde, a Secretaria de Política para as Mulheres também se esquivou. Demoramos meses para conseguir entrevista com Aparecida Gonçalves, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, já que Eleonora Menicucci, chefe da pasta, não fala sobre o assunto. Fontes apareciam e desapareciam como mágica, e recebemos muitos “nãos” ou “nos falamos em breve” como resposta. Ouvimos outros “não é da nossa alçada falar disso”. Tivemos muitas negativas categóricas e alguns cancelamentos de entrevista em cima da hora.

É importante lembrar das pessoas – mulheres, em sua maioria – que batalham pela causa. Sem elas, a matéria não teria sido possível. Elas sim conhecem o serviço de perto, sabem qual é sua situação atual, e persistem em melhorá-lo por meio de pesquisas, trabalhos e esforços autônomos. São elas, provavelmente, que levarão o aborto à descriminalização, quando acontecer – esperamos que brevemente. São os sujeitos políticos responsáveis por jogar luz às questões da mulher no Brasil.

Uma das maiores conclusões que tiramos foi: a interrupção da gravidez, nos três casos em que é “lícita” – violência sexual, risco de vida à mãe ou anencefalia –, é negligenciada. Isso muito se deve aos setores retrógrados da sociedade brasileira, resistentes em observar o direito que, lembramos, já é garantido pela lei. Confirmação disso é a revogação da portaria nº415, publicada pelo Ministério da Saúde poucos dias antes da publicação da reportagem. A pressão das bancadas religiosas e conservadoras nos mostra que a queda de braço está longe de acabar: é preciso continuar lutando. Nós, que já tínhamos interesse pela questão dos direitos das mulheres, nos aproximamos ainda mais dela. Esperamos que nossa matéria crie o mesmo sentimento em outras pessoas.

Seja aliada da Pública

Todos precisam conhecer as injustiças que a Pública revela. Ajude nosso jornalismo a pautar o debate público.

Mais recentes

Imagem mostra área alagada e com risco de desabamento, graças às chuvas intensas

2022 e clima: “Não precisamos esperar o futuro, o clima já está mudando”, diz pesquisador

21 de janeiro de 2022 | por

Eventos climáticos extremos serão cada vez mais extremos — e rotina —, diz José Marengo, climatologista classificado pela Reuters como um dos cientistas mais influentes do mundo

Em uma sala de uma unidade de saúde, enfermeiras aplicam teste de coronavírus em pacientes

2022 e a pandemia: Ômicron, vacinas e o futuro da covid-19 no Brasil segundo pesquisadores

20 de janeiro de 2022 | por e

Entrevistamos três cientistas para saber se estamos no início do fim da pandemia ou não, quais as perspectivas para os próximos meses e os riscos que a covid-19 ainda reserva

De modelo internacional à extinção: como morre uma política pública

19 de janeiro de 2022 | por , e

Programa de diversificação do cultivo de tabaco que beneficia agricultores do setor foi alterado no governo Bolsonaro. Detalhe: o programa era referência internacional