Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

| Flashback da semana | Daqui não saio, daqui ninguém me tira

Procuradoria-Geral da República denunciou Cunha, que disse que não se afastará da Presidência da Câmara

Reportagem
21 de agosto de 2015
20:00
Este artigo tem mais de 11 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), denunciado pela Procuradoria-Geral da República.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), denunciado pela Procuradoria-Geral da República.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), denunciado pela Procuradoria-Geral da República. Foto: J.Batista/Câmara dos Deputados

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), encerrou sessão da Casa legislativa na quinta-feira (20) antes mesmo das 15 horas. Atitude atípica para quem, desde que assumiu o alto cargo, acha que qualquer hora é momento de votar, até mesmo invadindo a madrugada. Se alguém reclama, finge que não escuta, corta o microfone e passa para o próximo… Acabou o tempo. Dessa vez, provavelmente não quis fingir, preferiu não ouvir. A Procuradoria-Geral da República (PGR) protocolou, às 15h40, denúncia contra o parlamentar fluminense no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras.

O senador Fernando Collor (PTB-AL) também foi denunciado pelos mesmos motivos. Se a suprema corte aceitar a denúncia, eles se tornarão réus por crime de lavagem de dinheiro, corrupção e formação de quadrilha. Na quarta-feira (19), mesmo antes de a denúncia ser oferecida, Cunha já se manifestou dizendo que não se afastaria da Presidência da Câmara em hipótese alguma. Com o PSOL à frente, um grupo com deputados de dez partidos divulgou um manifesto pedindo o afastamento do peemedebista enquanto as investigações não forem concluídas.

No entanto, essa discussão pode ir para além do espectro político até chegar ao jurídico. Conforme explicam os juristas Márlon Reis, coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), e Luiz Flávio Gomes, ex-juiz e ex-promotor de Justiça, como Cunha pode vir a ocupar a Presidência da República em eventuais ausências da titular, Dilma Rousseff, e do vice, Michel Temer, também está sujeito a ser enquadrado em artigo da Constituição que trata do afastamento do chefe do Executivo. O dispositivo estabelece que o presidente tem de ser afastado do cargo, por determinado período, caso vire réu no Supremo.

A semana, então, que começou indo em favor dos interesses de Cunha e de seus aliados, com manifestações antigoverno e pró-impeachment da presidente Dilma em todas as capitais do país, entrou na contramão. Além da denúncia da PGR, Cunha também ouviu ecos de manifestantes pró-governo e contrários ao afastamento da presidente na Esplanada dos Ministérios. No entanto, os atos, que ocorreram na quinta-feira (20), em todas as capitais do país, divergiam quanto aos interesses comuns. Entre os organizadores, a CUT e a UNE foram às ruas em defesa de Dilma, e manifestaram sua interpretação a possível pedido de impeachment: golpe. Já o PSOL e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) não aceitaram gritar qualquer palavra de ordem que pudesse ser vista como governista. Para eles, o protesto é contra o ajuste fiscal e a Agenda Brasil.

O contraponto de Dilma mais uma vez divide a linha tênue entre os interesses das causas populares e os planos para a política econômica do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). As articulações políticas que levaram Renan para o lado petista renderam frutos. O Senado aprovou projeto de lei que reduz a desoneração da folha de pagamento de empresas, na prática aumentando a carga tributária para 56 setores da economia em tempos de ajuste fiscal. A medida fazia parte do pacote de arrocho do governo.

No braço de ferro, Cunha não aliviou na ‘pauta-bomba’ – proposições que, se aprovadas, aumentam os gastos públicos –, e colocou para votar projeto de lei que reajusta a remuneração do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) com índices maiores que os atuais (taxa referencial mais 3% ao ano). Ameaçado de derrota, o governo teve de negociar. Chegou-se a um meio-termo. No texto aprovado pelos deputados na terça-feira (18), os depósitos feitos a partir de 1º de janeiro de 2016 serão reajustados com base na taxa referencial mais 4% ao ano. O rendimento anual do fundo sobe para 4,75% em 2017 e para 5,5% em 2018. Em 2019, será aplicada a regra utilizada atualmente para a correção da poupança: 6,17% ou 70% da taxa básica de juros (Selic) quando ela for menor ou igual a 8,5%.

Fora do orçamento público, Cunha não deixou de assanhar o formigueiro. Na quarta-feira (19), os deputados aprovaram em segundo turno, por 320 votos a favor e 152 contra, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93 que determina a redução da maioridade penal. Agora a proposta seguirá para análise do Senado. A PEC reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos – como estupro e latrocínio – e também para homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. Ainda pela emenda aprovada, os jovens de 16 e 17 anos deverão cumprir a pena em estabelecimento separado dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas e dos maiores de 18 anos.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras

Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista