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O futuro a eles pertence

Juventude indígena luta para preservar cultura tradicional ao mesmo tempo que enfrenta novos dilemas e necessidades em uma realidade cada vez mais dura

Reportagem
30 de janeiro de 2018
12:21
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André Oliveira/Agência Pública

Os jovens personagens indígenas dos vídeos que Sofia Amaral e André Oliveira trazem à série Amazônia Resiste merecem uma apresentação à parte. Como se diz no rap, Eder Apodenepa, dos Umutina, e os jovens Kayapó do Instituto Raoni representam. Mas o que, exatamente, eles representam?

Como se vê por seus notáveis depoimentos, são jovens que podem mirar ao longe o futuro com pés firmes no solo da tradição, com o apoio de seus ancestrais: estejam eles presentes e atuantes neste plano – como a família do grande líder Raoni – ou em outro – como os que Eder visita em seu sonho.

Para entender plenamente a dimensão do que a atual geração de indígenas no país enfrenta, é preciso, porém, olhar também o que acontece em outros lugares. Lembremo-nos de Mato Grosso do Sul, onde os Guarani-Kaiowa enfrentam uma grave crise humanitária enraizada em uma desesperadora carência de terras, em função da resistência ruralista em permitir as demarcações. Mas também de lugares na Amazônia onde as populações contam, já, com seus territórios plenamente garantidos, como no alto rio Negro, no alto Solimões ou na ilha do Bananal.

Os atuais jovens indígenas, todos eles, têm diante de si o desafio de construir um projeto coletivo de vida sem cair nas armadilhas que estão postas pela cidade, o sistema escolar, a televisão, a internet, o dinheiro, álcool e outras drogas, além de certas igrejas… Em todos os lugares que cito, esses são elementos comuns que se conectam às particularidades culturais de cada comunidade para gerar um contexto explosivo, em que aumenta a violência de uns contra os outros e dos jovens contra si mesmos. Nas nossas estatísticas, uma parcela das mortes que aí ocorrem é contabilizada como “suicídios”. Uso as aspas porque, no entendimento dos próprios indígenas, muitas vezes, não se trata de mortes autoprovocadas – outra história, muito mais complicada do que este espaço permitiria explicar.

Seja como for, o fato é que os povos indígenas têm taxas de suicídio até seis vezes maiores que as da média da população brasileira, e certas aldeias em Mato Grosso do Sul, em alguns anos, chegam a apresentar taxas de assassinato superiores às das cidades mais violentas do país.

“Viver é perigoso”, escrevia Guimarães Rosa. Mas é preciso lembrar que centenas de milhares de crianças e jovens indígenas esperam a chance de, como Eder ou os jovens Kayapó, poder contar com suas terras demarcadas e com seus direitos mais básicos devidamente garantidos para poder sonhar, lutar e enfrentar de forma justa, em igualdade de condições, os desafios que o Brasil contemporâneo oferece a todos nós.

* Antropólogo e jornalista, autor do livro O Índio que mora na nossa cabeça – Sobre as dificuldades para entender os povos indígenas (editora Prumo) e consultor do projeto Amazônia Resiste, da Pública

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