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Agência de Jornalismo Investigativo

Diretores de redações tradicionais e meios digitais trocaram experiências sobre como lidar com ataques virtuais e polarização e como inovar no meio digital

16 de novembro de 2018

O Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, iniciativa que promove o jornalismo digital no Brasil, aportou no último sábado, dia 10 de novembro, no Nordeste. Em versão pocket, a nova edição aconteceu no Recife, capital de Pernambuco, e teve como fio condutor busca de alternativas para os jornalistas diante do clima de polarização atual.

A primeira mesa foi direto ao ponto: “Como o jornalismo sobreviveu às eleições” era o mote. Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, especializada em fact-checking, relatou ataques e ameaças sofridas pela sua equipe no período pré-eleições. E lamentou que, ao longo do ano, militantes de esquerda e de direita se comportaram do mesmo jeito, com assédio virtual e ameaças de violência. “Nesse exato momento, [para os críticos] não sou nem de esquerda nem de direita. Na verdade, me sinto no centro e assim continuaremos. Eu checo todo mundo e vocês podem contar com a gente porque a gente vai continuar checando, apesar de isso ser dolorido na pele e no coração”, disse.

Beatriz Ivo, do comitê de conteúdo do Sistema Jornal do Commercio, refletiu sobre o projeto Comprova, em que 24 redações promoveram alternativas de combate a boatos relacionados às eleições presidenciais. E lembrou que as ameaças não são exclusivas do meio digital. “As ameaças digitais têm outra capilaridade, mas precisamos refletir sobre todos os caminhos que tentam calar o jornalismo. O digital nos assombra imensamente hoje, mas no fundo é um método com outra tecnologia para o que ocorre há muito tempo”, pontuou. Para ela, os jornais devem tentar esclarecer o conceito de democracia para que ela seja fortalecida.

A mesa terminou com a jornalista Daniela Pinheiro, chefe de redação da revista Época. Ela mencionou ataques que sua equipe sofreu ao investigar grupos de incitação ao ódio na internet e lamentou a própria ingenuidade ao não terem se precavido contra assédio virtual. “As redações têm que estar preparadas para ter estrutura legal, emocional, psicológica, jurídica e policialesca, até, para lidar com esses tipos de ataques”, defendeu Daniela. A jornalista, que vivia nos Estados Daniela Pinieor, chefe de redação da revista ÉpocaUnidos quando Donald Trump foi eleito presidente, afirmou que a imprensa brasileira precisa fazer um mea-culpa. Cristina Tardáguila complementou: “A gente teve dois anos para não fazer o que os americanos fizeram em relação às eleições de Donald Trump e a gente fez o que eles fizeram, que é perguntar aos políticos exatamente aquilo que eles querem responder, e não aquilo que a gente queria que eles dissessem”.

Inovando sem milhões de dólares

Inovação no jornalismo também foi um tema abordado nesta edição do festival, que trouxe dois grandes sucessos na cobertura eleitoral ao palco: o debate presidencial da Band em parceria com o YouTube/Google e o aplicativo Match Eleitoral, da Folha de S.Paulo, que ajudou mais de 1,3 milhão de eleitores a encontrar candidatos a deputado federal, estadual e senador em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O jornalista e pesquisador do Datafolha Jean Souza, que coordenou o projeto Match Eleitoral, explicou que a ideia era utilizar o que se tinha de pesquisa de opinião pública, junto com entrevistas com os deputados que estavam pleiteando cargos, para ajudar o público a escolher. O propósito não era determinar quem seria seu candidato, mas conhecer mais possibilidade e unir as informações do aplicativo com outras fornecidas pela internet, jornais e TV. “Unir pesquisa de opinião, programação e jornalismo é unir competências diferentes com um método confiável e criar um ecossistema de informação. O Match foi a parte boa dessa eleição, em meio ao tanto de desinformação que surgiu. Ele não foi para influenciar, foi só uma ferramenta a mais para ajudar a tomar a decisão do voto”, explicou.

Já a TV Bandeirantes inovou ao unir TV e meio digital no debate do primeiro turno – o único que contou com a presença do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Enquanto os candidatos debatiam, havia uma Sala Digital. “Pela primeira vez o Google abriu no Brasil os dados de busca minuto a minuto em troca da exclusividade de transmissão do debate na internet no YouTube. E o YouTube promoveu o debate na internet de maneira que a televisão não conseguiria promover”, destacou o diretor de jornalismo da Band, André Luis Costa. Outra iniciativa da emissora foi um debate entre jornalistas da Band e youtubers que se destacam em diversas temáticas. “Esses caras juntos representavam 30 milhões de inscritos no YouTube e, portanto, tinham uma experiência de dia a dia que deveria ser ouvida, e no momento de polarização tão forte era a chance que a gente tinha de mostrar que é possível conversar”, contou André.

A mesa teve também uma apresentação do Chequeabot – um robô que auxilia os jornalistas do site Chequeado, pioneiro em fact-checking na América Latina, a apurar as declarações publicadas nos jornais – e de Ricardo Brazileiro, integrante do LabCoco, um laboratório cidadão que funciona dentro de um terreiro de candomblé em Olinda e oferece capacitação e treinamento para jovens de periferia nas áreas de games, inteligência artificial e programação. “Acreditamos que a tecnologia social é exponencial quando está conectada aos desafios da base, não como um tecnofetiche”, disse Brazileiro; ou seja, a tecnologia trabalhando diretamente nos desafios do seu território, promovendo a transformação.

Como resultado dessa produção e discussão cultural e tecnológica, surgiu o game Contos de Ifá, jogo de estilo ação/estratégia em desenvolvimento no Ilê Axé Oxum Karê, com o objetivo de coletar 256 contos de Ifá para transmitir aos jogadores um conhecimento do universo sob a perspectiva da cultura afro-indígena brasileira.

Financiamento

Encerrando o festival, o público conheceu melhor três iniciativas de jornalismo que conseguiram se viabilizar com modelos bem diferentes – os projetos Além da Cura, Gênero e Número e Coletivo Nigéria.

A jornalista e documentarista Bruna Monteiro e a voluntária Helena Portilho falaram sobre a iniciativa Além da Cura, que em duas campanhas de crowdfunding arrecadou R$ 110 mil para realizar um documentário sobre como mulheres lidam com o câncer, o que faz do projeto um dos mais bem-sucedidos do Norte e Nordeste na plataforma Catarse. Hoje, o grupo tem 15 voluntários e faz palestras, debates, encontros e capacitação, além de seguir produzindo o documentário, que será lançado no próximo ano. “As pessoas escutam quando elas se importam. A causa é um fator social muito importante para viabilizar campanhas de financiamento coletivo, assim como a rede de engajamento e o potencial de inovação da ideia”, disse Helena.

Já Yargo Sousa e Bruno Xavier, do Coletivo Nigéria, apresentaram o coletivo de jornalistas cearenses que produzem documentários com pautas sobre direitos humanos. Eles fazem filmes sob encomenda, principalmente para movimentos sociais, como forma de financiar o conteúdo jornalístico que querem produzir. Outra forma de receita do coletivo vem de editais públicos para a realização de conteúdo audiovisual. “Não arrecadamos recursos propriamente com nosso conteúdo jornalístico, mas o jornalismo nos dá visibilidade e credibilidade para realizar outros trabalhos que nos sustentam”, explicou Yargo.

Para a professora Andréa Trigueiro, que estava na plateia, a mescla entre representantes da imprensa tradicional e empreendimentos de jornalismo independente foi bastante positiva. “É muito boa essa iniciativa de misturar os diálogos porque a gente sabe que a perspectiva de quem está nos veículos tradicionais e de quem está na mídia independente. É muito rico para que a plateia possa tirar suas próprias conclusões. Acho que as falas foram muito enriquecedoras nesse aspecto, entender como funciona a lógica de quem está comandando uma revista como a Época, como funciona o Sistema Jornal do Commercio, de quem está fazendo as checagens e até de quem está monitorando as notícias.”

O Festival 3i é uma parceria entre a Pública, Agência Lupa, Bio Hunter, Jota, Nexo, Ponte Jornalismo, Repórter Brasil e Nova Escola, que se uniram ao Google News Iniciative. No Recife, o evento, sediado na Universidade Católica de Pernambuco, também contou com as contribuições da Marco Zero Conteúdo, coletivo de jornalismo independente local.

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