Buscar
Reportagem

Indigenistas indicam Raoni para Nobel da Paz

Sugestão partiu da Fundação Darcy Ribeiro e foi abraçada por indigenistas e ambientalistas que lançaram a campanha na quarta-feira passada

Reportagem
13 de setembro de 2019
12:44
Este artigo tem mais de 7 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Reprodução

Entidades indigenistas e ambientalistas reunidas em torno da Fundação Darcy Ribeiro lançaram nesta quarta 12, em Brasília, o nome do cacique Kaiapó Raoni Metuktire, ao Prêmio Nobel da Paz de 2020. O líder indigenista retornava de uma viagem à França quando foi convidado para um encontro na casa do sertanista Sydney Possuelo, onde foi informado que seu nome será levado à academia do Nobel como reconhecimento pela luta que trava há mais de 50 anos pela preservação da floresta amazônica e em defesa dos povos indígenas.

“Ele está tão plácido que parece superior às coisas. Recebeu a notícia com toda a maturidade que o caracteriza, sem vaidade. É um homem que passou a vida lutando por direitos”, explicou à Agência Pública o sertanista Sydney Possuelo, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), um dos apoiadores do movimento que busca, a partir de agora, atrair a adesão de lideranças nacionais e internacionais pela indicação.

A campanha surge no momento em que a imagem do Brasil no mundo sofre forte desgaste em função do aumento do desmatamento, das queimadas e da pior crise enfrentada pelo binômio meio ambiente/indigenismo por causa das posições de retrocesso anunciadas abertamente pelo presidente Jair Bolsonaro, em franco confronto com correntes políticas e ambientalistas internacionais. Os organizadores não querem, no entanto, passar a ideia de que o movimento seja visto como contraponto às posições do governo brasileiro.

Em encontro com indigenistas e ambientalistas, Raoni Metuktire soube que seu nome será levado à academia do Nobel

“Pessoalmente não sinto que a indicação seja para se contrapor ao movimento de Bolsonaro. Esse pelo menos não é meu apelo. Penso que vivemos um momento muito importante e seria bom obtermos o respeito da Europa, personificado na figura de Raoni, para fortalecer a proteção das florestas e dos povos indígenas”, explica Possuelo.

Aos 89 anos de idade, Raoni teve seu primeiro contato com os brancos em 1954 num encontro com os irmãos Villas-Bôas, no Mato Grosso, onde nasceu, período que marcaria o início da resistência contra as invasões. Em 1984, ainda na ditadura militar, apareceu armado e pintado para a guerra num evento com o então ministro do interior, Mário Andreazza, para exigir a demarcação das terras kaiapó. Essa foi uma de suas primeiras aparições públicas.

A notoriedade internacional viria em 1987 ao encontrar-se, em São Paulo, com o cantor Sting durante a turnê Human Rights Now, promovida pela Anistia Internacional, onde ganhou apoio à demarcação das terras indígenas. Dois anos depois, Raoni faria uma peregrinação por 16 países pela criação do Parque Nacional do Rio Xingu, homologado, finalmente, em 1993, com superfície de 180 mil quilômetros quadrados entre o Mato Grosso e o Pará.

O líder kaiapó se envolveria na luta contra a construção de barragens em terras indígenas e, em especial, contra a Usina de Belo Monte, cujo projeto, para frustração dos movimentos indigenistas e ambientalistas, foi autorizado pelo governo Dilma Rousseff em 2011 e executado nos anos seguintes.

Sua figura, em cuja indumentária se destacam um batoque de madeira, um disco de madeira que estica seu lábio inferior, cocar de penas amarelas, brincos e colares kaiapó, é inconfundível e respeitada internacionalmente. Raoni vive atualmente no Parque Nacional do Xingu, onde leva a mesma vida modesta que marcou a trajetória de enfrentamento às invasões, pela demarcação das terras indígenas e preservação dos recursos naturais da Amazônia.

Abaixo a entrevista em vídeo com Raoni, publicada pela agência Pública em 2018 no Projeto Amazônia Resiste.

 

Ao receber a notícia da articulação por sua indicação ao Nobel, Raoni retornava da Europa, onde discutiu com líderes europeus alternativas para proteger a Amazônia. Sua luta agora é contra o projeto do governo Jair Bolsonaro, que quer abrir as terras indígenas à exploração de grandes mineradores e a garimpeiros, a mais séria ameaça desde que o líder, aos 15 anos de idade, iniciou a resistência contra o avanço do capital sobre direitos dos povos tradicionais.

A reportagem é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei, que investiga violência relacionada à regularização fundiária, à demarcação de terras e à reforma agrária na Amazônia Legal. O especial também faz a cobertura dos conflitos no Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro.

Crédito da imagem destacada: Reprodução

Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai