Agência Pública conversou com pessoas que perderam a moradia na pandemia. São famílias que vivem nas ruas de São Paulo, mas não entram nos dados oficiais da prefeitura

Agência Pública conversou com pessoas que perderam a moradia na pandemia. São famílias que vivem nas ruas de São Paulo, mas não entram nos dados oficiais da prefeitura

28 de junho de 2021
12:38
Especial: Coronavírus
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Dois panos brancos amarrados nos galhos das árvores que ficam num canteiro da avenida Carlos Caldeira Filho, região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, chamam atenção dos motoristas e pedestres que circulam pelo local. Porém, se a passagem for ligeira e desatenta, dificilmente será notada a presença de um barraco pequeno no fundo do canteiro. Ali, desde novembro de 2020, vive Severino Carlos Pereira, 50 anos, trabalhador autônomo e conhecido como “Pernambuco”, por conta da sua origem: o município de Macaparana, a 120 quilômetros do Recife. Foi ele quem pendurou as bandeiras brancas “para chamar a atenção da população”. “Toda ajuda é bem-vinda”, diz. 

Severino faz parte de um número de pessoas em situação de rua ainda não contabilizadas pela prefeitura de São Paulo. O último levantamento censitário, realizado em 2019, apontou que 24.344 munícipes estavam vivendo nas ruas da cidade, sendo 11.693 acolhidos na rede socioassistencial e 12.651 em vias públicas. Mas, com o aumento do desemprego na pandemia, movimentos sociais alertam que esse número cresceu e continua aumentando.

Para Darcy Costa, coordenador do Movimento Nacional de População em Situação de Rua, o dado de 2019  está muito defasado. “Na época [2019], a gente já tinha uma contradição em relação à contagem que o Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] fez, que era um número maior que esse levantado pela pesquisa da prefeitura. O deles [Ipea] apontou 32 mil pessoas e o CadÚnico, do governo federal, 33 mil pessoas cadastradas como população em situação de rua”, comenta. 

Uma possível explicação para a diferença, segundo Costa, foi a metodologia utilizada para aplicação da pesquisa realizada pela empresa Qualitest Ciência e Tecnologia Ltda., contratada pela Prefeitura de São Paulo na época. “As pessoas que vivem em barracas [de camping] ou barracos não foram contabilizadas. Isso teve impacto e pode ter gerado subnotificação nos números.” A alteração na rotina da população que vive em situação de rua também é apontada por ele como o possível motivo de baixa nos registros municipais.

“Na noite que os pesquisadores iam para o território, a GCM [Guarda Civil Metropolitana] estava fazendo a dispersão da população. Isso ocorreu na Cracolândia. No mesmo dia que os pesquisadores estavam lá houve uma higienização. Essas higienizações retiram as pessoas dos lugares e mandam para outros. Isso prejudica no momento de fazer a contagem. A gente teve vários relatos, dos próprios pesquisadores, nesse sentido. E a gente acredita que esse é um dos motivos que comprometeu o resultado da pesquisa”, considera. 

A reportagem entrou em contato com a Qualitest para esclarecer as informações sobre a metodologia aplicada e o porquê do número ser bem abaixo do CadÚnico e do Ipea. A empresa informou que “qualquer explicação sobre a pesquisa só pode ser fornecida pela prefeitura” e respondeu que “os dados não podem ser comparados com o Censo de População em Situação de Rua do município por terem objetivos e metodologias de coleta de informações diferentes”. 

Segundo Darcy, as divergências nos dados prejudicam ações de assistência para essas populações porque as informações dão “subsídio para implementação de políticas públicas mais assertivas”. “O que a gente nota é que a política, para quem está em situação de rua,  é higienista. Não há uma política de inclusão, de integração e do sujeito”, argumenta. 

Embora a Prefeitura de São Paulo não confirme o aumento no número de pessoas nas ruas durante a pandemia, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) criou 2.159 vagas espalhadas em Centros Educacionais Unificados (CEUs), centros de acolhida e hotéis, entre outros espaços. A prefeitura informou para a reportagem que  decidiu antecipar o Censo da População em Situação de Rua para o próximo semestre, em decorrência da crise de saúde. 

No último domingo, a prefeitura de São Paulo informou que reservará 14 mil das 114 mil doses da vacina da Jansen, contra a covid-19, para pessoas em situação de rua com o objetivo de alcançar os não cadastrados em centros de acolhida. Segundo o poder público, 21.754 doses foram aplicadas no público cadastrado desde fevereiro. 

No país, de acordo com o último levantamento nacional do Ipea, entre setembro de 2012 e março de 2020, a população em situação de rua aumentou 140%, chegando a quase 222 mil pessoas sem moradia. Em junho de 2020, o Ipea publicou o estudo “População em Situação de Rua em Tempos de Pandemia”, com um levantamento de medidas municipais emergenciais. O documento já alertava gestores públicos para o “aumento da população de rua durante a pandemia por conta da desocupação crescente e mais intensa devido ao desaquecimento da economia no curto e médio prazo”.

Um viaduto como teto

Atualmente 13 famílias, cerca de 30 pessoas, estão vivendo debaixo do viaduto Bandeirantes, região de Moema, bairro com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de São Paulo – à frente de Pinheiros, Perdizes, Jardins e Alto de Pinheiros. Pelo menos cinco famílias chegaram durante a pandemia. Elas vivem na melhor região para morar na cidade, mas não nas mesmas condições de quem está dentro das casas enormes e de apartamentos confortáveis e luxuosos. 

Luiza Souza, dentro da sua barraca  montada sob o Viaduto Bandeirantes, bairro de Moema, zona sul de São Paulo

A moradora mais antiga, Luzia Souza dos Santos, 57 anos, conta que, depois que a pandemia começou, nove famílias passaram a viver no lugar; antes eram quatro. “Aqui chega família passando fome mesmo. Pessoas desesperadas, chorando por causa que perdeu emprego e não consegue morar de aluguel. Pessoas que você vê que não estão na rua porque querem. São famílias passando necessidades. É terrível.”

 Luzia Souza,  moradora mais antiga do Viaduto Bandeirantes, conta que depois que a pandemia começou, famílias começaram a pedir para viver no espaço

Morando sob o viaduto há sete meses, Daniele Santos, 30 anos, teve que entregar a casa de três cômodos em que morava com os dois filhos, porque não teve como pagar os R$ 800 de aluguel depois que ficou desempregada. “Eu trabalhava com alimentação no quiosque de um shopping. Acabou fechando por conta da pandemia e os funcionários recentes foram mandados embora, e eu estava nesse meio.”  

Daniele conta que desde quando saiu da casa dos pais sempre conseguiu pagar as contas, que o aluguel era prioridade – mesmo com as dificuldades financeiras do cotidiano. “Eu já cheguei a passar por situações financeiras bem complicadas, mas para chegar a ter que ir pra rua foi a primeira vez.” Estar com os filhos nesse contexto é o que a tem preocupado. “Não é fácil você morar na rua com duas crianças. A gente pode até perder a guarda por conta disso. Mas meus filhos estão comigo. Passe o que passar a gente está junto. Só sei que fiz de tudo para a gente não chegar nessa situação. Eu reconheço que não está sendo fácil pra muita gente. Eu não tenho problema nenhum em dizer que estou morando na rua. É só uma fase”, desabafa.

Para Ana Paula da Cruz, 27 anos, que mora há um ano num barraco com dois filhos e o marido embaixo do mesmo viaduto, se adaptar à nova realidade tem sido difícil. Antes de ter o viaduto como teto, Paula e a família pagavam R$ 550 no aluguel de dois cômodos numa favela próxima ao Aeroporto de Congonhas. No terceiro mês de pandemia ficou desempregada e, como era a única que estava trabalhando, e sem conseguir o auxílio emergencial, teve que entregar a casa.  

Ana Paula, na porta do barraco em que mora há um ano com dois filhos e o marido embaixo do Viaduto Bandeirantes

Assim como Daniele, é a primeira vez que Ana Paula passa pela experiência de morar na rua. “A gente pagava aluguel na favela porque era mais barato e sempre pagamos em dia. Só que do nada as coisas foram mudando muito rápido e quando eu vi que não tinha mais jeito, que a solução era morar na rua. Chorei bastante. Caiu a ficha quando eu estava aqui. Quando a nossa rotina mudou.” Sem emprego fixo, Ana Paula e o marido conseguem cerca de R$ 150 por mês com a venda da coleta de material reciclável e de balas no farol para “pelo menos, conseguir o dinheiro de uma marmita”, relata. 

Da periferia ao centro

Darcy Costa diz que o Movimento Nacional da População em Situação de Rua  vem notando também um “aumento da população em situação de rua nas periferias”. “São as regiões que menos a política de fato alcança. Porque elas estão mais afastadas, mas a gente sabe que há um número crescente dessa população nas bordas da cidade”, diz.

Por não conseguir quitar o aluguel atrasado, Severino se viu obrigado a deixar o que tinha para trás, como forma de pagamento da dívida. Saiu apenas com a cama e a sua cachorrinha

Em março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou a Covid-19 ao status de pandemia, Severino trabalhava vendendo água na estação do metrô Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Com as medidas de restrição adotadas pelo município, viu repentinamente a circulação de passageiros diminuir e, por consequência, a renda também. “Eu vendia 18 pacotes de água por dia. O movimento foi caindo tanto que passei a vender no máximo dois pacotes. Fiquei quase dois meses vendendo só essa quantidade. O que eu estava recebendo só dava para comer no Bom Prato [restaurante popular que comercializa refeições a preços acessíveis à população de baixa renda]”, conta. 

A preocupação não era apenas com a alimentação. O aluguel angustiava Severino, que, sem conseguir gerar renda, recorreu ao auxílio emergencial para quitar os R$ 450 dos dois cômodos em que morava. “Desses R$ 600 eu pagava o aluguel, a água e a energia. Não sobrava nem R$ 100 para comer. Mas, quando [o auxílio] diminuiu pela metade, aí me apertou de vez. Tentei voltar a vender água e chocolate para completar o dinheiro do aluguel, mas o ‘rapa’  [equipe da prefeitura que apreende os produtos comercializados nas ruas por vendedores irregulares] levou minha mercadoria e fiquei zerado”, relembra. “Eu falei para ela [proprietária do imóvel] o que tinha acontecido e pedi para pagar o mês parcelado, mas ela não aceitou. Como eu não tinha como pagar, tive que deixar as minhas coisas. Saí com a cama, o colchão e a minha cachorrinha”, conta. 

Com dificuldades de encontrar uma casa com o custo mais acessível, Severino começou a procura por algum lugar que suportasse passar as noites com o mínimo de segurança. Nas andanças, se deparou com um canteiro no bairro do Capão Redondo, que fica perto do Parque Municipal Santo Dias, e resolveu se ajeitar por ali. Iniciou a limpeza do local, até então utilizado para o descarte de entulho, e com o que lhe era útil começou a levantar um barraco pequeno, colocou a cama de solteiro dentro, algumas roupas, e passou a viver ali com a sua cachorrinha que chama de Negrinha. 

Desde novembro de 2020, após não ter mais condições de pagar o aluguel, Severino vive no canteiro no entorno do Parque Santo Dias, zona sul de São Paulo

Após algumas semanas de permanência no canteiro, a prefeitura fez uma ação de remoção e limpeza urbana na área e desmanchou o pouco que o novo morador havia construído. “Eles chegaram com um caminhão, levaram as minhas coisas”, descreve. Após a saída dos agentes públicos e sem ter para onde ir, Severino começou a juntar o resto das madeiras e telhas que ficaram para trás e levantou o barraco novamente. Desde então, segue morando no local. 

Para resguardar o lugar, ele limpou toda a área, plantou árvores e fez um jardim. Com uma doação de cal, pintou de branco o muro do entorno e pregou diversas cartolinas pedindo respeito à natureza e à preservação do meio ambiente. Diariamente tem feito a zeladoria do espaço e agora se orgulha de ter conseguido mudar a forma como as pessoas que circulam ali viam o terreno. “Aqui tinha muito lixo, era escuro, sujo. O pessoal tinha medo de andar por conta de assaltos, mas agora fazem questão de passar deste lado da rua. Antes, todo mundo atravessava”, relata. 

Na estrutura em que Severino vive, não há como cozinhar e tomar banho. Para comer, ele depende das doações de pessoas que passam diariamente pelo terreno. “Hoje eu estou dependendo do ‘bandeco’ [marmitex] dos outros. Dependo de alguém que para e me dá R$ 1, aí eu vou lá no Bom Prato pra comer. Mas é sofrido.” Para manter a higiene pessoal, ele toma banho numa mina de água que descobriu próximo ao terreno. “Meu irmão, essa mina é uma bênção. Eu estava agoniado, pensando onde eu ia conseguir me banhar, e um dia vi um cara passar molhado aqui na frente. Pensei que ele tinha tomado banho no córrego, mas ele disse que tinha um olho d’água bem ali”, relata. 

Sem acesso a água, Severino diariamente vai até a mina d’água, que fica na beira do Córrego Morro do S para tomar banho

Separado da mãe dos cinco filhos há 11 anos e com a maioria dos parentes fora de São Paulo, Severino tem passado por uma situação que diz não desejar para ninguém. Há seis anos descobriu que tem um câncer na garganta e há três anos foi diagnosticado com trombose nas duas pernas, e, cada vez mais magro e com a saúde debilitada, não consegue trabalhar porque não aguenta ficar em pé por muito tempo. “Isso aqui dói demais, dói bastante. Não tô podendo caminhar por muito tempo e nem ficar em pé. Cada vez que fico em pé, o sangue não circula direito e esse nódulo que tem aqui aumenta”, diz ele, apontando para um caroço do tamanho de uma ameixa atrás de um dos joelhos. 

Para tratar do Câncer e da Trombose, Severino precisa tomar 32 comprimidos por dia – 16 no período da manhã e 16 à noite

Para tratar das enfermidades, Severino precisa tomar 32 comprimidos por dia – 16 no período da manhã e 16 à noite. Os medicamentos que não obtém no posto de saúde, depende de doação para consegui-los. Todos os dias, às 8h da manhã, um dos filhos vai até o canteiro para deixar os comprimidos organizados e prontos para Severino. Por não ser alfabetizado, ele depende do filho para ler as embalagens dos remédios e separá-los.  

Numa manhã, após Severino ter tomado os medicamentos, pai e filho ficaram por um tempo conversando sobre diversos assuntos. Lembravam com certo saudosismo a época em que moravam juntos e “lotavam dois carrinhos de compras” quando iam ao supermercado. “Na época, eu tinha uma Brasília. Com o peso das compras, o carro chegava em casa rebaixado. Eu comprava de tudo. Não tinha miséria. A minha ex-mulher até brigava comigo, dizia que eu era muito exagerado, mas nunca deixei faltar nada em casa para os meus filhos. Disso eu tenho orgulho como pai. Até hoje, até o que eu ganho aqui, divido com eles”, conta Severino, enquanto coloca uma cesta básica no carrinho de cargas para o filho levar para casa. 

O local em que Severino está morando fica exatamente no final da avenida que passa pelo Capão Redondo, Vila Prel, Vila das Belezas e Vila Andrade. É uma extensão de seis quilômetros onde a reportagem contou 16 locais onde se agrupam pessoas em situação de rua. Também há diversos pontos, mais distantes da via principal, que agrupam um número desmedido de pessoas vivendo nas ruas, praças e porta de comércios. A Pública entrevistou uma assistente social que atua na região, que preferiu não se identificar. Segundo ela, “nos últimos três anos o número de pessoas nas ruas vem aumentando. Mas, desde o início da pandemia, a situação piorou consideravelmente”. 

“Antigamente era raro a gente ver uma pessoa vivendo na rua aqui na periferia. Essa era uma questão do centro. Quando começou, a gente via mais usuários de drogas, mas agora tem de tudo: homens sozinhos, mulheres com filhos e muitas pessoas com problemas psicológicos. Nesta condição, a gente tem visto bastante porque, na pandemia, as famílias não conseguiram lidar com esses distúrbios dentro de casa e então ‘colocaram’ seus parentes pra fora. Se você andar por aí, vai ver que tem até família na rua.”

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José Cícero da Silva/Agência Pública
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