Buscar
Coluna

STF libera parte das imagens do ataque golpista depois de negá-las pela Lei de Acesso

23 vídeos de câmeras internas e externas, além de imagens, foram disponibilizadas pela corte; veja o material sem cortes

Coluna
25 de janeiro de 2023
18:00
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Dois dias após recusar um pedido feito pela Agência Pública por meio da Lei de Acesso à Informação, o STF (Supremo Tribunal Federal) divulgou à imprensa nesta quarta-feira (25) uma série de vídeos que documentam a invasão e a depredação da sede do tribunal por golpistas bolsonaristas na tarde de 8 de janeiro. Pedidos semelhantes feitos pela Pública ao Palácio do Planalto e ao Congresso continuam sem resposta.

O Planalto divulgou até agora apenas oito minutos de um total estimado de 1h45min de duração de todo o ataque. As imagens poderão ajudar a elucidar o papel dos militares do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e do BGP (Batalhão da Guarda Presidencial) no momento dos ataques.

No último dia 10, a Pública solicitou ao STF acesso à íntegra das imagens captadas por câmeras externas e internas do STF no dia 8. Nesta segunda-feira (23), o STF negou o pedido sob o argumento de que seria “uma informação protegida”, conforme previsto numa resolução interna do tribunal, de número 657/2020. O tribunal disse que as imagens seriam “de caráter reservado e não poderão ser fornecidas a terceiros”. Reiterou que “não podemos fornecer os dados solicitados”.

Nesta terça-feira (24), a Pública recorreu da decisão do STF. Na quarta-feira (25), divulgou texto questionando a retenção dessas imagens.

No recurso, a Pública enumerou cinco motivos para a liberação das imagens

“1-Uma Resolução administrativa – que aliás trata de assunto totalmente diferente do tema da transparência, dispõe sobre aspectos da segurança no STF – não pode e não deve se sobrepor à Lei de Acesso à Informação. Caso contrário, a Esplanada dos Ministérios adotará massivamente tal entendimento. Bastaria a qualquer órgão público criar sua própria Resolução a fim de afrontar o espírito e o alcance da Lei de Acesso, tornando-a verdadeira letra morta;”

“2-A Lei de Acesso à Informação não prevê, de modo algum, que uma informação considerada ‘reservada’, conforme citado na Resposta acima, não deva ser divulgada. Pelo contrário, a Lei de Acesso exatamente prevê um prazo máximo de 5 anos a partir dessa classificação. Isto é, a resposta do STF revela não compreender o sentido e o conteúdo da Lei de Acesso à Informação. O prazo vale se a informação foi classificada dentro do grau de sigilo. Se a classificação não ocorreu, a liberação é imediata, dentro do conceito de que a publicidade é a regra, e o sigilo é a exceção;”

“3-A expressão utilizada na resposta, ‘caráter reservado’, inexiste em todo o corpo da Lei de Acesso à Informação;”

“4-Mas vamos por um momento considerar, apenas a título de exercício argumentativo, que a Resolução possa ser superior à aplicação da Lei de Acesso, o que não é. Pois bem, a resposta do STF desconsiderou o restante do artigo citado da própria Resolução. Ele diz, em seu parágrafo único: ‘Excepcionalmente, mediante solicitação à SEG e autorização do Diretor-Geral, poderá ser facultado o acesso às imagens gravadas pelo CFTV quando não comprometer a segurança institucional do Tribunal’. Ou seja, a própria Resolução não proíbe a divulgação, fala em casos excepcionais sem explicar quais seriam esses casos. O solicitante entende que o interesse público manifesto, gerado pelo ataque golpista inédito na história do país, se reveste plenamente da condição de ‘excepcional’;”

“5-Caso prospere, a não divulgação pública das imagens captadas pelo equipamento adquirido com recursos públicos dentro de prédio público contraria fortemente o interesse público. Sabe-se que tais imagens revelam o rosto, a vestimenta, a indumentária, enfim, trazem informações essenciais a respeito dos vândalos golpistas que atacaram o Supremo. Uma vez divulgadas de forma transparente, acolhendo os princípios da Lei de Acesso à Informação, tais imagens deverão circular fortemente entre milhões de brasileiros, o que vai facilitar sobremaneira a própria investigação desencadeada pelo STF e pela Polícia Federal. De outro modo, diga-se que a não divulgação acaba protegendo justamente os autores do ataque. Por exemplo, a divulgação do rosto de um vândalo no prédio do Palácio do Planalto, feita primeiramente por emissoras de TV a partir da liberação feita pelo Governo Federal, levou à identificação do homem, que acabou preso nesta segunda-feira (23) na cidade de Uberlândia (MG). Ou seja, não divulgar as imagens desse que é um dos piores ataques à democracia na história do país funciona justamente como uma proteção aos vândalos, o que nós queremos crer que não é o objetivo nem do STF nem de sua Secretaria de Segurança.”

Como demonstração de transparência, a Pública divulga na íntegra e sem cortes todas as imagens divulgadas até agora pelo STF, Planalto e Congresso Nacional em nosso canal do Youtube. No caso do STF, são 23 vídeos de câmeras internas e externas, além de imagens, que foram disponibilizadas pela corte.

Além de desvendar a dinâmica das invasões, as imagens podem auxiliar, uma vez disponibilizadas ao público, na própria investigação realizada pela PF sob acompanhamento do STF. Na última segunda-feira (23), por exemplo, foi preso em Uberlândia (MG) Antônio Cláudio Alves Ferreira, 30, suspeito de ter sido o homem que derrubou um relógio histórico durante a invasão golpista. Sua identidade só veio à tona porque uma pessoa assistiu às imagens no programa “Fantástico”, da TV Globo, e disse que conseguiu reconhecê-lo. Essa fonte anônima telefonou para o jornalista Cristiano Silva, que divulgou a informação em seu blog Goias24Horas.

Colaborou Caio Paes, Laura Scofield

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal