Buscar
Coluna

Campeões de violência policial, Rio e Bahia terão mais armas e dinheiro

Os dois estados com maior letalidade em operações policiais vão receber reforços do governo federal

Coluna
7 de outubro de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui

Rio e Bahia juntos respondem por 43% das mortes provocadas pela polícia no país, de acordo com o anuário do Fórum de Segurança Pública, divulgado em julho deste ano, com dados de 2022. Também são campeões em chacinas perpetradas por policiais, como mostrou reportagem de José Cícero, na Agência Pública. Os dados são de um levantamento exclusivo do Instituto Fogo Cruzado. 

Desde que o instituto começou a coletar os dados, no Rio de Janeiro, em 2016, foram 285 chacinas em ações policiais, que mataram 1.154 pessoas em sete anos. Na Bahia, onde o Fogo Cruzado começou o monitoramento em julho de 2022, foram 40 chacinas, que resultaram em 159 mortos em pouco mais de um ano. Apenas entre 4 e 22 de setembro de 2023, 21 pessoas morreram em cinco chacinas policiais em Salvador e na região metropolitana. 

Mas não há menção à redução da letalidade policial entre os principais pontos divulgados pelo governo no Plano de Enfrentamento ao Crime Organizado, anunciado pelo ministro Flávio Dino na segunda-feira – quando também foi anunciada a destinação de R$ 20 milhões para o estado da Bahia e de equipamentos e homens da Força Nacional de Segurança para o Rio de Janeiro; mais exatamente, para o conjunto de 16 favelas da Maré, região que há décadas sofre com a violência de traficantes e policiais. 

Mas o que vai resultar disso?

Como disse ao repórter José Cícero o especialista Dudu Ribeiro, da Iniciativa Negra e coordenador executivo da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, os investimentos estaduais feitos em segurança não têm contribuído para a redução da letalidade policial. “Nós temos visto ao longo dos últimos anos, na verdade, uma intensificação dessa violência policial com resultado de letalidade que tem a ver com mais de um elemento: com opções erradas dos últimos governos de fortalecer, por exemplo, as [tropas policiais] especializadas, que fortalecem o militarismo, mas também colocam mais recursos nas unidades que têm o índice maior de letalidade”, explicou. 

Até hoje a PM baiana não usa câmeras corporais em ações policiais – uma das primeiras medidas a serem tomadas contra a letalidade policial, segundo especialistas. 

Nesse quadro, não se pode atribuir apenas às facções criminosas, e à sua migração para a Bahia, o número de vítimas de homicídios no estado, que atingiu índices estratosféricos: foram 137 mortos apenas no mês de setembro, 46% deles atingidos em operações policiais, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Entre 1° de janeiro e 30 de setembro, foram registrados 491 tiroteios em Salvador e na região metropolitana durante ações policiais que resultaram em 402 mortos e 79 feridos. O número de pessoas mortas é ainda maior que o registrado no Rio de Janeiro (340 vítimas em 2023).

Quanto ao Rio de Janeiro, em fevereiro de 2022, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que todos os policiais que participam de operações instalem câmeras nas fardas e GPS nas viaturas, mas até hoje a ordem da Suprema Corte não foi cumprida pelo governador Cláudio Castro. 

A decisão do STF foi tomada no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, iniciativa da sociedade civil para combater a violência nas operações policiais, apresentada à corte em 2019. 

Na quarta-feira, um questionamento do Ministério Público Federal (MPF) suspendeu temporariamente o prometido envio da Força Nacional de Segurança ao Rio exatamente para saber se os preceitos do STF serão cumpridos nas operações policiais. Um estudo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro entregue ao STF em agosto deste ano mostrou que os policiais apagaram imagens e taparam as lentes das câmeras – das 90 imagens requisitadas pelo órgão à Polícia Militar do Rio de Janeiro, apenas oito foram entregues, mas não revelavam o momento da prisão e da abordagem. Na Maré, foco da ajuda emergencial do Ministério da Justiça, em nenhuma operação policial de 2022 houve uso de câmeras corporais, segundo a ONG Redes da Maré, que atua há mais de 20 anos nas comunidades. 

A organização estranhou também o fato de a região se tornar foco indesejado do envio das forças de segurança, principalmente porque a decisão do governo federal foi tomada depois de pressões do governador Cláudio Castro. Para a Redes da Maré, a nova ofensiva policial – e a ajuda do governo federal – foram motivadas por uma reportagem do Fantástico levada ao ar no dia 24 de setembro. Nas imagens, que foram obtidas junto à Polícia Civil do Rio, aparecem homens fortemente armados circulando e um treinamento de membros de facções criminosas em instalações semelhantes a um clube esportivo na Maré. 

Segundo moradores e organizações que atuam nas comunidades, o fato já era amplamente conhecido por eles e por policiais antes da divulgação da reportagem (veja aqui a nota da Redes da Maré). “Gera uma preocupação de essa ação ser só para responder a um fato específico e criar um efeito de resposta muito pontual”, disse Eliana Sousa, presidente da Redes da Maré, à Folha de S.Paulo. “O sentido que essa imagem gera na cabeça das pessoas é: ‘Como é que pode chegar a isso?’. Como se a responsabilidade sobre chegar a isso fosse das pessoas que moram aqui ou dos próprios grupos [armados]. Mas, para os próprios grupos ocuparem esse espaço, tem todo um percurso de completo abandono do Estado em relação ao ordenamento das questões públicas”, disse a fundadora da Redes da Maré ao jornal. 

Está na hora de ouvir com atenção especialistas em segurança e comunidades atingidas pelas operações policiais antes de traçar novos planos que pouco contribuem, quando não agravam, a violência vivida pelas famílias – seja na Bahia ou no Rio de Janeiro. Também é preciso ter a redução da letalidade policial como meta de segurança pública e investigar profundamente a radicalização e a milicianização das polícias em todo o país.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 74 Datacenters, IA e o tal do apocalipse

Se a IA pode até não nos matar, os datacenters podem nos fazer pagar mais caro na conta de energia

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas