Buscar
Reportagem

Para presidente do Nubank, diretora que divulgou Brasil Paralelo não violou norma do banco

Em comunicado interno, executivo diz que a postagem da funcionária não “viola nosso Código de Conduta”

Reportagem
19 de junho de 2024
10:53
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Fachada da fintech brasileira Nubank
Divulgação/Nubank

A Agência Pública teve acesso exclusivo a uma nota interna que o presidente e diretor de operações do Nubank, Youssef Lahrech, enviou aos funcionários do banco na noite da última terça-feira, 18 de junho. Ele minimizou uma postagem feita pela cofundadora e diretora de crescimento, Cristina Junqueira, na qual ela divulgava um evento promovido pela produtora Brasil Paralelo.

O banco esteve entre os assuntos mais comentados das redes sociais e sofreu forte reação de correntistas, que criticaram o tom usado pela diretora com a empresa ligada à extrema direita e ameaçaram fechar contas. As ações do banco caíram 1,18% no fim do dia.

Por que isso importa?

  • Aproximações do Nubank com a Brasil Paralelo estão gerando reações na internet, desde que a cofundadora do banco, Cristina Junqueira, postou um convite para um evento da produtora de extrema direita. A Agência Pública teve acesso exclusivo a uma nota interna, na qual o presidente do banco minimiza a postagem de Junqueira.

A nota de Lahrech foi publicada originalmente em inglês, em um sistema de comunicações internas do banco. Em tradução livre, ela diz que “@cris [Cristina Junqueira] postou uma nota de agradecimento aos organizadores de um evento de lançamento de livro. O post da rede social de nenhuma maneira viola nosso Código de Conduta. Ele não apoia nenhum conteúdo nem ponto de vista”. A Agência Pública pediu um posicionamento oficial para o Nubank, mas ainda não recebeu resposta. 

Em postagem, Junqueira agradece convite para evento da produtora bolsonarista Brasil Paralelo

Junqueira postou no stories de seu Instagram pessoal o convite que recebeu para participar da palestra de Jordan Peterson, um psicólogo canadense conservador conhecido por ser antifeminista e crítico de movimentos LGBTQIA+. “Muito obrigada pelo convite!”, ela escreveu.

O texto do convite dizia que os organizadores, a Brasil Paralelo e a Fronteiras do Pensamento, estão “muito entusiasmados e honrados em proporcionar essa oportunidade aos nossos parceiros e amigos”. Pedia que os convidados compartilhassem em suas redes sociais marcando os perfis das empresas e do psicólogo – o que Junqueira fez.

Em outro trecho da nota enviada pelo sistema de comunicações do Nubank, Lahrech diz: “Nós gostaríamos de reiterar que Cris não tem nenhuma parceria com os organizadores deste evento, nem o Nubank patrocina ou apoia nenhuma destas organizações”. O presidente da empresa disse também que o banco não tem posições políticas nem contribui direta ou indiretamente com movimentos políticos ou religiosos. Diz ainda que “o código de conduta da empresa respeita a liberdade de expressão de seus funcionários e que rejeita qualquer tipo de discriminação ou assédio” [tradução livre].

A nota do presidente não repercutiu bem entre os funcionários do banco. “Essa associação com a Brasil Paralelo é dolorida”, disse um dos empregados ouvidos pela Pública, falando de modo reservado para evitar retaliações. Outros lembraram que “Junqueira é uma figura pública e que a associação com a Brasil Paralelo não poderia ser considerada uma mera opinião política”.

Outro funcionário lembrou que “não é a primeira vez que a diretora se envolveu em polêmicas”, se referindo à participação da executiva no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2020. Na ocasião, ela disse que “não dá para nivelar por baixo” ao comentar a dificuldade de contratar pessoas negras para posições de liderança no Nubank. 

Junqueira costuma curtir posts ligados à direita nas redes sociais e pelo menos em outras duas ocasiões postou stories mostrando proximidade com o campo ultraconservador.

Em um deles, ela compartilhou no Instagram que estava fazendo um curso de filosofia de Guilherme Freire, que foi “diretor, Head of Product da Brasil Paralelo, além de criador da plataforma de streaming, BPSelect”, como ele próprio se define. Junqueira escreveu sobre o curso: “Boa dica para quem quer investir em evoluir como pessoa”.

Em outro story no Instagram, Junqueira disse que ela e o marido fizeram um curso do padre Paulo Ricardo – religioso ultraconservador que já empunhou um fuzil ao lado do guru bolsonarista Olavo de Carvalho. Ela falou que achou o curso “bem bacana”.

Em julho de 2023, Junqueira divulgou curso de ex-funcionário da Brasil Paralelo
Junqueira divulgou também curso de padre ultraconservador e bolsonarista, em maio de 2024

A nota do presidente do Nubank cita também Konrad Scorciapino, um ex-funcionário do banco que atualmente é o diretor de tecnologia da Brasil Paralelo. Ele foi um dos criadores de um fórum online que propagava crimes de ódio, conforme foi revelado pela Pública no início de junho.

“Sobre um ex-funcionário (2013-2018) que depois se tornou diretor da Brasil Paralelo, nós gostaríamos de reiterar que, por lei, nós não comentamos sobre as questões pessoais ou o passado de funcionários ou ex-funcionários. Nubank tem mecanismos e protocolos para avaliar o comportamento dos funcionários, e não toleramos nenhuma atividade ilegal ou quebra do nosso código de conduta”, ele escreveu.

No entanto, informações do Intercept Brasil também apuradas pela Pública mostram que o Nubank tomou conhecimento da atuação do ex-funcionário no fórum com atividades ilegais em 2016, mas agiu para abafar a situação e o manteve no cargo por dois anos. 

A Pública revelou também que a Brasil Paralelo tem agido para ampliar o seu raio de influência. A produtora criou o conteúdo de um curso de licenciatura em história oferecido por uma universidade particular, coordenado por Rafael Nogueira, olavista que presidiu a Biblioteca Nacional durante o governo Bolsonaro. A Brasil Paralelo também planeja abrir cursos de formação de professores de geografia e ciências sociais. 

A empresa, alinhada à extrema direita, segue uma das máximas de Olavo de Carvalho: “ocupar espaços nos meios de ensino, cultura e entretenimento para difundir seus ideais”.

Edição:
Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas