Buscar
Reportagem

No Nordeste, 1 em 4 candidatos a prefeito das capitais ignora prevenção a chuvas

Em Maceió, menos candidatos mencionaram ações preventivas; já Aracaju teve mais candidatos que apresentaram propostas

Reportagem
9 de setembro de 2024
17:52
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Imagem aérea de Maceió em Alagoas, região nordeste do país
Celio Junior/Secom Maceió

Apesar de a maioria das capitais do Nordeste sofrerem com os impactos dos desastres causados pelas chuvas, principalmente com os efeitos das mudanças climáticas, 28,4% dos candidatos a prefeito dessas cidades não apresentaram em seus programas de governo propostas que busquem mitigar ou prevenir esses impactos ambientais.

A Agência Tatu analisou as propostas de governo de cada um desses candidatos, com metodologia própria que pode ser conferida ao final da reportagem.

Das nove capitais nordestinas, quatro não contam com um Plano de Mudanças Climáticas, enquanto cinco possuem nível alto ou muito alto em dois índices relacionados a riscos de desastres geo-hidrológicos — aqueles causados por chuvas intensas.

Os dados sobre os riscos de desastres geo-hidrológicos são da plataforma AdaptaBrasil do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que apresenta índices e indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas no país. Já o levantamento sobre capitais que não possuem um Plano de Mudanças Climáticas foi realizado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), em maio de 2024.

Dos 67 candidatos à prefeitura nas capitais do Nordeste nas Eleições Municipais de 2024, 41 propõem alguma ação diretamente relacionada à prevenção ou mitigação de desastres ambientais geo-hidrológicos; 7 mencionam parcialmente — quando a proposta de governo fala sobre a possibilidade de riscos ou desastres por chuva intensa, mas não apresenta uma ação direta de mitigação ou prevenção; e 19 não mencionam de forma alguma.

Propostas dos candidatos a prefeito sobre prevenção de desastres geo-hidrológicos

Foram analisadas as propostas de governo de todos os candidatos a prefeito nas capitais do Nordeste.

A capital que mais registrou candidaturas com propostas de governo que possuem ação clara de prevenção foi Aracaju, com sete candidatos que mencionam claramente e apenas um que não menciona. Já Maceió foi a cidade que menos teve candidatos com projetos que mencionam claramente, apenas dois dentre os seis candidatos que concorrem.

Ao observar os partidos dos candidatos, o União foi o que mais teve candidatos com propostas sinalizadas como “mencionam claramente”, uma vez que todos os cinco candidatos pela sigla apresentaram alguma proposta no sentido de prevenção a desastres geo-hidrológicos.

Já o PCO foi o partido que mais teve candidatos a prefeito que não mencionaram nada sobre o assunto, pois todos os seis candidatos a prefeito nas capitais nordestinas possuem a mesma proposta de governo, apresentada pelo partido para abranger todas as candidaturas do país.

Candidatos a reeleição

Entre os sete candidatos que disputam a reeleição para o cargo de prefeito nas capitais do Nordeste, somente na proposta de governo do atual prefeito de Maceió, JHC (PL), não foi notada nenhuma ação que busque a mitigação ou prevenção clara de desastres causados por chuvas intensas.

No plano de governo das Eleições de 2020, o candidato apresentou a proposta de desenvolver o Plano Municipal de Prevenção de Catástrofes Naturais e Eventos Extremos, mas a ação não foi efetivada, como é possível perceber pelo levantamento do IJSN.

Tanto nas Eleições de 2020 quanto na atuais de 2024, os candidatos Bruno Reis (União), de Salvador, Eduardo Braide (PSD), de São Luís, Cícero Lucena (PP), de João Pessoa, e Dr. Pessoa (PRD), de Teresina, registraram planos de governo que mencionam claramente a prevenção de desastres ambientais causados por chuvas intensas.

Em alguns casos, a proposta é genérica, como no plano apresentado por Eduardo Braide (PSD) nas Eleições de 2020, em que menciona somente “atuar na prevenção e solução de alagamentos na cidade”, sem especificar de que forma isso será feito.

Já o candidato à reeleição José Sarto (PDT) não havia mencionado nada sobre mitigação ou prevenção de desastres geo-hidrológicos em 2020, mas em 2024 já possui um plano para aumentar a resiliência da cidade aos efeitos das mudanças climáticas.

Em 2020, o candidato João Campos (PSB), de Recife, menciona somente parcialmente alguma proposta relacionada à preocupação da ocorrência de desastres ambientais, mas em 2024 o plano de governo já se mostra mais específico, mencionando claramente alguma ação com esse propósito.

Propostas de governo dos candidatos a prefeito no Nordeste

Foram avaliadas se ações de prevenção a desastres causados por chuvas estavam presentes nas propostas dos candidatos, nas Eleições Municipais 2024.

Risco de desastres

De todas as capitais do Nordeste, cinco possuem nível alto ou muito alto em dois índices relacionados a riscos de desastres causados por chuvas intensas: o primeiro sobre inundações, enxurrada e alagamentos; e o segundo sobre deslizamento de terra.

Os índices da AdaptaBrasil apresentam uma pontuação de 0 a 1 para avaliar o nível de risco para cada impacto ambiental, que vai de muito baixo a muito alto, considerando a vulnerabilidade da população, a exposição da população aos desastres geo-hidrológicos e a ameaça do tipo de desastre, ocasionado por chuvas intensas.

Ao observar o risco de inundações, enxurradas e alagamentos, Salvador (0.73), Teresina (0.64), São Luís (0.63), Natal (0.61) e Maceió (0.6) possuem índice alto de ocorrência, enquanto Aracaju (0.55), João Pessoa (0.49), Recife (0.48) e Fortaleza (0.47) possuem nível médio.

Já sobre o evento de deslizamento de terra, considerando a ameaça de desastre causado pelas chuvas, o índice de risco é muito alto na capital Salvador (0.83), e alto em Teresina (0.7), Natal (0.68), Maceió (0.65), São Luís (0.63) e Fortaleza (0.61). Já Aracaju (0.59), João Pessoa (0.54) e Recife (0.52) apresentam nível médio no índice.

Segundo a engenheira ambiental e sanitarista, Nathália Nascimento, ter um plano que busque prevenir ou mitigar os riscos de impacto das mudanças climáticas em sistemas socioecológicos se mostra fundamental, considerando o risco de ocorrências cada vez mais frequentes desses impactos.

“Agora com as mudanças climáticas, eventos climáticos como esses vão ser mais comuns e eles vão acabar prejudicando principalmente os estados, cidades e bairros mais vulneráveis”, relata Nascimento.

Geralmente, desastres relacionados à questão geo-hidrológica são evitáveis se tiverem um bom investimento em infraestrutura, educação ambiental e moradia digna, afirma a especialista em resíduos sólidos e planejamento urbano.

Ao analisar as propostas de governo dos candidatos, é possível notar que alguns candidatos mencionam a intenção de dar moradias dignas ou realocar as famílias que moram em locais de risco de deslizamento de terra ou de enchentes e alagamentos, mas a prevenção à ocorrência de desastres não está no plano.

“A gente não pode somente tirar as pessoas de lugares de encostas, é preciso ver como é que a cidade pode ser resiliente e sustentável. (…) O gestor não pode só querer salvar o meio ambiente sem pensar na sociedade, e também não pode só pensar na sociedade sem considerar o meio ambiente, os dois fatores têm que andar de mãos dadas”, explica Nathália Nascimento.

Não se pode falar em uma cidade melhor se a gente não pensa em uma moradia digna. Muitas pessoas vivem em locais de risco, não por que elas querem, mas por que é o que elas têm.
Engenheira Ambiental e Sanitarista

Das nove capitais nordestinas, somente Aracaju, Maceió, Natal e São Luís não possuem o Plano de Mudanças Climáticas, que é um desafio global alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o levantamento do IJSN.

“Como diz o ditado: é melhor prevenir do que remediar. É melhor que o município já tenha um plano para poder agir rápido e fazer com que tenha o mínimo de impacto negativo na situação, caso ocorra algum desastre. Então, é importante a gente ter todo esse estudo para ficar alerta, para não perder vidas, e não só a vida, mas também patrimônios, tanto naturais, quanto materiais”, finaliza a engenheira ambiental e sanitarista, Nathália Nascimento.

Metodologia

MENCIONA CLARAMENTE A MITIGAÇÃO DE DESASTRES AMBIENTAIS: Aquelas propostas de governo onde o/a candidato/a propõe alguma ação diretamente relacionada à prevenção ou mitigação de desastres ambientais, sobretudo os geo-hidrológicos (causados pelas chuvas).

MENCIONA PARCIALMENTE A MITIGAÇÃO DE DESASTRES AMBIENTAIS: Quando as propostas de governo de candidatos mencionam a possibilidade de riscos ou desastres ambientais geo-hidrológicos, mas não apresentam uma ação direta de mitigação ou prevenção a esse fenômeno.

NÃO MENCIONA NADA SOBRE MITIGAÇÃO A DESASTRES AMBIENTAIS: As propostas de governo dos/as candidatos/as em que não foi encontrada nenhuma menção ou ação relacionada à prevenção ou mitigação de desastres ambientais geo-hidrológicos.

Dados abertos

Prezamos pela transparência, por isso disponibilizamos a base de dados e documentos utilizados na produção desta matéria para consulta:

Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do TSE;
Índices do AdaptaBrasil;
Levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN).

Esta reportagem foi publicada originalmente pela Agência Tatu de Jornalismo de Dados.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 72 Terras raras, soberania e eleições nada normais

Podcast analisa as diferentes visões sobre soberania nacional de Brasil e EUA

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Crise no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até aqui?

|

André Mendonça escancara divisões na Corte ao tirar sigilo de investigação citando colega e tema deve impactar eleições

Resgates de pessoas em condição de escravidão caem no Brasil, mas disparam em SP, diz CPT

|

Em 6 meses de 2026, o estado teve mais pessoas resgatadas em condições análogas à escravidão que em todo o ano passado

Fiesp defende modelo inconstitucional de Bukele na segurança e afaga candidatos da direita

|

Candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro promete presídio “El Salvador” durante abertura de evento em São Paulo

Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUA

|

Levantamento revela que ex-deputado e influenciador mantêm vida de alto padrão nos EUA

Como a caça conservadora ao voto feminino alimenta a violência contra a mulher

|

Fragilidade, hormônios e até intelecto: movimento tenta reduzir papel da mulher em ação violenta que começa no discurso

Com auxílio-reclusão restrito, famílias de encarcerados gastam R$ 4 bi por ano em visitas

|

Enquanto uma visita a presídio chega a custar mais de mil reais, Lei Antifacção diminui o acesso a benefício

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022