Buscar
Coluna

No Brasil que não respira “é tudo pra ontem”

Pandemia de fumaça, seca e calor traz de volta os versos de Emicida que nos acolheram nos anos da covid

Coluna
14 de setembro de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui. 

O desânimo que toma conta de mim está espelhado nos olhos de quem encontro nestes dias de fumaça e fogo. Escrevo do centro de São Paulo, na tarde de quinta-feira (12), quando a temperatura atinge 34 graus e a umidade despenca para menos de 20%. “Já houve dias piores”, me lembra o vizinho, “esse agora é o novo normal”.

A expressão me joga na atmosfera triste da pandemia, quando a gente estava presa em casa vendo os números de vítimas de covid se empilharem como os corpos enterrados sem velório. 

Agora a gente entra e sai, mas sem respirar, morrendo a cada dia um pouquinho no fogo que queima de norte a sul, de leste a oeste, destruindo nossas riquezas compartilhadas. “Viver é partir, voltar e repartir, morte é quando a tragédia vira um costume”, canta Emicida em “É tudo pra ontem”.

As mensagens trocadas entre amigos, colegas e parentes trazem notícias de crianças internadas com problemas respiratórios, de pessoas assustadas com o fogo queimando ao seu lado, cada vez mais próximo das suas casas. 

No extremo oeste da capital paulista, os meninos estavam brincando na chuva de fuligem, como se fossem flocos de neve no fim da tarde de quarta-feira. 

Falo do que está perto de mim, sabendo que há mais de mês os moradores de capitais como Manaus e Rio Branco, ali, no coração da Amazônia, estão encobertos pela fumaça e o território dos Kayapó e mais 40 terras indígenas, só em Mato Grosso, estão em chamas. Justo eles que tentam nos salvar e agora enfrentam não apenas o fogo, mas a seca que esvai os majestosos rios amazônicos. 

É uma tragédia sem fronteiras, como a covid, e desta vez não podemos apontar para um vírus nem apelar para as vacinas. Os culpados somos nós. Mesmo que sejam “os outros” a botar o fogo, há quanto tempo consentimos?

Lembro daquela esperança que a gente sentia de que a pandemia pudesse mudar o nosso jeito “homem branco” de viver. Aquele calor de compaixão que animava as lives de artistas e profetas como Ailton Krenak, Gilberto Gil e o próprio Emicida, anfitrião da imaginação na pandemia. 

Acredito na força desse sentimento coletivo que nos livrou de um governo cruel e autoritário, rejeitado pelas mortes evitáveis de milhares de pessoas, pela explosão da fome e da miséria, pelo legado de destruição na Amazônia e nos direitos de milhões de brasileiros. Também sinto o peso dessa herança no cenário apocalíptico de hoje.

Mas não temos mais tempo de reconstruir nem razões para prosseguir na ilusão do desenvolvimento, ainda incensada nos discursos de governantes. 

Como disse Krenak no episódio desta semana do podcast “Bem Viver”: “Imaginar o futuro como um lugar para onde nós estamos indo prospectivamente é um equívoco, a gente vai continuar comendo a terra se a gente achar que nós estamos indo para algum lugar”.

E aconselha: “A gente tem que pensar em decrescer, em decrescimento. A gente tem que pensar em se envolver, envolver com a biosfera do planeta Terra, e não desenvolver”. 

Parece ousado demais, mas é uma ideia à altura do tempo em que vivemos. Sorte a nossa que estamos em um país onde não nos faltam referências para resgatar o conhecimento de como ser humano e habitar o planeta. Nem coragem para enfrentar o caos como ensinaram enfermeiros e nos inspiram agora os brigadistas. 

Mas é tudo pra ontem. 

Que as deusas nos abençoem e La Niña chegue logo com a chuva que a gente merece.

PS. Deixo aqui dois convites para quebrar essa solidão de fim de mundo. O primeiro é para ouvir (ou assistir) o “Bom dia, Fim do Mundo”, nosso videocast que toda semana traz a “Trombeta do Apocalipse”, mas também muita conversa e até uma “Luz no Fim do Túnel”. Nos tocadores de podcast e no YouTube da Agência Pública. 

O segundo convite é para discutir o papel do jornalismo na emergência climática. Na próxima quarta-feira (18), às 15h, participo do “Mês da Filantropia que Transforma”, da Rede Comuá. O tema deste encontro online será “Abordagens inovadoras no jornalismo de clima” e as inscrições podem ser feitas por este link.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai