Buscar
Reportagem

Como o PT se aliou à direita e ao MDB do agronegócio em Santarém para as eleições

Coligação é uma "salada ideológica", unindo PT, MDB e partidos da direita como União Brasil, PP, Republicanos e mais

Reportagem
23 de setembro de 2024
12:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
José Cícero/Agência Pública

SANTARÉM — Os dois candidatos a prefeito das eleições que concentram as maiores atenções em Santarém, no Pará, segundo pesquisas divulgadas por meio de comunicação da região, são Zé Maria Tapajós (MDB), apoiado pelo governador Helder Barbalho (MDB), e JK do Povão (PL), um bolsonarista, filho de um ex-prefeito, que nos últimos dez anos ganhou fama na cidade ao comandar um blog com supostas denúncias contra a prefeitura. 

JK está na oposição ao atual prefeito, Nélio Aguiar (União Brasil), que, no cargo de prefeito há quase oito anos, não pode mais se candidatar à reeleição e agora apoia o nome do MDB, Zé Maria Tapajós. Trata-se do candidato do sistema político mais tradicional da região.

Além de ter o apoio do atual prefeito e do governador do estado, ele fechou uma aliança com o PT e, por extensão, com o governo federal, que abriga um irmão de Helder, Jader Filho, como ministro das Cidades. A coligação é uma verdadeira salada ideológica. Agrega PT, MDB e várias siglas da direita, como o União Brasil, o PP (Partido Progressista), o Republicanos, o Podemos, o DC e o PSD, sem deixar de fora o PSB, o PC do B e o PV.

Os dois candidatos, ambos com ligações com o agronegócio, não quiseram falar com a Agência Pública sobre meio ambiente, alegando compromissos de campanha.

O arco de alianças gerou uma frustração em parte da militância do partido, conforme dois candidatos a vereador do PT contaram à Pública. Antes, havia um nome aguardado como a candidata “natural” à prefeitura, a deputada estadual e ex-promotora de justiça Maria do Carmo (PT), que foi prefeita de Santarém por duas vezes (2005-2008 e 2009-2012).

Os partidos de esquerda aguardavam a definição desse nome pelo PT para se unir numa frente à esquerda, disse Maike Kumaruara, do diretório municipal do PSOL em Santarém. Contudo, por volta de março passado a pré-candidatura da deputada foi deixada de lado em meio às costuras políticas do clã Barbalho e de outros aliados de Zé Maria, como o ex-prefeito e ex-deputado federal Joaquim Lira Maia, uma espécie de eminência parda da política na região.

Por que isso importa?

  • A Agência Pública está percorrendo a BR-163, entre os estados de Mato Grosso e Pará, e o município de Santarém é um dos locais dessa rota onde nossa equipe investiga como o tema das mudanças climáticas e meio ambiente vem sendo discutido nas eleições municipais. A região é extremamente marcada por fogo, conflitos e desmatamento, com cidades que registram grande adesão ao bolsonarismo.

Ao final das conversas políticas, um irmão de Maria do Carmo, o vereador Carlos Martins (PT), foi lançado pelo PT como vice de Zé Maria. Nos lados do MDB, Lira Maia é tio do deputado federal Henderson Pinto (MDB), que vem a ser o presidente do diretório do MDB em Santarém.

Lira Maia é dono da AgroSanta, uma empresa que justamente comercializa agrotóxicos em toda a região. Para o PSOL, o ex-deputado foi um dos responsáveis “por trazer a soja” para o Baixo Amazonas – a Pública tentou ouvir Maia em sua casa, mas ele não foi encontrado.

A Pública apurou que o comando do PT em Santarém disse a alguns candidatos e integrantes do diretório que a aliança com a direita e o MDB era necessária como estratégia política para “dar alguns passos atrás e depois avançar”, a fim de derrotar o bolsonarista JK, e também porque Maria do Carmo corria o risco de perder a eleição, o que poderia fragilizar o partido no município. A Pública procurou Maria do Carmo por telefone, mas não houve retorno até a publicação.

O fechamento da aliança levou o PSOL a desistir de se coligar com o PT, rompendo a proximidade que tiveram na campanha presidencial de Lula em 2022.

“A gente apostava muito [em Maria do Carmo] para continuar num bloco de esquerda porque a gente precisa derrotar a extrema direita. Porque Santarém é tipo a última fronteira do agronegócio. Mas o PT resolveu fazer um acordo com os Barbalho, fez uma política de interesses pra dentro da tendência da Maria. E aí não tem como a gente ir junto com o Lira Maia, que é o cara que trouxe o agronegócio pra cá. A gente acha que o agronegócio é responsável por esse caos climático, essa onda de queimadas. O mundo tá acabando, e a política é uma saída pra isso, né?”, disse Kumaruara.

De forma contraditória, o tema do meio ambiente desapareceu das duas principais campanhas eleitorais à prefeitura neste ano, como mostramos na reportagem “Enquanto a soja avança, clima e meio ambiente somem das eleições em Santarém”.

A exceção é a candidata do PSOL em coligação com a Rede, em que a professora Izabel Sales defende uma política do “bem viver”. Ela disse à Pública que o debate sobre meio ambiente está “silenciado” porque os outros dois principais candidatos estão ligados ao agronegócio.

Helder Barbalho é uma figura presente em praticamente todos os programas eleitorais de Zé Maria em Santarém. Embora governador do estado anfitrião da COP 30 no ano que vem, a ser realizada em Belém, Helder Barbalho é um entusiasta da produção de soja no Baixo Amazonas. No ano passado, ele participou do ato de “abertura nacional” da colheita de soja, que pela primeira vez foi realizado no Pará. O ato ocorreu justamente na fazenda de Avelino Noimann, o pai da candidata a vice com JK do Povão, em uma demonstração de como a política na região circula em poucas mãos.

Edição: | Fotógrafo:
Magno Borges/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras