Buscar
Reportagem

Brasil contorna lobby e passa a defender banimento global de plásticos

Pública revelou como indústria do plástico freou atuação do país em reunião da ONU que buscava tratado antipoluição

Reportagem
13 de dezembro de 2024
11:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Arquivo Agência Brasil

Depois de ceder à pressão da indústria e recuar em um posicionamento antiplásticos, o governo brasileiro passou a defender o banimento internacional de itens problemáticos e prepara reuniões interministeriais para consolidar sua posição até a próxima rodada de negociações sobre poluição plástica do Pnuma, o programa de meio ambiente da ONU. 

Ainda no final da última rodada de negociações – que terminou, sem acordo, no dia 2, em Busan, na Coreia do Sul –, o Brasil aderiu a uma proposta apresentada por México e Suíça que inclui uma lista de produtos plásticos para eliminação gradual até um eventual banimento. A medida tem o apoio de outros 95 países. 

O apoio brasileiro se deu dois dias após a reportagem da Agência Pública ter revelado que o Brasil havia desistido de apresentar sua própria proposta com uma lista de plásticos para banimento global. 

O recuo havia sido pedido por um ex-secretário do governo Bolsonaro. Hoje no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Washington Bonini representou a pasta junto à delegação brasileira nas negociações sobre poluição plástica. 

Ele admitiu à reportagem ter consultado a indústria petroquímica antes de se posicionar contra uma lista para banimento de plásticos problemáticos – são eles, principalmente, os plásticos de uso único, como embalagens, canudos, copos e talheres, além de cosméticos com microesferas plásticas e produtos com plástico oxibiodegradável. 

A proposta que seria apresentada pelo Brasil e à qual a reportagem teve acesso incluía itens que não constam na proposta articulada pelo México e a Suíça, como copos e pratos descartáveis e filtros de cigarro com camada plástica. 

Por outro lado, a lista apresentada pelos dois países sugere outros itens que complementariam a proposta brasileira, como os bastões plásticos de suporte a balões infantis. Ela também é mais abrangente ao incorporar os aditivos químicos contaminantes, que trazem riscos para a saúde. Entre eles estão os ftalatos, o chumbo, o cádmio e o bisfenol.

Largamente usadas na fabricação de plásticos, essas substâncias estão ligadas a disrupções endócrinas, cânceres, doenças cardiovasculares, danos neurológicos e nos rins, além de doenças crônicas e redução de fertilidade em homens e mulheres. 

Questionado, o MDIC respondeu em nota que “não registra dissensos”. A pasta afirmou que “busca o equilíbrio entre os diferentes setores, com o objetivo de alcançar um instrumento abrangente e equilibrado e com a reafirmação de todos os compromissos ambientais”. 

“O chamado de muitos países, de que foi porta-voz o México, pelo fortalecimento das medidas em relação a químicos de preocupação e a produtos plásticos considerados problemáticos, atende a essa posição [do Brasil] e, por esta razão, o país se juntou ao grupo”, afirmou o Itamaraty em nota. 

Já o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) afirmou que adesão do país se deveu ao “diálogo construtivo” entres os órgãos do governo federal. A reportagem apurou que o alto escalão do MDIC e do MMA se reuniram em Brasília para realinhar a posição brasileira no final das negociações em Busan – que terminaram sem avanços, após bloqueios de países árabes e grandes produtores de petróleo. Os países devem voltar a negociar no próximo ano. 

De volta a Brasília, a delegação programa reuniões interministeriais para consolidar a posição brasileira sobre o assunto. De acordo com o MMA, que tem puxado a agenda no governo, a pauta exige uma abordagem abrangente. 

Em nota, a pasta afirmou que a discussão deve tratar “do ciclo de vida completo do plástico, em conformidade com a Estratégia Nacional de Economia Circular e a Política Nacional de Resíduos Sólidos”. 

De acordo com negociadores da delegação brasileira, as políticas públicas em vigor no país devem servir como base mínima para a elaboração da posição que o país deve defender internacionalmente. Hoje, o Brasil conta com algumas regulamentações que restringem a aplicação de químicos perigosos à saúde, enquanto os plásticos problemáticos são alvo de um projeto de lei que tramita no Senado – o PL 2.524/22, que aguarda, desde março, o relatório da Comissão de Assuntos Econômicos da casa legislativa. 

O lobby da indústria plástica, que marcou presença nas negociações em Busan através da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) , também tem atuado em Brasília contra as listas de banimento de itens plásticos. De acordo com representantes do setor, faltam critérios científicos para determinar quais itens devem ser banidos. 

Outra preocupação que baseia o argumento da indústria é com os impactos socioeconômicos da transição dos plásticos para materiais alternativos, como papel, vidro e alumínio. 

De acordo com um estudo encomendado pelas ONGs ambientalistas Oceana e WWF e realizado pela consultoria Systemiq, a transição de plásticos descartáveis para outros materiais pode gerar, até 2040, a perda de 13 mil empregos diretos. 

A projeção buscou calcular a diferença entre os empregos que seriam perdidos na indústria de plásticos e os que seriam criados em setores alternativos. Ao ampliar o escopo dessa conta, considerando também as mudanças nos empregos indiretos nessa transição, a diferença entre a perda no setor de plásticos e a geração de empregos em outros setores fica menor: seriam apenas mil empregos perdidos, entre diretos e indiretos.  

Por outro lado, a análise também calcula um impacto positivo no valor econômico de mercado e no Produto Interno Bruto (PIB), com uma injeção de R$ 403 milhões na economia do país.

Edição:
Reprodução/Freepik

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

A Meta está barrando conteúdos políticos nas eleições, mas deixando robôs agirem

|

Levantamento mostra mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas

Deputados federais mais votados da direita gastam o dobro com anúncios que os da esquerda

|

Os dez candidatos mais votados da direita gastaram R$ 5,3 milhões com anúncios na Meta; os da esquerda, R$ 2,6 milhões

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo