Buscar
Entrevista

Ainda Estou Aqui: “São Eunices que seguram a onda e que buscam justiça”, diz Vera Paiva

Primogênita de Eunice e Rubens Paiva fala sobre sua trajetória política, legado do filme e Lei de Anistia

Entrevista
3 de abril de 2025
14:07
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Psicóloga e Professora da Universidade de São Paulo (USP), Vera Paiva, filha de Eunice e Rubens Paiva
Pedro França/Agência Senado

Na semana que se completam 61 anos do golpe militar de 1964, a Agência Pública recebeu Vera Paiva, a filha mais velha de Eunice e Rubens Paiva, para um bate-papo com Marina Amaral, diretora executiva e co-fundadora da Pública. A conversa foi transmitida ao vivo no canal de YouTube da Pública.

Paiva é professora titular do Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) desde 1987. Ela também atua na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos desde 2014, da qual sua mãe, Eunice, fez parte, em 1996. Na conversa, a psicóloga falou sobre o sucesso internacional do filme Ainda Estou Aqui e os debates relevantes no Supremo Tribunal Federal (STF) influenciados pela obra, que podem afetar a Lei da Anistia, levando 18 ações a julgamento que envolvem pessoas mortas ou desaparecidas durante o regime.

“Eu me preocupo menos com a punição stricto sensu daqueles responsáveis pela morte do meu pai, por exemplo, – e eu gostaria de ver isso – e mais que se entenda a punição pela violência de Estado mais amplamente, que não se fique perdoando os caras [da polícia] que toda hora estão matando gente”, disse Paiva sobre a ação no STF, relatada pelo ministro Flávio Dino, de excluir da Lei da Anistia os crimes de desaparecimento de corpos.

“Se a gente não começar a punir os de hoje, eles ainda estarão aqui ameaçando de continuar sendo assassinos, de continuar perpetuando esse tipo de coisa”, defende. 

Para ela, Ainda Estou Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Filme Internacional e com um público de mais de 5 milhões de espectadores brasileiros, furou a bolha e até foi assistido por quem votou em Bolsonaro, mas não chegou aos bolsonaristas mais convictos. Segundo a psicóloga, o sucesso internacional do filme também dialoga com contexto de ameaça mundial às democracias.

“Esse modo de reagir, de tocar a vida e cuidar dos filhos, é um modo de reagir de milhares de Eunices do Brasil […] As cenas do filme repercutem nas várias Eunices a violência de Estado hoje. Na periferia, são Eunices que seguram a onda e que ficam em busca da justiça”. 

Com estas referências, Paiva “viveu política dentro de casa”, mas, com o golpe, teve de aprender a “esconder e a silenciar”. Ela atuou no movimento estudantil e foi uma liderança importante na reconstrução dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCE Livre) da USP e da União Nacional dos Estudantes (UNE), proibidos pela ditadura militar. Na sua trajetória política, também participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). “Minha mãe, a primeira coisa que ela falou [sobre o movimento estudantil] foi ‘pelo amor de Deus não me ponha nessa situação nunca mais’”. Paiva conta que, ainda assim, Eunice a apoiava e a acompanhava ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) quando era obrigada a comparecer: “Ia toda vez, estava lá enfrentando firme e forte”.

Paiva também trouxe uma dose de esperança falando sobre a importância da participação da juventude nos movimentos de resistência no Brasil e terminou com um convite para a 5ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, um ato que pretende reforçar a continuidade da luta por memória, verdade, justiça e reparação. A Caminhada ocorre neste 6 de abril, a partir das 15h, com ponto de encontro em frente ao antigo DOI-Codi (Rua Tutoia, 921, Vila Mariana). 

Assista à entrevista completa: 

A conversa faz parte da cobertura sobre os 61 anos do início da ditadura militar no Brasil. Enquanto tentam apagar a história, a gente investiga e conta. Ajude o jornalismo independente da Pública com um Pix para contato@apublica.org ou com uma doação recorrente neste link

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal