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Por que falar dos jornalistas mortos em Gaza entre tantas vítimas?

Mais de 200 jornalistas já perderam a vida em Gaza, quase o triplo dos que morreram nas duas guerras mundiais

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29 de agosto de 2025
17:00
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No primeiro dia do mês de setembro vocês vão encontrar uma mensagem especial na homepage da Agência Pública. Junto com mais de 150 veículos, participaremos da campanha da Repórter Sem Fronteiras que vai chamar a atenção do mundo todo para a necessidade de proteger os jornalistas palestinos – vários deles mortos em ataques direcionados contra a imprensa por Israel – e exigir acesso irrestrito a Gaza para a imprensa internacional, até o momento impedida de entrar na região pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

E por que é importante dar acesso e garantir a segurança dos jornalistas em Gaza? Por que destacar essas mortes entre as 61 mil vítimas palestinas, 83% delas civis? Por que falar de jornalistas quando os bombardeios, a fome e a falta de assistência médica matam 28 crianças por dia?

A resposta é simples: sem os jornalistas independentes que continuam trabalhando em Gaza, inclusive como correspondentes da imprensa, você não teria informações confiáveis sobre a guerra. No caso das vítimas jornalistas, além da vida, sempre preciosa, o que também importa é a função social que exercem para que o mundo tome conhecimento do genocídio em curso.

Sem os jornalistas, não se saberia nada sobre pessoas alvejadas pelo exército israelense na fila de comida, nem sobre a desnutrição e a fome devastadoras em Gaza, que Israel continua a negar. Ninguém ouviria os familiares das vítimas, os profissionais de saúde que lutam para salvar vidas enquanto hospitais são bombardeados, as mães desesperadas para manter os filhos vivos.

Os crimes de guerra, já denunciados no Tribunal Penal Internacional, seriam apagados pela propaganda israelense. Inclusive o assassinato de jornalistas que são protegidos pela Convenção de Genebra, assim como os profissionais de saúde e os hospitais.

E é exatamente por isso que o governo de Netanyahu não apenas deixou de proteger os jornalistas palestinos como os tornou alvo de ataques. Isso mesmo. Segundo os dados da Repórter sem Fronteiras (RSF), entre os 210 profissionais da imprensa mortos pelo exército israelense em Gaza, pelo menos 56 foram alvos intencionais ou mortos enquanto trabalhavam. É por isso que a RSF pede uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU “para deter a carnificina”.

No dia 10 de agosto deste ano, um ataque israelense direcionado à tenda de Anas Al-Sharif, correspondente da Al-Jazeera e um dos profissionais de imprensa mais conhecidos por atuar na linha de frente na Faixa de Gaza, matou, além dele, mais cinco repórteres do mesmo veículo. Israel admitiu o ataque direto ao profissional e, sem apresentar provas, acusou Al-Sharif de ligação com o terrorismo.

Em uma entrevista ao podcast “Pauta Pública”, concedida em junho, o jornalista palestino Ramzy Baroud contou como sua irmã, uma médica, foi morta intencionalmente por um drone israelense. Uma prática, segundo ele, que já se tornou comum em Gaza e que evidencia a intenção genocida, inclusive privando os feridos, os desnutridos, de obter assistência médica. São estes profissionais essenciais que estão sendo alvos diretos de Israel: médicos, enfermeiros, socorristas e jornalistas.

Na segunda-feira passada, 25 de agosto, cinco jornalistas palestinos que trabalhavam para a imprensa internacional foram mortos em um duplo ataque de Israel ao hospital Nasser, em Khan Younis, no sul de Gaza, a mesma cidade em que a irmã médica de Baroud foi assassinada. Depois de o exército israelense atingir cerca de 20 pessoas no primeiro bombardeio, entre eles os jornalistas, o segundo ataque visou os profissionais de saúde que vieram em seu socorro. Dá para acreditar nisso? Pois é verdade.

Desta vez, embora a linha editorial dos grandes veículos estrangeiros continue a privilegiar Israel, inclusive divulgando amplamente a versão israelense de que Al-Sharif tinha ligações com o terrorismo, a AP e a Reuters reagiram e escreveram uma carta conjunta a Netanyahu, exigindo explicações sobre o episódio que matou três jornalistas contratados pelas agências e feriu mais um: “Esperamos que esta investigação seja rápida, completa e forneça respostas claras. Essas mortes exigem responsabilização urgente e transparente”.

Uma das vítimas, a jornalista Mariam Abu Dagga, que trabalhava para AP e outros veículos, tinha 33 anos e era mãe de um filho de 12 anos, evacuado de Gaza por causa da guerra. Quase todos os dias ela ia ao Hospital Nasser para coletar casos e relatos das crianças desnutridas e transmiti-los à agência, aproveitando a internet do hospital. Como legado, Mariam deixa extensa documentação sobre a fome e o sofrimento das crianças em Gaza, foco de seu trabalho jornalístico, e uma carta para o seu próprio filho.

“Ghaith, coração e alma de sua mãe, peço que não chore por mim, mas que reze por mim, para que eu possa permanecer serena”

escreveu.

“Quero que você mantenha a cabeça erguida, estude, seja brilhante e distinto, e se torne um homem de valor, capaz de enfrentar a vida, meu amor. Não se esqueça de que fiz tudo para te fazer feliz, confortável e em paz, e que fiz tudo por você. Quando você crescer, se casar e tiver uma filha, dê a ela o nome de Mariam, como eu.”

Por Mariam e por todos os jornalistas que se arriscam para que o sofrimento de Gaza e a crueldade de Israel não fiquem impunes é que participamos dessa campanha. Não podemos deixar que se apague a luz sobre os fatos, tanto mais cruéis quanto mais silenciados.

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