Buscar
Crônica

Na Terra

Sinto saudade de sonhar com o céu, mas prefiro minha certeza de viver bem o presente

Crônica
18 de outubro de 2025
06:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quem mente não vai para o céu, estalou a frase como um tapa na minha cara. Olhei de novo para seu pequeno emissor: um menino de quatro anos, de cachos loiros sobre os ombros, com o verde-mar e azul-celeste ao fundo. Ele mantinha os olhos brilhantes, apesar do semblante sério e reflexivo. Talvez nem notasse a maravilha de estar em meio àquele cenário de cinema. A sentença dita de forma inesperada, ao mesmo tempo em que soava assustadora, principalmente a seu profeta, também trazia algo de esperançoso: a crença de que, após uma vida sofrida cá na terra, ainda nos encontraremos no paraíso para desfrutar a felicidade. No meu sadismo de adulta ateia, quis rebater: “Sabia que o céu não existe?”, mas me resignei na dúvida sobre qual seria o maior sofrimento: temer não chegar ao paraíso ou acreditar que ele não existe? Continuamos na brincadeira de esguichar água, quando a criança repetiu seu mantra: “Sabia que quem mente não vai para o céu?”. Outro golpe que ardeu em mim. 

Mas por que será que aquela sentença me incomodou e ainda incomoda tanto? 

Fui uma criança católica que frequentava as missas de domingo sozinha. Tenho na memória a imagem da primeira confissão — uma menina de onze anos que, enquanto aguarda sua vez para chegar ao confessionário, busca seus pecados numa lista extensa entregue pelo catequista e encontra suas três falhas: mentir para os pais, brigar com os irmãos e falar palavrão. Bom, a lista é irrisória e os pecados, os mais venais possíveis, mas a fixação pela mentira já estava lá. A falsidade sempre me incomodou, talvez por ter crescido, como muitos na década de 1980, imersa num ambiente com muitas inverdades que causavam medos. O país saía de uma fase em que os abusos da ditadura militar dominavam, apesar de serem anunciados como brandos. A atmosfera do medo da tortura, do desaparecimento e do desvio ainda estava impregnada no ar. 

Cresci e, já na adolescência, passei a questionar a existência desse Deus que é onisciente e onipresente, mas que mesmo assim nos castiga. Se ele existisse, seria um sádico. Então a melhor opção era não acreditar nele. Deus morreu para mim e com ele o paraíso tombou. Me tornei uma pessoa adulta que acredita na existência de uma única vida para cada ser e que, por isso, zela por seu corpo e mente, para aproveitar o seu tempo na Terra. Já recebi, sim, o adjetivo de hedonista, que aprendi a apreciar. 

Quanto à mentira, nunca consegui aturá-la. Aos poucos, fui superando os meus receios e deixando a farsa de lado. Aprendi a falar as verdades com a delicadeza e a firmeza que a situação ou interlocutor requer. Hoje gosto de dizer a verdade, mesmo sem saber exatamente o que ela significa. Sinto que dizer abertamente o que penso aumenta meu comprometimento com o mundo. 

Talvez perdure nesta busca pela verdade uma influência cristã, advinda da confissão, mas agora sem o peso da culpa. No confessionário, buscava a expiação dos meus erros para poder ser aceita. Nunca foi um processo de cura através da palavra, mas sim um pedido de autorização divina para errar, sempre sob a ameaça. Hoje o excesso de sinceridade vem em busca de humildade, como quem reconhece suas limitações e quer melhorar, mas não pede perdão por isso.

Olho de novo para a garota no confessionário e ao menino da praia. Sinto saudade de sonhar com o céu, mas prefiro minha certeza de viver bem o presente. Entendo que os familiares e pessoas queridas daquele menino tenham lhe apresentado o paraíso, mas me incomoda saber que usaram a ameaça para torná-lo obediente ou mais sincero. Desejo que as crianças possam superar os seus medos e cuidar de seu corpo, de sua mente e deste planeta. E que a utopia coletiva seja de um ambiente acolhedor, em que a diversidade e a liberdade sejam fundamentos, sem o perigo de uma história única e restritiva.

Edição:

Essa crônica foi publicada numa parceria entre a Escola de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e a Agência Pública.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso