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A “paz através da força” e as eleições brasileiras

Pressão de Trump sobre a América Latina faz lembrar suporte dos EUA à ditadura militar e traz alerta para eleições

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9 de janeiro de 2026
17:00

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No dia 31 de março de 1964, véspera do golpe militar que atingiria o país, o contra-almirante John Chew, vice-diretor de operações navais dos Estados Unidos, ordenou ao comandante-em-chefe da Esquadra do Atlântico o deslocamento do porta-aviões Forrestal para a “área oceânica nas vizinhanças de Santos, Brasil”.

A força naval, encabeçada pelo Forrestal, era composta de seis destróieres, um porta-helicópteros e quatro petroleiros. Também faziam parte da missão quase 20 aviões, entre eles oito caças, e um posto de comando aerotransportado.

O objetivo era garantir suporte militar americano aos golpistas de 1964, descritos nos telegramas do embaixador Lincoln Gordon a seu governo como “as forças democráticas” do Brasil, presidido pelo “comunista” João Goulart. Os americanos estavam incomodados com a força dos sindicatos na democracia brasileira, bem como a retórica antiimperialista de alguns membros do governo Goulart, que também havia estatizado uma subsidiária da ATT, empresa de comunicação dos Estados Unidos.

Batizada como Brother Sam, a operação seria o desfecho de pelo menos três anos de conspiração ativa dos Estados Unidos com militares e empresários brasileiros para derrubar a democracia brasileira. Não precisou ser executada, já que por aqui os militares que resistiam ao golpe acabaram traindo Goulart, facilitando a queda do presidente escolhido nas urnas. Mas o fato é que os Estados Unidos estavam prontos para intervir militarmente no país para garantir a ditadura e os militares já tinham aberto mão de nossa soberania.

É com essa herança histórica que olhamos para a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente, sob falsos pretextos, como prova o recuo da Justiça dos Estados Unidos nas acusações feitas contra Nicolás Maduro. O fato de o presidente da Venezuela ter forjado os resultados das eleições ou ser um ditador não entra nessa conta, já que não foi esse o motivo de sua “captura” – assim como a democracia nunca impediu a interferência dos Estados Unidos contra outros governos, como prova o golpe de 1964 no Brasil, o de 1973 no Chile e tantos outros. Ou, em tempos de hoje, as ameaças de Trump à Colômbia e ao México, e as tentativas recentes de interferir na Justiça brasileira.

Nesse 8 de janeiro em que escrevo, três anos depois do atentado contra a democracia por Jair Bolsonaro, seus generais e comparsas, chego a duvidar que a habilidade e altivez do governo Lula serão capazes de manter a nossa democracia longe das garras dos falcões se não contar com forte apoio interno e alianças com outros países, apesar do enfraquecimento do multilateralismo pelos próprios Estados Unidos.

A interferência de Trump nas eleições na América Latina é um processo que já está em curso em outros países latino-americanos, como mostra reportagem da Pública, e que mostrou informalmente a sua cara nas eleições de 2018, com a aproximação dos políticos bolsonaristas de ideólogos e marqueteiros da direita trumpista daquele país.

Se Trump rifou Bolsonaro para negociar com Lula, de olho na inflação nos Estados Unidos, assim como rifou a oposição venezuelana para ficar logo com o petróleo, não quer dizer que nas eleições de 2026 os candidatos da direita brasileira que vestiram seus bonés Maga, e tentam anistiar os golpistas por aqui, não sejam vistos como uma boa oportunidade para os EUA mandarem no país, dando uma rasteira em nossa democracia.

Trump já decidiu que fará o que for necessário para realizar suas ambições políticas e econômicas no continente ao lado de seu secretário de Estado e conselheiro em assuntos de Defesa, Marco Rubio, este, embora jovem, um anticomunista à moda antiga, movido a ressentimento alimentado desde a infância na comunidade cubana de Miami.

Para essa dobradinha o “hemisfério” é deles. A nós, latino americanos, destina-se o recado de “promover a paz através da força”, proclamado por Rubio nas redes sociais assim que foi nomeado para o cargo.

Se não estivermos unidos, dispostos a apoiar a soberania brasileira, a democracia e defender a legitimidade das eleições – assim como a lisura da campanha eleitoral – a vida deles vai ficar ainda mais fácil. Já imaginaram o próximo 8 de janeiro ser comemorado como manifestação democrática como fez Trump com o 6 de janeiro de lá?

Como disse na minha despedida de 2025, esse será um ano de luta. Contem com a gente.

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