Buscar
Reportagem

Bet, a feia: Esportes da Sorte pede que artista de Olinda pare com uso de marca em sátira

Catarina Dee Jah recebeu notificação extrajudicial por trabalho que satiriza a empresa

Reportagem
9 de fevereiro de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ativação da Esportes da Sorte em Olinda
Raíssa Ebrahim

Quem mora em Olinda, Pernambuco, ou já visitou a cidade, provavelmente reconhece o trabalho da artista e ativista Catarina DeeJah. Ela é reconhecida por sua criação musical e de artes visuais, como as famosas bandeirolas coloridas, feitas em tipografia própria, que estão espalhadas por todos os cantos como uma lembrança da folia, da irreverência e da cultura vibrante da cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco.

DeeJah se define como uma “artista prática”. No ateliê-galeria, que fica no sítio histórico, e também é sua casa e da sua família há mais de 40 anos, ela cria usando muitas vezes a ironia e o deboche como recursos para “provocar o pensamento”. E foi por essa característica provocativa do seu trabalho que a artista independente se surpreendeu quando recebeu uma notificação extrajudicial da bet Esportes da Sorte, uma das principais empresas de apostas eletrônicas do país.

Em janeiro deste ano, DeeJah lançou, no Instagram, as artes do projeto “Bet, a feia”, com uma identidade visual e tipografia que remetia diretamente a Esportes da Sorte e também à telenovela colombiana “Betty, a feia”. A ideia surgiu da indignação da artista pela quantidade de lixo deixada pela empresa nas ladeiras no ano passado, quando a bet foi uma das principais patrocinadoras da folia olindense. Na época, a Agência Pública mostrou como a empresa de apostas estava em todas as artes de divulgação do carnaval da cidade. “Despejaram nas ruas toneladas de brindes de poliéster, que não são biodegradáveis”, lembra.

No dia 23 de janeiro, a artista recebeu uma notificação extrajudicial assinada pela Esportes Gaming Brasil LTDA., responsável pela Esportes da Sorte, Onabet e Lottu. O documento, enviado por e-mail, exige a retirada imediata das redes sociais, e de circulação física, produtos e conteúdos que façam uso ou referência à marca, sob ameaça de adoção de medidas judiciais.

No Instagram, DeeJah contou que ficou um pouco surpresa porque achou “que essa coisa da ‘Bet, a feia’ tem tudo a ver com o espírito de carnaval, de brincadeira, de paródia, de sátira.”

À Pública, a artista disse que esta foi, na verdade, a segunda vez que ela foi abordada pela Esportes da Sorte por seus conteúdos críticos. Depois do carnaval do ano passado, ela postou imagens do entulho deixado pela bet nas ruas. A postagem repercutiu muito. “Pessoas de outros lugares comentaram que tinha acontecido o mesmo nas cidades delas”, disse. “Então, o responsável pela operação em Olinda me mandou uma mensagem dizendo que eu estava agindo de má fé e pedindo para tirar a postagem. Ele, inclusive, me perguntou quanto eu queria para fazer a identidade visual do ano que vem, queria me comprar. E aí ele botou quase que uma milícia digital para desdizer a minha postagem e, em seguida, sumiu”, disse.

A Pública questionou a empresa, que preferiu não se manifestar.

Após a publicação da reportagem, a assessoria da empresa respondeu que “a notificação extrajudicial enviada à artista teve caráter exclusivamente legal e preventivo, relacionada ao uso não autorizado de marca e identidade visual registradas em produtos comercializados por terceiros” e que “a comunicação não estabelece qualquer referência ao conteúdo da manifestação artística”. Leia a resposta completa aqui.

DeeJah considera que a reação da Esportes da Sorte contra ela foi “uma coisa desmedida”. “Eu tenho um humor sarcástico, iconoclástico, quis criar uma personagem para gerar uma empatia, trabalhar uma subliminaridade, criar uma conexão das pessoas”, diz.

Na opinião do advogado e especialista em propriedade intelectual, Flávio Pougy, o caso da artista não se trataria de uma infração do direito de uso de marca por se tratar de um “trabalho de paródia” e pode inclusive ser enquadrado como “censura”. “Nesse caso, o entendimento é que não infringe o direito da marca. É uma obra crítica”, considera. “Além do mais, ela [a artista] está respaldada por um fato verdadeiro, uma coisa que aconteceu, que é sujeira em espaço público, ou seja, o trabalho tem um caráter de uma denúncia também. É uma paródia crítica legítima sobre um fato de interesse público.”

A Esportes da Sorte patrocina grandes festas pelo Brasil, como os carnavais de Olinda, Recife e Salvador. Este ano, a Esportes da Sorte segue como uma das patrocinadoras master da folia olindense. A empresa também é alvo de investigações por prática de jogos ilegais e lavagem de dinheiro.

Bet, a feia

Depois de receber a notificação, DeeJah decidiu fazer adaptações no projeto “Bet, a feia”, passando a utilizar uma tipografia própria na arte, que não remete à identidade visual da Esportes da Sorte. A campanha dela inclui um manifesto chamado “Desbanque a banca”, onde a artista afirma: “a verdade é feia (…) Dignidade Não se Joga”, e prevê ações de rua, como confecção de stencils, lambes e leques, todos em material sustentável, para serem distribuídos pela cidade, assim como parcerias com entidades de saúde pública e organizações que trabalham com redução de danos.

“As bets são hoje uma questão de saúde pública, os auxílios-doença por vício em jogos aumentaram 2.300% no Brasil [entre 2023 e 2025, segundo dados do INSS]. As famílias estão sendo impactadas, eu tenho familiares que estão passando”, diz a artista.

Mas DeeJah acha que colocar a campanha nas ruas, depois da notificação extrajudicial, é como enfrentar um gigante sozinha. “É uma ação minha, não estou ligada a nenhum partido. Tinha pensado em fazer produtos, distribuir no carnaval, mas é um investimento grande, de força e energia. Estou cansada e, por enquanto, não estou prevendo nada, apenas vendendo a camisa.”

Patrimônio ameaçado

Como moradora do sítio histórico de Olinda, a artista se diz preocupada com a preservação da cidade. No ano passado, durante as intervenções no carnaval, a Esportes da Sorte ocupou a Henrique Dias, a escola de frevo mais antiga de Olinda. “A cidade está sendo atravessada por uma exploração, um turismo predatório, pela especulação imobiliária, nunca foi tão difícil ser morador,” lamenta.

Ela diz que a atual prefeita da cidade, Mirella Almeida (PSD) “não entende da preservação da história da cultura”. Almeida, que tem um perfil conservador e é ligada a igrejas evangélicas, se elegeu com apoio da governadora Raquel Lyra (PSDB) e do ex-prefeito, professor Lupércio.

“Eles [a prefeitura] veem isso [o carnaval] como uma forma de ganhar dinheiro. Eu lembro dos carnavais onde as próprias famílias faziam a decoração das ruas. Isso está se perdendo.” Este ano, além de ser um dos principais patrocinadores do carnaval da cidade, a Esportes da Sorte patrocina também o desfile do clube de alegoria e crítica do Homem da Meia-Noite, uma das agremiações mais tradicionais de Olinda, reconhecida por trazer conteúdos políticos para seu desfile e que completa 95 anos de existência em 2026. Outras agremiações e bonecos gigantes desfilaram exibindo patrocínios de casas de apostas.

Em Olinda, uma lei municipal estabelece ordenamentos da folia, incluindo a proibição de instalação de som nas ruas do sítio histórico, para privilegiar os desfiles das orquestras de frevo, que devem ser priorizadas.

Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que trabalha com preservação da memória, Rodrigo Cantarelli diz que a participação de grandes marcas no carnaval olindense não é novidade. “O que as bets estão fazendo é o que as cervejarias já fizeram por muitos anos. Elas [as bets] entraram em um jogo que já vinha sendo feito e dominaram o cenário”, avalia. “Talvez o incômodo maior seja porque propagandas de bets nem deveriam ser permitidas”, considera. No sentido mais da festa e do patrimônio edificado, é lamentável que essas empresas estejam tomando conta de tudo, da mesma forma que os day use”.

No último dia 4 de fevereiro, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um projeto de lei que impede as bets de fazerem publicidade. O PL também impede apostas que se relacionam com resultados eleitorais. A proposta segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça.

Edição:

*Atualização às 11:40 de 09/02/2026: Inserimos o retorno da Esportes da Sorte.

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
Reprodução Instagram
Divulgação Prefeitura de Olinda

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal