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Ditadura Argentina: pertences de Tenório Jr. são devolvidos à família 50 anos após crime

Vítima da ditadura argentina, pianista brasileiro teve identidade confirmada e pertences devolvidos a filhos e netos

Reportagem
25 de março de 2026
20:00
Arquivo pessoal/cortesia

Duas correntes de pescoço que pertenciam ao pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, sequestrado e assassinado aos 35 anos em Buenos Aires, no dia 18 de março de 1976, num crime atribuído ao terrorismo de Estado da ditadura argentina, foram entregues nesta quarta-feira, 25 de março, a filhos e netos do músico, no Rio de Janeiro, por autoridades brasileiras e do país vizinho como forma de homenagem.

Tenório foi um dos maiores pianistas brasileiros, formado nas casas noturnas do Beco das Garrafas. Em 1964, ele registrou seu único disco solo, “Embalo”, e, ao longo da carreira, gravou e se apresentou com Milton Nascimento, Lô Borges, Gal Costa, Beto Guedes, Edu Lobo, entre outros.

“Há exatos 50 anos nosso avô saiu do Brasil e hoje esses dois colares que estavam com ele retornam para nossa família”, disse Sofia Cerqueira Borges, 25, neta do músico, em discurso emocionado durante a cerimônia, realizada pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), na sede da Procuradoria Regional da República da 2ª Região (RJ).

Em setembro de 2025, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) anunciou que as impressões digitais recolhidas de um cadáver encontrado em um terreno baldio na cidade de Tigre, ao norte de Buenos Aires, com cinco perfurações de bala, em 20 de março de 1976, eram equivalentes às dos documentos brasileiros de Tenório Jr.

Segundo Sofia, a vida da família mudou ao descobrir o que realmente aconteceu com o pianista. A certidão de óbito retificada de Tenório Jr. foi entregue em dezembro e, hoje, a família recuperou seus pertences.

  • Em foto, netos e filhos do pianista Tenório Jr. falam após receber seus pertences.
  • Em foto, netos e filhos do pianista Tenório Jr. falam após receber seus pertences.
  • Em foto, netos e filhos do pianista Tenório Jr. falam após receber seus pertences.

Identificação e restos mortais: “O corpo mesmo dificilmente será encontrado”

A identificação de Tenório Jr. foi possível, pois, em 1976, a polícia argentina abriu um inquérito de encontro de cadáver, como de praxe. Foram feitas fotos do corpo, foram tiradas impressões digitais e foram guardados os objetos de valor, no caso, as correntes que o músico usava. Na ocasião, ninguém reclamou o corpo e o pianista foi enterrado no cemitério de Benavidez como desconhecido.

Com o fim da ditadura argentina, todos os documentos policiais de casos de desaparecimento foram entregues à Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas) em 1984, mas os familiares de desaparecidos argentinos não sabiam de quem seria aquele corpo, e o inquérito e os objetos foram arquivados.

A investigação só foi possível agora, pois o EAAF, desde 2013, trabalha com um software que cruza impressões digitais de casos como o de Tenório com os documentos de desaparecidos argentinos, mas a busca não resultou em nada, pois os documentos de Tenório eram brasileiros. No ano passado, o EAAF requereu, por meio de cooperação policial, os documentos de Tenório Jr. para cruzá-los com as impressões digitais do corpo encontrado em Tigre, e deu certo.

A descoberta, contudo, apenas esclareceu parte das dúvidas da família do pianista, que havia ido para a Argentina naquele mês de março para uma temporada de shows com Vinícius de Moraes e Toquinho, e saiu do hotel em que estava hospedado na madrugada de 18 de março para comprar um sanduíche ou remédios para dor de cabeça (a historiografia registra diferentes versões).

Faltam ainda os restos mortais. Conforme anunciou o EAAF, na quadra do cemitério onde havia sido enterrado o pianista, hoje há o corpo de outra pessoa. A hipótese mais provável é que os restos mortais de Tenório Jr foram exumados e levados a um ossuário, não descoberto até o momento.

“O corpo mesmo dificilmente será encontrado. Ainda assim, para a família, é um momento muito importante”, afirmou à Agência Pública a presidente da CEMDP, a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga.

“A parte mais bela desse trabalho é ver uma família ter uma certeza que lhe foi negada por muito tempo”, afirmou o antropólogo forense Carlos Semigliana, da equipe do EAAF.

Quem matou Tenório Jr.?

Sobre a autoria do crime, circularam, ao longo dos anos, diversas versões. A principal, publicada por uma revista brasileira nos anos 80, era a contada pelo ex-militar argentino Claudio Vallejos, que afirmou que militares do serviço secreto da Marinha argentina sequestraram Tenório Jr. e o levaram até a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), onde ele teria sido torturado por militares brasileiros e argentinos. Na ocasião, foi publicado, inclusive, um fac-símile de uma suposta nota que teria sido enviada por autoridades argentinas ao Brasil, dando conta do assassinato de Tenório.

Segundo reportagem do jornal Página 12, acredita-se hoje em dia que esse documento possa ser falso, uma vez que o militar que o assina nunca foi lotado nas unidades envolvidas na morte de Tenório, conforme relato de Vallejos. O ex-militar, morto recentemente, foi preso várias vezes no Brasil, duas delas por estelionato. Além disso, era uma fonte pouco confiável, pois cobrava por entrevistas e para conversar com familiares de desaparecidos argentinos nos anos 1980 e 1990.

O que é quase certo é que, com a identificação de que o corpo encontrado em Tigre e sepultado em Benavidez é o de Tenório Jr., uma investigação deverá ser aberta pelo juiz Sebastián Casanello, responsável pelos casos ligados à Operação Condor, consórcio entre as ditaduras sul-americanas e o serviço secreto norte-americano para a eliminação de opositores aos regimes e a troca permanente de informações.

O corpo de Tenório não foi autopsiado na ocasião do encontro do cadáver. O médico legista atestou que o procedimento não seria necessário, uma vez que seria óbvio que ele morrera por causa dos tiros. Apesar de o crime ter ocorrido 6 dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976, não se pode descartar a participação e o envolvimento de militares no sequestro, na morte e no desaparecimento do pianista, pois as forças armadas argentinas já realizavam diversas operações de “antiterrorismo” antes mesmo do golpe e mantinham locais para torturar e eliminar “inimigos do Estado”.

Edição:
Alexandre de Freitas / Ministério Público Federal
Alexandre de Freitas / Ministério Público Federal
Alexandre de Freitas / Ministério Público Federal
Arquivo pessoal/cortesia

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