Buscar
Coluna

Três filmes do Oscar revelam o espírito de uma época

O Agente Secreto, Uma Batalha Após a Outra e Foi Apenas Um Acidente abordam o idealismo derrotado

Coluna
16 de março de 2026
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Foi a noite dos derrotados. E não estou falando do fato de que O Agente Secreto não levou nenhuma estatueta no Oscar, mas na coincidência incrível de que três filmes celebrados como finalistas giram em torno do mesmo tema central: o que acontece depois que um grupo de lutadores idealistas é derrotado politicamente. 

Em todos os casos, trata-se de grupos políticos progressistas, ou pelo menos, que podem ser vistos como lutadores da liberdade. Em todos os três, são pessoas comuns, desajeitadas, anti-heróis sem nenhuma característica que as poderia separar de nós, pobres coitados que assistimos deste lado da telona. São, neste sentido, o oposto da onda de super-heróis se desdobrando a velocidades estonteantes que Hollywood tem nos entuchado goela abaixo. E quando há filmes relevantes aparecendo em países tão diferentes como os EUA, Irã e o Brasil, isso significa que o inconsciente coletivo está se materializando em cultura. E vale tentar nos aproximarmos dele. 

Não vou fazer um alerta de spoiler porque confio que o leitor tem a maturidade para saber que eu vou falar dos três filmes e entender que isso não se compara à experiência de assisti-los no cinema. Então, bem, vou falar dos três filmes. 

Em O Agente Secreto, vemos o desenrolar da derrota desde seus primórdios. Marcelo, personagem de Wagner Moura, é um professor universitário que, quase sem querer, se torna desafeto de um figurão civil da ditadura, quando ele faz comentários pouco apropriados para sua mulher. Não existe aqui uma postura de herói, uma tentativa de mudar o mundo. Marcelo é um homem amargurado pela morte da esposa (cujo motivo não conhecemos) e que apenas quer criar o filho e sobreviver. Todos aqueles que ele conhece na pensão da Dona Sebastiana, personagem da aplaudida Tânia Maria, têm o mesmo destino: engajados na luta contra o regime militar de uma maneira ou outra, tornaram-se almas penadas fugindo de uma ditadura que não os permite ser quem são. 

Há uma tensão implícita, muito bem articulada pelo diretor Kleber Mendonça, que materializa o que o psicanalista Rafael Alves Lima descreveu à BBC como “difusão psicológica do terror” pela ditadura: “Havia um método, certamente, mas tratava-se de um método que tinha justamente a difusão psicológica do terror como um princípio fundamental. Era um modo inclusive de misturar as fronteiras entre o público e o privado, como que mantendo a densidade do ar sempre pesada, com essa sensação contínua de vigilância e perseguição”. 

A morte de Marcelo se dá, também, em um anticlímax completo – nem aparece na tela, apenas é mencionada em uma notícia de jornal anos depois. Ele nem viveu nem morreu como herói, mas sua história merece ser recontada, e é na busca das duas jovens pesquisadoras para recontar essa história – e na entrega do material ao filho de Marcelo – que, talvez, se faça alguma Justiça.

Já Uma Batalha Após a Outra, vencedor do Oscar de melhor filme, traz uma versão moderna de um grupo revolucionário que remonta ao Black Panthers, mas estes abraçam também a defesa dos imigrantes ilegais como uma das principais causas. O protagonista, Bob Ferguson, interpretado por Leonardo DiCaprio, é também a encarnação do anti-herói, um jovem que entra numa luta por amor a uma mulher e depois perde o controle da própria vida, vira um pai fracassado e viajandão que mal consegue sobreviver sozinho. Um homem sem nenhuma virilidade, como lembrava uma amiga, cujo peso da derrota da luta pela qual arriscou a vida pesa visivelmente nos ombros. 

Afinal, Foi Apenas Um Acidente talvez seja o filme que leva a investigação do pós-fracasso a uma conclusão mais completa. Nele, o protagonista, igualmente um homem pouco viril e absolutamente atrapalhado, passa um dia a esmo tentando reencontrar antigos colegas de luta sindical contra o regime opressor dos Aiatolás para descobrir se o homem que pensou ter reconhecido – e que aprisionou no porta-malas da sua Van – é aquele que os torturou. E depois, o que fazer com ele? O filme mostra como pessoas que tentaram lutar por uma causa justa – neste caso, reivindicações trabalhistas – e foram torturadas por isso, tentam reerguer sua vida dentro de uma ditadura. Traumatizadas, derrotadas, feias, histéricas, elas vão se enfiando cada vez mais numa comédia de erros que as expõe, também, como irremediavelmente humanas. 

Não acredito que é à toa que estes três filmes tentam humanizar tanto a luta política por Justiça, quanto o seu fracasso. Os profissionais de cinema, do roteirista ao diretor, dos atores ao produtor que levanta dinheiro e à distribuidora que trabalha para que o filme chegue às telas, estão todos inseridos em um contexto apavorante de crescimento vertiginoso da extrema direita no mundo e com a sufocante sensação que é ela, a extrema direita –  aquela que quer roubar direitos das pessoas, concentrar riquezas e poder e oprimir o diferente – quem se apresenta como vanguarda política e move corações e mentes. (Vale lembrar que o filme iraniano é uma coprodução com a França, e, portanto, nosso desespero ocidental se junta ao desânimo prolongado dos iranianos contra seu regime.) 

As últimas décadas representaram o fracasso global da luta civilizatória em seguir caminhando rumo a um mundo mais justo, e um retrocesso nas ideologias políticas de direita que, antes, retroagiram até um renovado sentimento de Guerra Fria e agora vão até a era dos Tratados de Tordesilhas e das Companhias das Índias Ocidentais. E se mantêm absolutamente populares, por mais brutas que sejam. 

Nesse sentido, discutir o que vem depois da derrota, e como pessoas como você e eu lidam com isso, é justamente o cinema fazendo o que a arte deve fazer, ajudando-nos a elaborar sentimentos e organizar sensações que podem ser desesperadoras, mas ensinam. 

Não existe final feliz hollywoodiano possível neste cenário de terra arrasada concretizado pela extrema direita, cujo maior expoente é, claro, Donald Trump e seu caos calculado e cobiçoso – e ambos os três filmes são francos quanto a isso. Mas a vida segue, o carro enguiça, a filha chora, o casamento é marcado e pessoas pedem e recebem ajuda, e mesmo assim se juntam para falar de utopias e desejos de uma vida melhor. 

Assim, há uma mensagem poderosa em todos esses três filmes, algo que eu sempre sou lembrada quando faço uma reportagem – e talvez por isso o jornalismo seja a “melhor profissão do mundo”, como dizia Gabriel García Márquez. A História é feita por pessoas comuns, que não se arvoram de heroísmos plásticos nem esteticamente gloriosos; o senso de Justiça, a capacidade de manter-se abraçado ao esteio moral que busca uma vida melhor para todos, a erradicação da desigualdade e a realização da Justiça faz, também, parte da experiência humana na terra. São incontáveis as pessoas inspiradoras na vida comum, grandes lutadoras da verdade, aquelas que inspiram e que guiam os mais jovens e trabalham para proteger os menos afortunados. Elas costuram o que chamamos de tecido social. Mesmo em tempos de derrota e de desânimo sobre o futuro, elas não desaparecerão, e é talvez essa a única certeza que podemos ter que os tempos sombrios, também, são passageiros.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Páginas de fofoca no Instagram enaltecem Derrite e Tebet às vésperas da votação

|

Perfis fazem publicações idênticas e quase simultâneas; deputado e ministra são candidatos ao Senado por São Paulo

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão