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Se tem um princípio que une os jornalistas é o direito à liberdade de imprensa – inclusive dentro das empresas em que trabalham, o que pode ser mais difícil do que parece. Como dizia o mestre Cláudio Abramo, “o jornal não é seu, é do dono, e está subentendido que se vai trabalhar de acordo com as ideias do dono do jornal. Para trabalhar em um jornal é preciso fazer um armistício consigo próprio”, alertava o trotskista declarado que ocupou cargos importantes em grandes empresas e mudou o jeito de fazer jornalismo com a reforma que promoveu no Estadão nos anos 1970.
Isso não significa abrir mão de sua consciência e ética, que, para Abramo, deve ser a mesma do cidadão – “o que é ruim para o cidadão, é ruim para o jornalista”, diz em texto publicado em “A Regra do Jogo”. Mesmo que, para isso, tenham que enfrentar as empresas em que trabalham, “que tem ética, mas é a dos donos”. Se o jornalismo continua a prestar um serviço público cada vez mais relevante isso se deve sobretudo aos jornalistas que não abrem mão de sua independência.
Às vezes é preciso lutar dentro da própria empresa para que uma matéria seja publicada com o respeito que o público merece, o que deve ser “uma exigência dos jornalistas”, como ensinou Abramo. Não estou falando de teorias da conspiração (embora elas existam, leiam o Diário do Planalto de Mário Sérgio Conti), mas, em redações fortemente hierarquizadas, há recursos de sobra para promover, derrubar, enterrar e distorcer pautas e reportagens com argumentos “técnicos” e decisões em que o repórter, muitas vezes, é o último a saber.
Os jornalistas sempre resistiram a essas interferências, com mais ou menos sucesso, mas ouso dizer que ainda hoje a grande aspiração dos profissionais é não ter que fazer concessões. Houve momentos em que isso parecia quase impossível, o próprio Cláudio Abramo foi afastado da diretoria de redação da Folha em 1977 por imposição do ministro do Exército. Chegou a voltar dois anos depois, mas se demitiu durante a greve dos jornalistas e fundou com Mino Carta, outro mestre, o Jornal da República, que durou apenas cinco gloriosos meses como era de praxe nos veículos “alternativos” de então.
Antes da Internet, era quase impossível bancar um jornal de jornalistas, o que por muito tempo restringiu a longevidade e o alcance da imprensa independente. A mudança radical veio principalmente depois que os jovens jornalistas e ativistas do Wikileaks provaram a potência do jornalismo “cidadão” nesse novo contexto, desnudando os segredos da diplomacia dos Estados Unidos em manchetes de jornais no mundo todo.
A Agência Pública nasceu nesse novo ambiente de comunicação pública que rachou o monopólio das empresas nas mãos de famílias ricas, e favoreceu o florescimento de uma mídia criada por jornalistas – no nosso caso, jornalistas mulheres e repórteres, que naquela época não apitavam muito na hierarquia dos jornais.
Mas foi gente como a gente que criou projetos e veículos capazes de realizar, na prática, uma versão contemporânea do sonho de pioneiros como Abramo, Carta e Sérgio de Souza – com quem boa parte da direção da Pública aprendeu jornalismo, na revista Caros Amigos, antes de agarrar a oportunidade que a Internet e novos modelos de financiamento ofereciam para empreender com independência e impacto mais duradouro e influente.
A Pública nasceu em 2011, em um momento em que o Brasil era presidido por uma mulher que desafiou a ditadura e nem sequer suspeitávamos que nossa democracia seria ameaçada menos de dez anos depois. Naquele momento, tudo que que queríamos era mais democracia, como mostrariam os protestos de junho de 2013 e o fortalecimento dos movimentos sociais, sobretudo das mulheres, indígenas, negros.
As redes sociais pareciam ser instrumento dessas mudanças, com a capacidade de informar e mobilizar pessoas onde quer que estivessem. Mas o impeachment de Dilma Rousseff, e a onda de misoginia que o cercou, a nova ascensão dos militares e da extrema direita a partir do governo Temer, os ataques à democracia, ao jornalismo e o gabinete do ódio do governo Bolsonaro, as fake news e as realidades paralelas que cindiram a opinião pública revelaram o outro lado da revolução tecnológica da comunicação.
A boa notícia é que nesses 15 anos a mídia digital independente se expandiu, conquistou audiências que se viam excluídas e/ou desrespeitadas pelo jornalismo tradicional, desnudou o racismo, o machismo, o classismo, a hipocrisia por trás da neutralidade jornalística. Também pressionou os jornalões a valorizar a independência e a capacidade de seus próprios profissionais e a respeitarem os veículos digitais, tornando-se mais permeáveis à influência em suas pautas, e mesmo republicando conteúdo de agências como a Pública.
Se nossa luta para fazer jornalismo de qualidade de interesse público incluía enfrentar a concentração de propriedade, hoje temos nas big techs um inimigo comum mais poderoso – como percebeu rapidamente a mídia digital. Não por acaso demos o furo da “Festa da Selma”, o codinome usado para mobilizar golpistas do 8 de janeiro, antecipamos os movimentos de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e fizemos a maior investigação transnacional sobre as Big Techs no ano passado.
Neste ano em que as eleições prometem sangue, suor e mentiras, nós, jornalistas, estamos unidos em defesa dessa “profissão bonita, de serviço público”, como definiu minha parceira na fundação da Pública, Natalia Viana, em nosso vídeo institucional, lançado neste aniversário de 15 anos. E precisamos de vocês, leitores, na defesa do jornalismo ético e independente, que se nunca esteve tão ameaçado, nunca foi tão necessário. Nossa força vem da fé na informação de qualidade e no poder de transformação da sociedade, que compartilhamos com nossos Aliados, para manter a esperança de futuro.
Longa vida ao jornalismo, longa vida à Agência Pública, e nosso muito obrigada a todos os profissionais valorosos que nos permitem afirmar: vale a pena acreditar em jornalista.
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