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Emenda Master: entenda como atuação de Ciro Nogueira implodiria Fundo Garantidor

Senador suspeito de propor emenda a pedido de Daniel Vorcaro, do Master, diz que irá reapresentar proposta ao Congresso

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12 de maio de 2026
08:00
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Saulo Cruz/Agência Senado

Na última semana, a Polícia Federal (PF) deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, trazendo à tona uma relação que, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF), extrapolou os limites da mera amizade. O senador Ciro Nogueira, figura central dos Progressistas (PP) e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, tornou-se o principal alvo de uma investigação que expõe a intersecção entre o poder político e o sistema financeiro. A descoberta mais alarmante da operação não foi apenas o suposto esquema de propinas, mas também a revelação de que o parlamentar teria protocolado uma emenda redigida integralmente pela assessoria do Banco Master, com potencial de causar uma “hecatombe” econômica no país.

O esquema investigado, autorizado pelo ministro André Mendonça, revela quatro frentes de supostos benefícios concedidos a Ciro Nogueira por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. As vantagens incluíam a aquisição subfaturada de participação societária em empresas ligadas à família do senador, o pagamento de uma mesada que teria chegado a R$ 500 mil mensais, o uso de um imóvel de alto padrão e o financiamento de um estilo de vida luxuoso, com viagens em voos privados e hospedagens internacionais. Em troca, segundo se investiga, o senador atuaria como um braço legislativo da instituição financeira no Congresso Nacional.

A atuação parlamentar culminou na apresentação, em agosto de 2024, de uma proposta conhecida no mercado como a “emenda Master”. O texto visava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal descobriu que a minuta não foi elaborada no gabinete de Nogueira, mas redigida pela assessoria do Banco Master e entregue, em mãos, na residência do senador. O próprio Vorcaro celebrou a medida em mensagens interceptadas, classificando-a como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios da instituição.

Como forma de se defender da acusação da PF, Nogueira fez uma postagem em suas redes sociais nesta terça-feira, 12 de maio, afirmando que está sendo “alvo de ataques em ano eleitoral”. No vídeo, ele cita a Emenda Master e alega que o valor de cobertura do FGC não é corrigido há 13 anos e, portanto, iria “reapresentar a emenda”.

“Tomei a decisão de reapresentar agora a emenda corrigindo o valor do FGC, que pela Selic teria que estar acima de R$ 840 mil. Agora não existe mais Banco Master. Eu quero ver qual a desculpa que os grandes bancos vão utilizar para negar esta proteção aos correntistas brasileiros”, disse o senador.

O “vetor de destruição”

Para compreender a gravidade da situação, é necessário analisar a arquitetura financeira do Banco Master e o conceito econômico de moral hazard (risco moral) – em que instituições assumem riscos maiores quando protegidas das consequências negativas, já que terceiros arcam com os custos.

Para Robert Lamas Correa, professor e mestre em economia, a proposta era um caminho sem volta. “A aprovação da emenda transformaria o risco moral em um vetor de destruição de valor. Ao quadruplicar o limite, o Estado, via FGC, estaria subvencionando apostas de alta renda. O resultado seria um rombo cerca de 30% maior — R$15 bilhões adicionais — do que o já vultuoso prejuízo de R$ 51,8 bilhões”, explica.

O banco Master baseava seu modelo de negócios na captação agressiva de recursos amparados pela garantia do FGC, aplicando-os a ativos de risco elevado. A aprovação da emenda de Ciro Nogueira teria ampliado substancialmente a capacidade da instituição de captar depósitos, oferecendo uma sobrevida a um modelo considerado insustentável por especialistas. “O aumento do teto para R$ 1 milhão eliminaria o freio de contenção representado por investidores institucionais, permitindo que bancos de captação agressiva operassem com risco moral elevado: transferindo os lucros para si e socializando as perdas via FGC”, pontua Lamas.

Por que isso importa?

  • Ciro Nogueira comprou um triplex de R$ 22 milhões em São Paulo, 26 dias antes de apresentar a “emenda Master” no Congresso, afirma o site Metrópoles
  • A quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga Ciro Nogueira, via aprofundar investigações sobre um esquema de corrupção, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

O precipício dos 1,28%

O impacto econômico de uma eventual aprovação da proposta poderia ser devastador. A Fazenda chegou a alertar que a medida poderia levar o fundo, que funciona como a principal rede de proteção privada do sistema financeiro, à falência.

O colapso do Banco Master em fevereiro de 2026 ilustra de forma dramática os perigos dessa dinâmica. A liquidação da instituição, juntamente com o Will Bank e o Banco Pleno, gerou um impacto estimado de R$ 51,8 bilhões para o FGC, drenando quase um terço de seus recursos, que somavam cerca de R$ 140 bilhões. Naquele momento, o paraquedas do sistema financeiro brasileiro quase não abriu.

“O FGC operou no limite da sua liquidez, caindo para 1,28% do mínimo recomendado. Teríamos assistido ao primeiro calote do Fundo Garantidor de Créditos da história do Brasil. Depositantes com valores entre R$ 250 mil e R$ 1 milhão sofreriam perdas parciais imediatas e permanentes, e o sistema de garantia, como conhecido, entraria em colapso — levando junto a confiança em todos os bancos médios e pequenos do país. Não é explodir o saltador, mas o paraquedas”, alerta o professor.

Influência política na economia

A magnitude do rombo causado pelo grupo financeiro levou o Conselho Monetário Nacional (CMN) a endurecer as regras do FGC em abril de 2026, com novas medidas previstas para entrar em vigor em junho. Robert Lamas ressalta que o episódio deixa uma lição amarga sobre a influência política na economia. “O risco da captura regulatória via Congresso é elevado e persistente. A ‘Emenda Master’ não foi um acidente, foi o desfecho natural de um sistema que permitiu que emendas se tornassem instrumento de barganha política com baixa rastreabilidade e zero exigência técnica”.

Para o especialista, o caso revela que, quando o Legislativo tenta atropelar a competência técnica do Banco Central para favorecer um player específico, “está negociando a estabilidade do país em troca de vantagens privadas”.

A defesa de Ciro Nogueira, que foi conduzida inicialmente pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, negou as acusações. O senador também se posicionou em nota oficial em suas redes. Em março de 2026, Ciro Nogueira havia prometido renunciar ao mandato caso surgisse alguma denúncia comprovada. Por decisão da justiça, ele está proibido de manter contato com os demais investigados.

Edição:

Matéria atualizada em 12/05/2026 às 14:00 com informações sobre publicação nas redes sociais do senador Ciro Nogueira.

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