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Qual é o papel do YouTube nos anúncios de bets da CazéTV?

Acordo sem transparência do YouTube com parceiros beneficia a Big Tech na divulgação de apostas

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13 de julho de 2026
17:00
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Na discussão sobre os anúncios de bets na CazéTV está faltando um elemento crucial: o YouTube, canal que oferece a audiência, os algoritmos, as recomendações, os servidores, a publicidade programática – enfim, toda a infraestrutura. 

A empresa fez uma propalada “parceria” com a CazéTV para arregimentar o patrocínio de onze empresas para anunciarem durante as transmissões – incluindo Bet365, BetNacional e KTO. Pagaram R$185 milhões cada. Segundo o acordo de revenue share que o YouTube tem com parceiros, o canal fica com 55% da receita, e o YouTube abocanha o resto. Não se sabe se funcionou assim a parceria, porque a falta de transparência é o modus operandi das Big Techs.   

Assim, é difícil entender no que consiste a tal “parceria” e se o negócio teria sido intermediado pelo YouTube – se a plataforma teria recebido algo deste valor, ou, ainda, se teria prometido, por exemplo, um alcance específico aos anúncios.   

Mas a importância estratégica da parceria ficou bem clara numa entrevista de Victor Machado, head de esporte, TV e filmes do YouTube, à revista Exame. “Agora, o torcedor já criou o hábito. Os bares e as famílias vão ligar a tevê e deixar no YouTube e na CazéTV”. Ele ainda disse que o esporte “é uma alavanca de receita global” da empresa e que cada patrocinador receberia não apenas visibilidade, mas “uma variedade de recursos e ferramentas” para “dominar a conversa”. 

Não foi só ele. Em outra entrevista para a mesma revista, Tony Archibong, Diretor Global de Parcerias de Produtos do YouTube, garantiu que espera que o modelo de parceria seja replicado em outros lugares do mundo

“O exemplo da CazéTV no Brasil é muito único quando debatemos esse novo formato. Esse ano, eles transmitirão todos os jogos, isso era impensável alguns anos atrás, mas também é muito democrático, não acha?”

Na entrevista, ele deu a entender que o papel do YouTube na negociação com a FIFA é maior do que a linguagem de marketing permite vislumbrar.  

“A instituição [FIFA] negocia os direitos de transmissão individualmente em cada país”, explicou. “No Brasil, temos o direito de considerar o streaming”. 

“Globalmente, escolhemos ser o lugar onde o fenômeno cultural do futebol acontece. Os jogos em si serão transmitidos pelos parceiros de direitos em cada país, mas o ecossistema do ‘antes e depois’ da partida — como entrevistas exclusivas, bastidores, destaques e o debate cultural — acontecerá majoritariamente no YouTube”. Vale ressaltar a expressão: “parceiros de direitos” e não “detentores de direitos”. 

Ele ainda tirou uma com a concorrência: “A palavra TV está desaparecendo”, vaticinou. 

Como sabemos, a CazéTV ultrapassou todos os limites éticos nas propagandas de bets, e acabou investigada pelo MPF e pela Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça, a Senacon. 

O modelo de sugerir odds, ou apostas, era parte integral da estratégia de marcas da CazéTV. Felipe Tebet, head de conteúdo da CazéTV, explicou como funcionava a parceria com anunciantes. “Eles estarão em todos os jogos, com entregas exclusivas, pensadas para cada mensagem, interações com o público e grande visibilidade multiplataforma. As marcas fazem parte das histórias que vamos contar”.

O resultado? Dezenas de milhões de pessoas – incluindo “famílias”, como bem explicitou Victor Machado do YouTube –, sendo convencidas a colocar suas economias em risco.    

Em 13 de junho, no jogo contra o Marrocos, a aposta era que Endrick iria marcar um gol a qualquer momento com odds bem favoráveis pela Bet365. Seis dias depois, no jogo contra o Haiti, odds positivas na Bet Nacional se o Brasil marcasse dois ou mais gols no segundo tempo. Em 24 de junho, contra a Escócia, a aposta era que Vini Jr. marcaria no segundo tempo, na casa de apostas KTO. 

Todas essas odds foram anunciadas pela CazéTV durante as partidas. Quem seguiu estas dicas perdeu dinheiro, segundo um levantamento da organização CTRL+Z a que a Pública teve acesso com exclusividade. De acordo com a organização, que se descreve como “projeto brasileiro que enfrenta o modelo de operação das Big Techs”, das 98 propagandas na CazéTV que mencionaram odd durante as partidas nos primeiros 15 dias da Copa, apenas 35 acertaram. 

A CTRL+Z submeteu o seu levantamento à Senacon para pedir a inclusão do YouTube na investigação sobre propaganda enganosa contra a CazéTV. 

Para a organização, “não se trata de mera hospedagem de conteúdo de terceiro, mas de empreendimento conjunto estruturado para maximizar receitas publicitárias – entre elas, as das casas de apostas que patrocinam o canal”.  

Em especial, a ONG chama a atenção para o fato de que as propagandas de bets deveriam poupar crianças – mas 48% das crianças no Brasil assistem vídeos no YouTube todos os dias, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025. 

“Com a parceria selada e frutífera, não dá mais para fingir que essa conversa não inclui o YouTube” diz a carta da CTRL-Z. Segundo o documento, ao fazer parte da cadeia de transmissão, o YouTube pode ser responsabilizado nos termos do artigo 7º do Código de Defesa do Consumidor, que assegura ao consumidor a faculdade de demandar todos os participantes da cadeia.

“A sinergia entre a plataforma e o canal – o YouTube lucra com os anúncios, detém os mecanismos de moderação, decide o que promover algoritmicamente e, no caso concreto, estruturou parceria bilionária com a CazéTV – afasta qualquer alegação de neutralidade técnica e impõe a responsabilização solidária como instrumento de proteção ao consumidor e à ordem econômica”, diz o documento. 

Todos sabem que a CazéTV decidiu parar de fazer o tipo de propaganda abusiva de bets que vinha fazendo, e que, diante do escândalo, a FIFA decidiu não mais ceder a transmissão da copa do mundo de 2030 ao canal. Mas e o YouTube? 

No final, a empresa do Google foi a grande vencedora do acordo estruturado com a FIFA e a LiveMode, controladora da CazéTV. Incontáveis as reportagens afirmando que a transmissão “revolucionou” o consumo de esportes. O modelo pode ser expandido, e com a ausência de regulação, muito lucrativo. 

Para conseguir isso, o Google apostou alto. Além da parceria com a CazéTV, o YouTube foi “canal prioritário” da FIFA, em mais uma “parceria” de valor não revelado. 

Durante os jogos, o Google lançou várias novas funcionalidades, incluindo o uso de IA na busca, no Maps, no Waze e no app Gemini, permitindo um placarzinho sobre o resultado dos jogos. No seu evento anual Google for Brazil, as novas ferramentas foram apresentadas para mostrar que o futebol é “prioritário” na estratégia do serviço.   

Como você sabe, o objetivo segue sendo evitar que as pessoas cliquem em um canal de notícias ou entretenimento e fique no próprio Google. 

Ao mesmo tempo, o Google está mais diretamente na disputa pelos direitos de transmissão. Segundo o canal CNBC, YouTube e Netflix estão cortejando a FIFA por direitos de transmissão na Copa de 2030 nos EUA, a um valor estimado em até US$2 bilhões. 

Outra reportagem, do site Investnews, afirma que o YouTube comprou os direitos de exibição dos jogos do Campeonato Brasileiro que foram depois transferidos para a CazéTV. Aqui, como na Copa do Mundo, LiveMode, detentora da CazéTV, foi a empresa que vendeu os direitos e a que acabou ficando com os direitos, numa operação de “sentar dos dois lados do balcão”, como mostramos nesta reportagem da Agência Pública.

Agora: não se sabe se o pedido da CTRL+Z vai ser acatado pela Senacon e se o YouTube vai ser de fato investigado pela propaganda enganosa. 

Mas, por mais que tente se dissociar de um canal de TV – ou que queira que o conceito de TV “desapareça” – fica cada dia mais claro que o Google é sim uma empresa de mídia. Assim, operar na ausência total de transparência sobre suas “parcerias” e fugir da responsabilização por práticas abusivas deve ficar cada vez mais difícil. 

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