No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip recebe Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental. Apresentadores do podcast Vibes em Análise, eles discutem como as redes sociais transformam a noção de coletividade e de individualidade e como as empresas por trás dessas plataformas se beneficiam da solidão. Para Lucas, o consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado.
Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. Para os entrevistados, as redes sociais prometem conexão e pertencimento, mas também podem intensificar o avanço da solidão entre as pessoas e transformar em espetáculo. “Quem filma a solidão […] no limite também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha… um artifício para não estar exatamente sozinho”, resume André Alves. Para Lucas Liedke, este é exatamente o ponto de atenção, já que as plataformas lucram com essa dinâmica. “O imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor”.
As redes sociais não só contribuem para este fenômeno como podem transformá-lo em uma espécie de espetáculo.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 239 A solidão “premium” – com Vibes em Análise
Vocês escreveram esse texto, Solidão Premium, que é uma análise sobre muitos temas que se entrelaçam. Então pra começar, o que é a solidão premium?
Lucas Liedke: A discussão sobre solidão vem acontecendo enquanto sintoma global há algum tempo. Com certeza com mais força há uns cinco anos, a partir da pandemia, do trabalho remoto, do isolamento social. Alguns fenômenos que já eram uma realidade, mas que foram ganhando expansão, se tornando uma necessidade e nós sabemos que muitas pessoas nunca conseguiram voltar ao que era antes.
No Japão tem esse fenômeno do hikikomori, que são os indivíduos que não saem de casa, de forma alguma, e ficam nesse confinamento extremo. Na China, a gente viu o lançamento de um aplicativo, que tem um nome bastante macabro, que é Você Está Morto?, onde as pessoas são convidadas a fazer um check-in a cada dois dias para mostrar para as outras que elas ainda estão vivas.
Nesse contexto, a gente começou a perceber um movimento também de influenciadores de solidão. Pessoas que afirmam ter um um orgulho de não ter uma família próxima, de não ter muitos amigos, de passar um sábado à noite sozinho em casa, assistindo o que quiser no streaming, comendo o que quiser no delivery, sem ter que negociar os seus gostos, as suas escolhas com ninguém. E isso é um contraste curioso para as redes sociais, que sempre foi um lugar mais de expor o quanto você é sociável, o quanto você se diverte, as suas conexões, enquanto uma espécie de capital social. Essa contradição foi o que nos levou a escrever esse texto “Solidão Premium”.
André Alves: Tem o famoso relatório da OMS de 2025 sobre como uma em cada seis pessoas no mundo se sente afetada pela solidão. Sob à luz da psicanálise – que é o campo de onde a gente parte – a definição da solidão parte de uma espécie de déficit relacional. “Eu não tenho quantitativamente e ou qualitativamente relações suficientes na minha vida”. Claro que nunca a gente tem a suficiência na psicanálise, a gente está sempre trabalhando exatamente com ausências e faltas, mas no caso da epidemia de solidão, é algo que diz sobre faltar demais, sobre eu não ter relações profundas o suficiente, e/ou pessoas o suficiente na minha vida com quem eu possa trocar e que considerem a minha dor como algo importante.
A Solidão Premium, da qual a gente tem falado e esse texto que o Lucas escreveu, parte da ideia de que, no estado atual desse movimento, a gente tem observado muitos criadores de conteúdo, e não só, mas também outras áreas da cultura e da vida de uma forma geral, promovendo uma espécie de estetização da solidão. Um rebranding da solidão: a solidão passando a ser algo ou um estado não só difícil, vergonhoso, culposo, negativo, mas também como um estado aspiracional, algo que eu quero ter na minha vida, pertencer, e acho que dá para a gente falar, inclusive, um pouco sobre como o consumo afeta essa história.
Lucas Liedke: Porque essa solidão espetacularizada, o quanto ela é uma escolha? Ou o quanto que é tentar se contentar com o que tem, ou com o que não tem. Porque talvez o que a gente tenha perdido, muitos de nós, não seja só a proximidade com os outros, mas a capacidade e o desejo de se relacionar. Então, nesse espetáculo tem algo meio contraditório, que é você pode estar disposto a não ter mais o valor das relações interpessoais, mas, ao mesmo tempo, tem um gozo em possuir uma audiência e agradar uma audiência, que está validando ali a sua vida solitária, mas que está cheia de prazeres e que custa caro. Como o André falou, ela é aspiracional. Tem uma ostentação, tem um luxo de um certo consumo de que é: “eu estou sozinho, mas eu sou feliz aqui no meu castelo”.

Sobre essa ideia da solidão performada; de que solidão estamos falando, quando uma pessoa monta um esquema para se filmar curtindo estar sozinha, para depois apresentar para as pessoas e esperar delas curtidas e comentários? De que tipo de solidão estamos falando quando pensamos nessa solidão performática para o outro?
André Alves: Eu vou trazer três autores para pensarmos a solidão. O Winnicott, psicanalista britânico, tem um texto muito importante, do final dos anos 50, em que ele fala sobre a capacidade de estar só, sobre como a solidão ou a solitude é um estado conquistado. A criança aprende a estar só. Primeiro com os cuidadores observando a criança brincar sozinha, e depois a criança vai integrando essa capacidade de estar feliz em sua própria companhia, ou satisfeita minimamente na sua própria companhia.
Vamos guardar essa informação. Tem uma outra autora que é pouco falada quando se discute solidão – pelo menos nas minhas andanças por aí – que é a Melanie Klein. Já no final de sua obra, tem um texto em que ela descreve a solidão muito ligada a uma nostalgia de um estado perfeito de compreensão total, que nunca existiu mas é a fantasia da relação sem palavras com o objeto primário. A fantasia de que há um outro que me entende completamente, totalmente e me suporta integralmente.
Eu trouxe esses dois autores porque os dois estão falando, de alguma forma, desse ambiente perfeito. E a gente não anda muito bom de desidealizar as coisas. Pelo contrário, a gente anda muito bom de ideais saturados. É o que o consumo especialmente nos promove ou nos promete, né. É exatamente o ambiente perfeito. A casa que ela tem é maravilhosa a ponto de você não querer sair mais dela. Ela faz total sentido, ela reflete todos os seus gostos, né. Esse ambiente de conveniência máxima como se fosse um ambiente perfeito. Que a gente sabe, não existe, mas ao mesmo tempo parece que o consumo tem ficado especialmente bom em nos convencer do contrário.
E aí entra a viralidade e o conteúdo promovendo essa repetição em loop. Eu falei que eram três autores, e acho que tem um terceiro autor importante também da psicanálise britânica, que é o Christopher Bollas, que tem uma grande obra também no século XXI, de como o que a gente busca no consumo é o que o bebê geralmente busca na mãe. Não só um objeto, mas uma experiência de transformação. É isso que o consumo nos promete. “Use isso, tenha isso, viva isso, e você sairá dessa muito melhor, transformado, muito mais aspiracional, inclusive”. É como se a conveniência entrasse também como uma suplantação da carência e de uma constante presença.
Por que a gente tem visto tantos creators ou criadores de conteúdo falando sobre solidão? Exatamente para remontar esse ambiente perfeito e idealizado, colocar nos objetos e nessa casa perfeita cheia de coisas incríveis a ideia de experiência de transformação ou de preservação, e três, uma fala constante e ininterrupta sobre solidão exatamente para não ter que experimentar a solidão. Porque quem filma a solidão ou transforma a solidão em espetáculo – como o Lucas estava dizendo – também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha como também um artifício para não estar exatamente sozinho.
Lucas Liedke: Existem dados científicos de como o sentimento de solidão atua como um fator de risco para a nossa saúde, tanto quanto ser sedentário, quanto obesidade, ou tabagismo. Tem até essa ideia de que a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Mas a solidão é bem subjetiva, você pode estar cercado de muita gente, ainda assim se sentir só, ou o contrário. Então, é claro que não é tanto sobre estar sozinho apenas por opção, mas ter a opção de sair do isolamento quando você quer ou precisa.
Então vale a gente problematizar um pouco que o imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor. Mas a gente também pode demonizar uma vida solitária, assim como romantizar um sentimento de solidão. A gente enxerga que são dois becos sem saída porque tem um empuxo muito do nosso tempo hoje do hiper indivíduo de um grande projeto de se auto-otimizar. E aí as relações nem sempre ajudam nisso, porque você tem que abrir mão de alguma coisa. Precisa se adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. E aí o outro produz um tipo de diferença, ou de atrito, ou de imprevisibilidade nos seus planos. E aí quem entrega essa vida “social” sem fricção é a economia da companhia artificial. A inteligência artificial enquanto essa solução para um problema que foi criado pelas próprias tecnologias.
Não podemos deixar de lado como essa solidão serve ao capitalismo neoliberal, a individualização extrema. Por um lado, a libido tem que estar totalmente investida no trabalho, porque estamos sendo esmagados o tempo inteiro por demandas e não tem mais separação do trabalho para casa, nem fisicamente, nem na nossa cabeça. E aí quais os impactos dessa ideia que os vínculos interpessoais podem oferecer risco para o grande projeto de auto-otimização do super indivíduo?
Lucas Liedke: Tem um tratado do jornalista Derek Thompson que ele chama de século antissocial. Ele fala por esse viés mais do consumo, de a quem que interessa a gente ficar mais e mais sozinhos. Porque mesmo os aplicativos de relacionamento são projetados de forma que você continue lá. Eles não querem perder esses clientes e consumidores.
O consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. São as porções menores e mais caras, é mais embalagem, tem mais transações individuais. A gente tem hoje uma análise de dados também, de algoritmo, que funciona de um jeito muito menos genérico, – como era a visão demográfica do consumidor – hoje, é muito singular, muito específico. E a gente vai sendo suprido com muita conveniência, como se isso desse conta da complexidade do nosso afeto e das nossas carências.
André Alves: O Bumble lançou esse ano o concierge de IA. Você não precisa mais conversar com 10, 50, 100 pessoas até achar uma pessoa que seria “perfeita”. Porque a gente sabe que o trabalho relacional começa exatamente depois do encontro, e não necessariamente no encontro perfeito, do objeto perfeito que vai satisfazer todas as suas necessidades. E aí o concierge de IA, na verdade, filtra quem são as três pessoas perfeitas. Depois, os concierges de IA vão conversar entre si para encontrar a sua probabilidade perfeita.
Então, é um sintoma social, da mediação relacional e também da comunicação assíncrona, de uma quantidade muito grande de ansiedades sociais, da evitação do conflito e principalmente – do que a gente no Instituto Float Vibes, que eu e o Lucas temos – chamamos de era das intimidades sintéticas. A gente fica acostumado demais não com as relações, mas com aquilo que é “sabor-relação”, que me dá o simulacro de relação o simulacro de comunidade, pegando um termo do Zygmunt Bauman.
Outra coisa que eu acho interessante pensar, bem fisheriano, é como essa relação é um golpe de mestre do capitalismo tardio. Primeiro, ele degrada a coletividade e depois nos vende ela de volta, só que com mensalidades, com grupos, com clubes. E aí nós vamos tentando reintegrar a nossa necessidade de fazer pontes e de pertencer através de serviços pagos. Só que, junto com isso, há uma tese em curso que ganha força – especialmente no final dos anos 80 e nos anos 90 –, de que o sucesso é uma questão de disciplina e especialmente de dedicação. Thompson, citado por Lucas, escreveu bastante sobre como o trabalho suplanta a ausência de religiosidade e espiritualidade desse período, consequentemente, o trabalho vira um sistema de devoção.
Porque se o sujeito contemporâneo, do hiper desempenho, acredita que o sucesso é uma questão de disciplina, as relações vão se transformando em distrações. A relação tem um risco especialmente para os homens, como temos acompanhado em alguns estudos que temos feito e publicado. As relações vão sendo encaradas não mais como algo que você tem que fazer para pertencer ao meio social, mas sim, algo que você pode evitar para continuar comprometido com o seu projeto de sucesso e ascensão.








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