Buscar
Nota

Justiça absolve réu da Operação Enredados e critica MPF: “denúncia sem nexo factual”

25 de agosto de 2023
12:00
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Deflagrada em outubro de 2015 nos embalos da Lava Jato, a Operação Enredados, da Polícia Federal, terminou com 19 prisões, 63 mandados de prisão e o anúncio solene, sob holofotes e os estardalhaços do período, do desmonte de um grande e milionário esquema de corrupção na Secretaria de Pesca e Aquicultura (SPA) durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Apresentado à época como um troféu da PF e do Ministério Público Federal, o então secretário executivo interino da Pesca, Clemerson José Pinheiro da Silva, engenheiro do Ibama, amargou uma prisão de quatro meses em Porto Alegre e só ganhou liberdade depois de pagar R$ 60 mil de fiança e arcar com mais quatro anos de medidas cautelares.

Oito anos depois, a sentença do juiz Marcus Vinicius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal Criminal de Brasília, com trânsito em julgado consumado no mês passado, absolveu Pinheiro da Silva e outros nove acusados, desqualificando as investigações e a denúncia por total falta de provas sobre as acusações de corrupção passiva e formação de quadrilha numa acusação de recebimento de propina pela emissão de autorização de pesca fora das normas ambientais.

“Os autos não contêm provas que sustentem as imputações”, escreveu o magistrado ao criticar uma denúncia baseada apenas na fala de um delator e de diálogos telefônicos captados num grampo que “nada provam”. Reis Bastos escreve que o que os investigadores apontaram como argumento para defender condenação não passam de “conversas a respeito das providências adotadas por alguns dos Réus com vistas à obtenção de licenças para a pesca de tainha”. O juiz considerou os diálogos como “insinuações” sem qualquer comprovação documental. No final, afirma que caberia ao MPF, em vez de apresentar a denúncia sem nexo factual, utilizar a delação e o conteúdo do grampo, conforme previsto na própria lei, como meio de investigar e chegar às provas prestáveis à responsabilização penal.

Um dos advogados do engenheiro, Leonardo Pinheiro, disse que o único delito juridicamente palpável de uma operação que envolveu mais de um ano de investigações e gastos expressivos com viagens de policiais e presos foi a confissão de um delator, Mutsuo Asano Filho, que admitiu ter pego uma propina de R$ 35 mil para facilitar a pesca de arraia, num outro caso dentro da mesma operação. “Houve um espalhafato gigantesco. O valor da propina não paga o combustível gasto para o deslocamento dos presos na operação. O próprio juiz escreveu que a delação nunca deveria ter sido homologada. A operação é resultado do espírito lavajatista”, diz Pinheiro. No único dos quatro processos que resultaram da operação ainda pendente de decisão judicial, segundo ele, o delator afirma que não há nada envolvendo Clemerson Pinheiro da Silva, que acabou pagando um preço alto por ter seu nome envolvido.

Procurado pela Agência Pública, Pinheiro da Silva afirma ter sofrido prejuízos pessoais e profissionais irreparáveis. Além da “humilhação e sofrimento físico”, a prisão resultou na destruição de sua carreira profissional, construída ao longo de 36 anos como engenheiro ambiental do Ibama, e produziu impacto danoso à sua reputação. Disse que ficou quatro anos com o direito de ir e vir limitado por medidas cautelares, foi impedido de trabalhar na área profissional e de conhecimento na qual se formou e teve sua aposentadoria no serviço público cassada, o que implicou na perda de dois terços da renda familiar. “As consequências para minha saúde física e mental são irreversíveis”, disse, se referindo a uma doença degenerativa diagnosticada como causa direta dos abalos emocionais da prisão.

Ele lembrou que até a absolvição viveu uma expectativa “angustiante e torturante” por oito anos, com impacto negativo nas relações sociais e profissionais em decorrência da exposição negativa a que foi submetido. 

“Foram 4 meses de prisão em regime fechado e 4 anos com medidas cautelares que me impediam de sair de casa nos finais de semana e feriados, recolhimento diário das 7 da noite até as 8 da manhã, proibição de atuar em trabalho relacionado com a minha área profissional, apreensão do passaporte, proibição de sair do DF sem autorização do juiz e pagamento de uma fiança de 60 mil reais”, diz.

Edição:

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder
Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista
Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF
Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas