Buscar
Da Redação

Sabesp censura contratos de grandes consumidores

Em resposta ao nosso pedido pela Lei de Acesso, empresa publica centenas de contratos de demanda firme no seu site, mas esconde todas as informações relevantes

Da Redação
11 de março de 2015
10:10
Este artigo tem mais de 11 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Não foi dessa vez que o obscurantismo da Sabesp chegou ao fim. Na noite de terça-feira o setor de Comunicação da Sabesp se deu ao trabalho de escanear e publicar no seu site 536 contratos de demanda firme assinados com os maiores consumidores de água do Estado. Mas censurou todas as informações de interesse público.

Estão riscados nos documentos os nomes das empresas e de seus representantes, o valor total dos contratos, a vigência, a tarifa praticada e até mesmo a equação utilizada para chegar a tal tarifa. Nem a data de assinatura escapou da canetada da Sabesp. Sem essas informações não é possível fazer uma análise consistente sobre a política de demanda firme.

Os contratos foram requeridos via Lei de Acesso em dezembro pela Agência Pública, em um pedido rejeitado duas vezes pela Sabesp mas que foi considerado procedente pelo Corregedor Geral da Administração Gustavo Ungaro, que ordenou a entrega dos contratos até dia 26 de fevereiro. “A liberação dos contratos conhecidos como demanda firme (…) permitirá à sociedade o aceso ao modus operandi da Sabesp no que diz respeito à prestação de serviços públicos de saneamento básico”, diz a decisão da CGA.

Hoje a Pública voltou a entrar em contato com a Sabesp pedindo os contratos sem censura. Ouviu apenas que as informações foram repassadas ao setor responsável pela área de Serviço de Acesso à Informação da Superintendência de Gestão de Risco.

Leia mais: Água destinada pela Sabesp às empresas aumenta 92 vezes em 10 anos 

Leia mais: Sabesp Desobedece Corregedor e não entrega contratos de  demanda firme

Lista dos nomes é divulgada

A publicação dos contratos censurados ocorre depois da companhia de águas publicar uma lista com 537 nomes de clientes que têm contrato de demanda firme. Mas a listagem dos clientes empresariais, publicada ontem pelos jornais Estado de S Paulo e El País, contém apenas o nome das empresas e não cita o valor da tarifa praticada ou o consumo médio de cada empresa.

O que se pode apreender da lista publicada é que esses contratos – cujas principais características são a obrigatoriedade de uso de uma quantidade mínima de água por mês, começando por 500 mil litros, o uso exclusivo da água da Sabesp (sem vez de fontes alternativas adicionais) e desconto na conta, que cresce à medida que cresce o consumo médio de água, podendo chegar a até 75% da tarifa – foram assinados a partir de 2005 com pessoas jurídicas de ramos variados.

Três igrejas possuem os contratos “diferenciados”. São elas a Igreja Pentecostal Deus é Amor, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Chamam a atenção na lista indústrias líderes mundiais, como a Dow Chemical do Brasil, a Basf e a Bunge, bancos como Citibank SA, Banespa, Itaú, Safra, Bradesco e HSBC e as gigantes do setor automotivo Mercedez-Benz, Toyota.

A lista inclui ainda campeãs do varejo como as cadeias McDonald’s e C&A, universidades, hospitais, e os clubes de futebol paulistas Santos, São Paulo, Palmeiras e Corinthians. Vale mencionar também a Nestlé, que realiza a exploração de águas minerais em diversos locais no Brasil, sendo criticada por moradores da localidade de São Lourenço (MG), por exemplo.

O que a Sabesp esconde

A estratégia da Sabesp parece ser a de divulgar dados parciais e desencontrados para que a política da demanda firme continue nebulosa. Pelos dados obtidos até agora,  não é possível determinar as diferenças reais entre as tarifas aplicadas para as grandes empresas. Isso ocorre porque o preço do metro cúbico é calculado a partir de uma fórmula matemática, que leva em conta a média consumida nos doze meses anteriores pelo cliente.

Ou seja: não se sabe de quanto foi o desconto dado às empresas pela água do sistema Sabesp nos últimos anos.

Outro grande mistério é quem são os maiores consumidores de água. Segundo uma tabela obtida pelo El Pais, há um consumidor cujo contrato prevê o uso de 98,3 milhões de litros por mês e outro que consome cerca de 73,4 milhões de litros por mês. Pelo menos 10 empresas consomem mais de 40 milhões de litros por mês. Quem são elas? Não se sabe.

A Sabesp esconde, ainda, quais foram os 42 contratos assinados em 2014, 30 deles após fevereiro, quando a companhia reconheceu oficialmente a crise no sistema Cantareira e suspendeu a obrigatoriedade de consumo mínimo das empresas.

Em 2014 foram assinados, por exemplo, dois contratos com vigência de 5 anos para fornecimento de 20 milhões de litros mensais, em 30 de abril e em 11 de agosto. Em novembro, quando a presidente da Sabesp já havia reconhecido a severidade da crise no abastecimento de água em depoimento à CPI da Câmara Municipal de São Paulo, foram assinados três novos contratos.

A lista de novos contratos “premium” assinados após a crise é ainda maior, segundo o jornal El País, pois inclui cerca de 20 novos clientes do município de Diadema, onde a Sabesp começou a prestar serviço no ano passado.
Juntos, os contratos de demanda firme consomem cerca do 3% do volume de água faturado na grande São Paulo. A Sabesp afirma que, apesar das críticas sobre a manutenção destes contratos privilegiados, pretende manter a política para “evitar um êxodo” de vários clientes para fora do Estado.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Dá para beber essa água?

|

Agrotóxicos, metais pesados e substâncias que imitam hormônios podem estar na água que chega à torneira da sua casa ou na mineral, vendida em garrafões, restaurantes e supermercados. Saiba por que nenhuma das duas é totalmente segura

Sabesp quer aumentar tarifa residencial, mas continua dando desconto para grandes empresas

|

A Pública obteve através da Lei de Acesso à Informação a lista de 464 empresas que têm contratos de demanda firme para abastecimento de água em São Paulo. Clientes como Volkswagen, Itaú e Nestlé pagam menos e consomem mais

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia também

Dá para beber essa água?


Sabesp quer aumentar tarifa residencial, mas continua dando desconto para grandes empresas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras

Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF