Buscar
Coluna

‘As pessoas vão derreter feito lesma na calçada’

Os alertas de Ailton Krenak e o otimismo de Marcelo Gleiser e Carlos Nobre na relação da humanidade com a crise do clima

Coluna
15 de março de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ouça Giovana Girardi

Giovana Girardi

Os alertas de Ailton Krenak e o otimismo de Marcelo Gleiser e Carlos Nobre na relação da humanidade com a crise do clima

0:00

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Nesta semana tive a oportunidade de participar de dois debates incríveis sobre os desafios impostos pela crise climática e ideias para sair dela. No primeiro, fiz parte da bancada do programa Roda Viva, da TV Cultura, que entrevistou o físico Marcelo Gleiser. O segundo foi a mesa “Colapso climático e o Antropoceno” (parte do evento de comemoração dos 13 anos da Agência Pública), em que mediei um bate-papo com o escritor Ailton Krenak, o climatologista Carlos Nobre e a jornalista de meio ambiente Daniela Chiaretti.

Foi nesta mesa que ouvi a frase da qual peguei emprestado o título para esta coluna. Em um alerta sobre as perigosas mudanças que a humanidade está promovendo no planeta, Krenak vaticinou: “Daqui a uns 20, 30 anos, as pessoas vão derreter feito lesma na calçada. O calor vai estar tão chapante que um cara sai de casa e derrete na calçada”.

  • Mesa “Colapso climático e o Antropoceno” (parte do evento de comemoração dos 13 anos da Agência Pública), com o bate-papo entre o escritor Ailton Krenak, o climatologista Carlos Nobre e a jornalista de meio ambiente Daniela Chiaretti, mediada pela jornalista Giovana Girardi

A plateia que estava presente riu meio nervosa. Alguns minutos antes, já tinha ouvido algumas previsões ainda mais dramáticas. Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do Brasil em mudanças climáticas e nos impactos do desmatamento na Amazônia, explicava que, se mantivermos o ritmo atual de emissões de gases de efeito estufa, poderemos chegar ao fim do século com uma temperatura média 4 ºC acima do período pré-industrial. 

Lembra? No ano passado, quando o planeta bateu recorde de calor, a temperatura média ficou em 1,48 ºC acima dessa marca, e já vimos o perereco que foi. Agora imagina mais que o dobro disso.

Nobre ajudou a gente a imaginar. Se a temperatura passar de 4 graus, disse ele, praticamente todo o mundo tropical se torna inabitável. “[Isso] Significa que a temperatura e a umidade atingem um nível que o nosso corpo não perde mais calor. É estresse térmico. Um bebê e uma pessoa idosa sobrevivem meia hora no estresse térmico. Uma pessoa saudável, adulta, duas horas. Se nós chegarmos a 4 graus, só haverá habitabilidade no topo dos Andes, dos Alpes, na Antártica e no Ártico.”

Ele continuou com as projeções assustadoras provenientes de relatórios científicos robustos, como os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): “Se chegarmos a 4 graus no século que vem, nós vamos causar a sexta maior extinção [de espécies]. A quinta foi 62 milhões de anos atrás, [quando] caiu aquele superasteróide no golfo do México. Mas quanto tempo levou para a extinção dos dinossauros? Dois a três milhões de anos. O processo de causar a quinta extinção foi de milhões de anos. Nós vamos causar a sexta maior extinção em 100 anos. No meio do século 22, nesse caso, a temperatura já terá passado muito de 4 graus”.

Minha sensação foi que as pessoas na plateia nem piscavam, segurando a respiração enquanto ele descrevia o quadro futuro que vamos enfrentar (se não nós, diretamente, mas com certeza as próximas gerações) caso não mudemos a forma como estamos tratando o planeta. 

Acho que o veterano pesquisador também percebeu. E, ao final do nosso debate, fez questão de dizer que, apesar de tudo o que tinha dito, ele é um otimista. Que ele aprendeu a ser assim depois dos 65 anos (hoje ele tem 72) e que ele tem se empenhado em apontar soluções a fim de combater o problema. “Porque a gente não sabe quanto tempo nós vamos viver. Não vamos cometer um ecossuicídio!”, disse.

Então ele contou dos esforços que está fazendo para promover projetos de restauração da Amazônia e disse que planeja fazer um estudo para propor o que o Brasil precisa fazer para zerar suas emissões até 2040. Na sequência, convocou a plateia: “Queria muito que os jovens comprassem essas ideias. Vamos tornar o nosso país o primeiro país a zerar as emissões”.

Para Nobre, um caminho para isso é as pessoas se engajarem em mudar seus hábitos de consumo. “Se nós todos, quem come carne – eu não como carne há muito tempo –, mas se nós todos, na hora de ir no supermercado, no frigorífico, no açougue, exigirmos que só compraremos carne bovina de pecuária regenerativa, o Brasil reduziria em 50% as emissões.”

A premissa do pesquisador é que o consumidor tem o poder de mudar os negócios. Que essa pressão poderia “induzir a agricultura e pecuária brasileira para um caminho sustentável”.

Na hora em que ele falou isso, eu viajei de volta ao Roda Viva. Marcelo Gleiser está lançando no Brasil seu novo livro – O despertar do universo consciente –, no qual propõe que a Terra é rara, mágica, uma vez que é a única onde até hoje sabemos existir vida como a conhecemos. E que por isso a gente deveria se esforçar fortemente para preservar essa vida, o que significa lutar para evitar o pior das mudanças climáticas.

O físico propõe um “manifesto para o futuro da humanidade”, segundo o qual “todo indivíduo tem um papel a cumprir”. Para ele, não são necessários os “sacrifícios de uma revolução sangrenta”, mas adotar ações dentro de três princípios:

  1. Menos para garantir a sustentabilidade;
  2. Mais para nos reaproximar do mundo natural;
  3. Consciência na compra e no consumo de produtos e bens.

Gleiser defende que nós todos deveríamos comer menos carne, consumir menos energia e menos água, produzir menos lixo, nos “engajar mais com a natureza” e pressionar empresas a adotar práticas mais sustentáveis. No livro ele ainda escreve, em negrito: “Consumidores do mundo: unidos vencemos nós e a natureza”.

Durante o programa, eu o questionei sobre a proposta. Para mim, ela talvez soe um pouco ingênua, por colocar um peso tão grande nas ações individuais. Para realmente ter impacto, é algo que teria de ser adotado realmente por muita gente. Sendo que estamos falando de desafios muito profundos e sistêmicos. 

Para derrubar as emissões de gases de efeito estufa no tempo necessário para evitar o caos na Terra, são necessárias mudanças estruturais. O IPCC estima que para conter o aquecimento global no máximo até 1,5 ºC teríamos de reduzir as emissões em 43% até 2030 e chegar a emissões líquidas zero (compensando o que não for possível deixar de emitir) até 2050. 

Confesso que tenho certa dificuldade de ver essa redução brutal acontecendo a partir de ações individuais – sem que venham junto medidas governamentais que, por exemplo, determinem que os frigoríficos exponham a origem da carne em seus rótulos para que as pessoas possam escolher; sem que haja algum tipo de taxação para o carbono; sem que deixem de ser concedidos incentivos para os combustíveis fósseis. 

Gleiser não curtiu muito a minha pergunta. “A gente está sempre acostumado a ter o paizão que diz o que a gente tem que fazer, aquela coisa do controle do Estado, da religião etc. E eu acho que aqui, nesse momento, a gente tem que começar a pensar como indivíduos, porque o que o governo faz ou não faz com relação ao planeta vai afetar todo mundo da mesma forma”, respondeu.

“A técnica do medo distópico também não está dando certo, de que, ah, o mundo vai terminar, aquela coisa. Essas campanhas de medo funcionam a curto prazo, mas não quando o teu problema tem décadas, que é o problema do clima. Então, é muito difícil convencer as pessoas a mudarem os hábitos, a menos que você pegue no coração das pessoas. Tem duas maneiras de mudar a ideologia das pessoas. Uma é no coração e a outra na carteira. Na carteira, obviamente, quando as coisas ficarem mais baratas, as energias alternativas ficarem mais baratas, já estão ficando. E no coração é você contar uma história em que cada um de nós tem um papel de guerreiro nessa revolução, que é salvar o nosso projeto de civilização”, complementou o físico.

Achei inspirador, de verdade, assim como a fala do Nobre, mas meu lado cético não me deixa exatamente à vontade. Minha dificuldade, talvez acima de tudo, seja imaginar como uma humanidade tão arraigada a péssimos hábitos de consumo possa mudar a ponto de mobilizar milhões de pessoas que juntas pressionariam por essas mudanças. Pense na loucura do brasileiro com picanha. Na loucura do norte-americano com seus SUVs. Isso só para começar. Mas, beleza, a água tá subindo, batendo no traseiro e talvez a humanidade, sim, vire a chavinha. Agora essa união consegue ser mais forte que os lobbies de quem está ganhando enquanto o circo pega fogo?

Deixo aqui a minha inquietação e minhas dúvidas com o caro leitor. Gostaria muito de ouvi-los.

José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Sócio de Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas eleitorais

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia