Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

Em 2014, Sabesp vendeu água do Cantareira com desconto

Pedido de acesso à informação revela que empresa assinou 16 contratos de demanda firme usando o Cantareira, adicionando demanda de 120 milhões de litros mensais a um sistema já em colapso

Reportagem
28 de abril de 2015
15:08
Este artigo tem mais de 11 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Sistema Cantareira / Foto: Miídia Ninja
Sistema Cantareira / Foto: Miídia Ninja

Um terço dos contratos “premium” assinados no ano passado, em meio à pior crise de abastecimento da história de São Paulo, usam água do sistema Cantareira. É o que mostra o mais recente pedido de acesso à informação feito pela Agência Pública à Sabesp. Segundo os dados enviados pela empresa de saneamento paulista, esses contratos respondem por mais da metade da demanda de água (120 milhões de litros, de um total de 220 milhões) dos novos contratos para grandes consumidores assinados em 2014.

Em fevereiro daquele ano, a Sabesp reconheceu oficialmente a crise no sistema Cantareira e suspendeu a obrigatoriedade de consumo mínimo das empresas, pré-condição para os descontos que chegavam a até 75% da conta. Quanto maior a faixa de consumo, maiores os descontos.

Mesmo assim, a empresa continuou assinando tais contratos ao longo do ano, e os descontos continuam até hoje, assim como os contratos, renovados automaticamente. Os últimos foram assinados em novembro de 2014, quando a ex-presidente da Sabesp Dilma Pena já havia reconhecido a severidade da crise no abastecimento de água em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal de São Paulo.

Mais de um terço dos 43 novos contratos assinados em 2014 utiliza água do sistema Cantareira, sendo que 16 deles têm um total 120 milhões de litros por mês reservados. Desses, cinco contratos usam exclusivamente o sistema já sobrecarregado, enquanto o resto também recebe água de sistemas diversos, como o Guarapiranga e Tietê. No total, os novos contratos de demanda firme foram responsáveis, em dezembro do ano passado, pelo uso de 222,6 milhões de litros de água.

Dentre os três clientes recentes campeões em consumo de água, dois têm fornecimento assegurado em parte pelo Cantareira. Um deles, cujo contrato foi assinado em 11 de agosto, com vigência para 5 anos, consumiu 86,2 milhões de litros durante 2014, nas suas 18 ligações de água, usando, além dos sistemas já citados, também o Rio Claro. O outro, cujo contrato foi assinado em 24 de janeiro, usou 70 milhões de litros em suas 13 ligações, provenientes da Cantareira e Guarapiranga.

Consumo dos contratos de demanda firme assinados em 2014

Não é possível saber quem são essas duas empresas, já que a Sabesp, pela terceira vez, enviou em resposta ao pedido da Lei de Acesso à Informação uma tabela incompleta que esconde os nomes dos seus maiores clientes. Também se negou a dar o endereço das ligações de água. “A Sabesp preserva a relação comercial estabelecida com seus clientes e portanto adota a política de resguardar as informações referentes ao cadastro comercial”, escreveu a companhia. As tarifas com desconto, aplicadas a cada um dos contratos, também não foram fornecidas.

Na verdade, a Sabesp desobedece mais uma vez a uma determinação da Controladoria-Geral da Administração (CGA) proferida em janeiro deste ano. O ex-Corregedor Geral da Administração Gustavo Ungaro ordenou a entrega dos contratos até dia 26 de fevereiro. “A liberação dos contratos conhecidos como demanda firme (…) permitirá à sociedade o aceso ao modus operandi da Sabesp no que diz respeito à prestação de serviços públicos de saneamento básico”, diz a decisão da CGA. Um mês depois, Ungaro foi retirado da CGA e substituído pelo promotor de Justiça Ivan Francisco Pereira Agostinho. Em março, a Sabesp chegou ao cúmulo de escanear e publicar no seu site 536 contratos de demanda firme assinados com os maiores consumidores de água do Estado. Mas censurou todas as informações de interesse público. Estão riscados nos documentos os nomes das empresas e de seus representantes, o valor total dos contratos, a vigência, a tarifa praticada e até mesmo a equação utilizada para chegar a tal tarifa. Nem a data de assinatura escapou da canetada da Sabesp. Sem essas informações não é possível fazer uma análise consistente sobre a política de demanda firme.

É impossível saber quem são os maiores favorecidos, quem são as empresas que mais consomem água no estado e quanto de desconto elas estão recebendo – ou o quanto a Sabesp está deixando de arrecadar por causa desse favorecimento aos grandes consumidores. Ou seja, como os demais consumidores estão pagando a conta. No começo de abril a companhia comunicou aos seus investidores que pretende reajustar as contas de água em 22,70% em razão da redução de receita motivada pela queda no consumo, fruto da colaboração da população diante da crise de abastecimento. A agência responsável pelo setor de água e energia no estado de São Paulo, Arsesp, já aprovou um aumento de 13,87%.

Outras empresas agem de modo diferente: respondendo a um pedido de acesso à informação, a SPTrans enviou um contrato imediatamente.

O nível atual do Cantareira está em 20,1%. Embora esteja sendo tratado com naturalidade, as chuvas de verão recuperaram apenas o segundo volume morto; o sistema ainda está 9,2% abaixo do nível de normalidade. O volume continua bem abaixo do registrado no mesmo período no ano passado, quando o sistema estava 11% acima do volume útil.

Baixe aqui a tabela com os dados sobre contratos de demanda firme assinados em 2014.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Nos estados, empresas públicas têm ligação direta com o mundo político e pouca transparência

|

Forte ligação partidária dos dirigentes de estatais estaduais e opacidade nos contratos firmados por elas constituem alto risco de corrupção, dizem analistas

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia também

Finalmente, os contratos de demanda firme


Nos estados, empresas públicas têm ligação direta com o mundo político e pouca transparência


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras

Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’