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O evangelho da política segundo o diabo: como figura do mal absoluto afeta seu voto

Personificação do mal, diabo atravessou religiões e regimes até se tornar recurso recorrente do tabuleiro político

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26 de janeiro de 2026
04:00
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Ilustração mostra o diabo na forma de políticos brasileiros, em frente aos Três Poderes em Brasília
Arte gerada parcialmente por inteligência artificial e editada manualmente

E não é só “ele” quem sabe. No domingo de junho de 2025, na Avenida Paulista, em São Paulo, diante de bandeiras e celulares erguidos, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) subiu em um caminhão de som para evocar o inimigo antigo. “O número de pessoas que apoiam o Bolsonaro cresceu e ultrapassou as pessoas que apoiam o satanás do Lula”, disse, arrancando gritos. Era a repetição de um ritual secular, em que adversários políticos são empurrados para fazer as vezes de príncipe do mal. Ali, o imaginário milenar do diabo se fez. Mais uma vez. 

A persona encarnada atravessa séculos sem perder a utilidade. A proposta é despir o adversário político de história, alianças e contradições e incubi-lo de um papel mais simples e mais eficiente: o do inimigo que não se discute, apenas se enfrenta. No jogo eleitoral, o movimento cumpre função estratégica. “Chamar alguém de corrupto gera indignação. Chamar de diabólico gera pânico”, diz Afonso, que destaca ainda como o medo engaja rápido, o debate empobrece, mas a adesão cresce.

Nesse cenário, Prudencio afirma que o discurso religioso ganha centralidade porque promete soluções fora da política, sem negociação ou contraponto. “É uma resposta simples para frustrações profundas, especialmente em contextos de desigualdade, desemprego e descrédito na classe política”, o que ela descreve como um empobrecimento deliberado do debate. “Quando há demonização, não há debate, há apenas embate”.

Sem necessidade de doutrina ou igreja, a figura do capeta circula livremente por discursos políticos, redes sociais e palanques improvisados. “O diabo sempre reaparece em momentos de crise e incerteza”, lembra o historiador da Universidade Federal do Ceará Pierre Grangeiro. Minorias, opositores e grupos vulneráveis voltam a ocupar o lugar da ameaça. “A diferença é a velocidade, a demonização agora se espalha em segundos, sem mediação institucional”, avalia.

O mecanismo continua politicamente eficaz. “Quando você transforma alguém em diabólico, elimina a possibilidade de diálogo”, afirma o psicólogo Eduardo Afonso, antes de concluir: “Não é mais um adversário, é um inimigo metafísico. O diabo funciona como projeção coletiva. Não vem de fora, emerge dos medos e desejos que não se quer reconhecer […] O diabo é o vilão perfeito. Não responde processo. Não precisa provar culpa. Basta acusar”.

Capeta, o funcionário-padrão quase sempre desprovido de DNA

É com o cristianismo que ele finalmente assume protagonismo. Influenciado por tradições apocalípticas judaicas e por textos como o Livro de Enoque, o diabo ganha nome, rosto e ambição. Deixa de ser circunstância e passa a ser agente, quando, segundo Grangeiro, “o mal se transforma em entidade”. 

Desde então, o diabo tornou-se indispensável para organizar comportamentos, justificar punições e explicar a desobediência. Ele não apenas existe, trabalha.

Metodologia

  • Os termos mais comuns associados ao diabo foram levantados por meio de busca no Google Hot Searches. Do universo encontrado foram removidos termos que pudessem ser dúbios (“maldoso”, “maligno”, etc) ou referentes a nomes próprios de pessoas ou obras (“Judas”, “Lúcifer”).
  • Os dados das citações feitas em plenário da Câmara dos Deputados foram levantadas ano a ano por meio de busca nas notas taquigráficas disponibilizadas no site oficial da Câmara.
  • Utilizando planilhas, foram filtradas as menções por ano e por termo utilizado, bem como contabilizadas as menções de acordo com o partido político do autor do discurso em que os termos foram mencionados.
  • Os dados utilizados para cada visualização estão disponíveis para download em cada infográfico e no rodapé desta reportagem.

Colaboração, projeto e infografia: Ed Wanderley
Artes: Matheus Pigozzi
Montagem: Raphaela Ribeiro

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