Buscar
Crônica

Quando não se morre

Em meio aos escombros da guerra, Omar transforma sucata em marionetes para devolver sorrisos e esperança às crianças

Crônica
11 de abril de 2026
04:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Latas de sardinha vazias que alimentaram famintos, pedaços de madeira que voaram de casas bombardeadas, tecidos retalhados dos que não sobreviveram. Omar olha para os objetos que encontra como se buscando ouvir o que eles têm a dizer e um motivo para levá-los.

Recolhe a sucata em sua sacola improvisada e anda muito até chegar ao pequeno alojamento no campo de refugiados.

Em uma pedra grande que serve de mesa, desamassa, corta e fura as latas. Dois furos em cima para os braços, dois furos embaixo para as pernas. Um furo no meio para a cabeça. Amarra cada braço e perna feitos de filetes de madeira nos furos correspondentes. Rasga os tecidos, costura com fios de eletricidade. Para as cabeças reserva as latas maiores, que ganham olhos grandes e bocas vermelhas. Veste os figurinos nas marionetes. Sempre gostou de contar histórias para as filhas, mas os tempos eram outros. Agora está sozinho.  

Amira, a filha de quatro anos, era inquieta. Gostava de se esconder e desesperava o pai. Ela não entendia o que estava acontecendo. Já Yasmin, de seis anos, passava dias em silêncio.

Rania, sua mulher, usava o que aprendeu como enfermeira para ajudar os feridos. Nenhuma gaze, só panos velhos e poucos remédios. Depois de mais um longo dia de atendimento, chegou ao alojamento e logo se juntou ao grupo para preparar os alimentos recebidos. Levou as filhas, que ficaram brincando com algumas pedrinhas no chão, enquanto Omar saiu com outros homens para pegar galões de água. 

Quando estavam quase terminando o carregamento, ouviu o som.

Omar viu de longe a grossa fumaça que se ergueu ao céu. 

Voltou o mais rápido que conseguiu ao acampamento e, como um cão farejador, andou sobre os destroços ainda quentes. Depois, como um cão abandonado, passou a andar sem direção.

Curvado e com ossos saltando, passou dias olhando para o chão murmurando palavras que não faziam sentido. Ouvia Amira pedir para brincar, via os olhos de Yasmin amedrontados, sonhava com as mãos de Rania sobre as suas. 

O que fazer quando não se morre? 

É quando Zahra, a garotinha de olhos arregalados, pede colo e encosta a cabeça em seu peito. Uma criança empoeirada, sozinha como ele. 

Omar era engenheiro e tinha projetado o edifício da escola das filhas, um dos primeiros a ser bombardeado. Sua habilidade parecia não servir para mais nada. O mapa da cidade tinha virado um borrão e seus pés agora pisam em um terreno cheio de cicatrizes. O céu está minado. 

Entre pensamentos que vem e vão, Omar prende a cabeça da última marionete para o teatro que acontecerá à tarde, se tudo der certo.

O palco é o buraco redondo de uma parede sobrevivente. Crianças se sentam de pernas cruzadas em frente e ficam hipnotizadas pelas marionetes manipuladas por fios que se tornam invisíveis. Riem, mesmo que por alguns minutos.

Zahra fala que as marionetes são de verdade, a diferença é que não morrem. E ao final do espetáculo, quando todos já foram embora, chega perto do buraco para conversar com o Rei Boneco, que tem superpoderes.

– Traz a mamãe pra mim?

O Rei Boneco olha para Zahra, levanta um dos braços e chama o Príncipe Lataria e o Palhaço Sardinha para ajudar. Sob as ordens de sua alteza, vão atender o pedido da menina. Somem de cena por um instante. A menina fica olhando para o buraco. A marionete Mãe de Zahra entra em cena. 

– Alguém me chamou?

Zahra abraça a marionete e senta no chão com ela no colo. Enquanto Omar arruma os outros bonecos na caixa de papelão, a menina conta para a mãe o que fez durante o dia, mostra sua coleção de pedrinhas e diz que sente medo dos barulhos. Omar escuta a conversa de longe e quando termina de arrumar tudo, encontra Zahra dormindo abraçada com a mãe.

Edição:

Essa crônica foi publicada numa parceria entre a Escola de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e a Agência Pública.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas

Deputados federais mais votados da direita gastam o dobro com anúncios que os da esquerda

|

Os dez candidatos mais votados da direita gastaram R$ 5,3 milhões com anúncios na Meta; os da esquerda, R$ 2,6 milhões

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado