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Em Santa Marta, ciência marca posição para acelerar transição energética

Painel lançado na 1ª conferência para transição para longe dos fósseis tenta driblar negacionismo e lentidão de governos

Reportagem
27 de abril de 2026
14:00
Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis, que está sendo realizada na cidade caribenha de Santa Marta, na Colômbia
Ministério do Meio Ambiente da Colômbia

Em sua versão 2.0, mais sofisticado, o negacionismo climático não mais rejeita que o aquecimento global exista – apesar de ainda haver Donald Trumps que dizem isso, sim –, mas ele atua minando, desacreditando e atrasando soluções, como as energias renováveis. Nas expressões mais comuns, espalha a ideia de que a tecnologia ainda não está pronta, ou ainda é cara, que vai reverter ou impedir o desenvolvimento. Ou tudo isso junto. Na prática, ele segura a transição energética, justo quando ela deveria estar sendo mais rápida do que nunca. Mas os cientistas estão tentando contra-atacar.

Um dos principais legados da Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis, que está sendo realizada na cidade caribenha de Santa Marta, na Colômbia, desde a última sexta-feira, 24 de abril, é o lançamento de um painel internacional científico para a transição energética global, baseado em São Paulo, que vai trabalhar de forma mais próxima a governos de modo a tentar acelerar esse processo. O painel deve atuar durante cinco anos.

A ideia, que surgiu a partir de um pedido feito pela presidência brasileira da COP30 ao climatologista brasileiro Carlos Nobre e ao pesquisador Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, é fornecer informações científicas rápidas que possam orientar políticas públicas de transição para longe dos combustíveis fósseis. 

Não que falte hoje no mundo conhecimento científico que trate dos riscos da inação climática, das vantagens das fontes renováveis de energia – que vão do clima, à saúde, à própria segurança energética –, ou que mostrem como a janela para continuar queimando combustíveis fósseis é cada vez menor. 

Mas o objetivo do novo painel é fazer com que essa ciência se aproxime dos planos de governos e de setores para que a eliminação gradual dos fósseis seja mais rápida e em consonância com a necessidade de evitar que a temperatura média do planeta suba acima de 1,5 °C. Apesar de hoje essa meta já estar prestes a ser superada, o entendimento da ciência é que é preciso agir para que essa ultrapassagem não seja por muitos anos nem por um valor muito alto. Para a segurança do planeta, cada décimo de temperatura fará diferença.

No lançamento do painel, a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, afirmou que há um abismo crescente entre a ciência e as decisões governamentais no mundo: “E isso acontece porque há muito negacionismo sobre os impactos das mudanças climáticas. E também um grande lobby econômico e político que, na verdade, desvia o raciocínio científico e os fundamentos da ciência na tomada de decisões, especialmente as governamentais”, disse em entrevista coletiva.

Vélez Tores está à frente da conferência de Santa Marta, um esforço que, do lado político, também tenta contornar as limitações que existem hoje no âmbito das conferências do clima da ONU, como a COP30, que ocorreu em Belém, no ano passado, que têm falhado em conseguir compromissos mais efetivos dos países em abandonar os combustíveis fósseis, cuja queima é a principal responsável pelo aquecimento global. 

Conferência em Santa Marta: 60 países discutem transição para longe dos combustíveis fósseis

Em Santa Marta, representantes de 60 países, 400 cientistas, além de representantes da sociedade civil, de populações indígenas, tradicionais e afrodescendentes, estão reunidos até quarta-feira, 29, para discutir como o mundo pode começar a traçar um caminho para sair da dependência dos combustíveis fósseis.

“O lançamento deste painel nesta conferência transmite a mensagem da verdadeira convicção dos países aqui presentes de que precisamos retornar à ciência, basear nossas decisões nela e fundamentar nossa tomada de decisões, nossos processos e nossos caminhos na ciência”, afirma a ministra colombiana.

Uma das inovações do painel é colocar na liderança cientistas ligados à energia, claro – um dos co-chairs é o pesquisador brasileiro Gilberto Jannuzzi, professor de sistemas energéticos da Unicamp –, mas também à economia. Os outros dois co-chairs são Vera Songwe, copresidente do Painel de Especialistas de Alto Nível em Financiamento Climático (Camarões), e Ottmar Edenhofer, diretor e economista-chefe do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (Alemanha).

“Prevemos que a principal tarefa deste painel científico será mapear como superar as restrições econômicas e socioeconômicas que os países enfrentam para que possam acompanhar não apenas um ritmo acelerado, mas também uma transição ordenada para o abandono dos combustíveis fósseis”, explica Rockström. 

“Portanto, aplicaremos os métodos mais recentes e avançados de revisão de políticas para identificar as combinações de políticas mais eficazes em diferentes contextos de vulnerabilidade e restrições socioeconômicas”, complementa.

O pesquisador sueco, que é hoje um das principais vozes da academia a alertar que estamos ultrapassando os limites do planeta, encabeçou, junto com Carlos Nobre, a idealização do painel – ambos vêm desde a COP30 liderando esforços de aproximar a ciência das negociações climáticas. 

Em Belém eles coordenaram o pavilhão da ciência e chegaram a fazer um “piquete” muito diplomático na porta da plenária principal distribuindo panfletos aos negociadores com alertas sobre a importância de conter o aquecimento em 1,5 °C e sobre como a maneira de fazer isso é com a elaboração de planos com cronogramas, os tais mapas do caminho, para abandonar os fósseis.

Segundo Rockström, a ideia é beber da mesma fonte de compilados científicos climáticos que já existem hoje – sendo o do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o principal deles –, mas fazer os relatórios e aconselhamentos de modo mais rápido, com aplicação mais prática e também com foco local, não apenas global. 

“A diferença é que o IPCC publica seus relatórios a cada seis ou sete anos. Nós atualizaremos nossos dados com muito mais rapidez, analisando o próximo ano, o seguinte e ano a ano. E buscaremos levar os dados sobre as trajetórias de mudança para o nível nacional, algo que o IPCC não faz”, explica. 

“Não estamos tentando, com o painel científico, estabelecer um novo consenso científico, como o IPCC faz. Nosso objetivo é fornecer dados científicos para embasar a tomada de decisões, de modo a realmente dizer, seja para a Colômbia, a China, a Índia ou a Nigéria, o que precisa ser alcançado e o que pode ser alcançado em diferentes setores até 2030, e quais são as melhores opções de políticas públicas. Isso significa usar os mesmos modelos do IPCC, mas de forma mais rápida e em menor escala, adaptando-os às diferentes economias.” 

O grupo estima que o primeiro relatório deste painel deve ser publicado já por ocasião da próxima conferência do clima, a COP31, que será realizada na Turquia em novembro, em co-presidência com a Austrália.

Paralelamente ao esforço do novo painel científico, a organização da conferência de Santa Marta também teve um outro processo acadêmico em que mais de 400 de pesquisadores se debruçaram em propor recomendações de ações para os ministros e representantes de governo que estarão reunidos em Santa Marta nesta terça e quarta-feira. 

O relatório traz um repertório tanto de ações que podem ser adotadas em políticas energéticas e nos processos de elaboração dos mapas do caminho e de diversificação econômica, mas também fiscais (em relação a incentivos, por exemplo), em financiamentos e no funcionamento dos bancos centrais. Os debates consideraram também os benefícios à saúde e em como é possível alcançar prosperidade num mundo carbono zero.

“Se o fim da era dos combustíveis fósseis, incluindo os petroquímicos, puder se tornar realidade, será em Macondo, onde o impossível é simplesmente outra forma de verdade”, comentou Andrés Del Castillo, advogado sênior do Centro para Lei Internacional Ambiental (Ciel). A referência é à vila fictícia do romance “Cem Anos de Solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez, retratada, na obra, perto, justamente, de Santa Marta.

Edição:

A repórter viajou a Santa Marta com apoio do ClimaInfo.

Ministério do Meio Ambiente da Colômbia
Ministério do Meio Ambiente da Colômbia

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