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Reportagem

Conflito de interesse: Regra é ignorada por médicos, e farmacêuticas investem em presentes

Indústria farmacêutica investe R$ 24 milhões com médicos em apenas um estado; transparência nacional é quase inexistente

Reportagem
27 de abril de 2026
06:00
Ilustração com auxílio de IA/Ed Wanderley/Agência Pública

Pessoas bonitas, bem vestidas, empurrando malas e aguardando em consultórios médicos. Elas cumprimentam secretárias, trazem quitutes apetitosos, exibem sorrisos e fazem convites para que profissionais médicos discursem ou compareçam a congressos em destinos paradisíacos, regados a álcool, festas e até acompanhantes de luxo. Hollywood já fez você reconhecer facilmente este retrato. A relação entre representantes comerciais da indústria farmacêutica e profissionais de saúde já foi apresentada nas telas do cinema inúmeras vezes, sempre ilustrando escândalos de corrupção ou atentados à saúde pública, baseados em histórias reais que chocam por duas semanas, antes de entrarem no esquecimento coletivo.

Quando não há registros de mortes ou golpes financeiros, no entanto, o enredo é outro. Especialmente no Brasil, onde há espaço para a naturalidade. Os mesmos profissionais que prescrevem as novidades de mercado são, por vezes, contratados pela indústria farmacêutica. Outras vezes, recebem mimos que vão das tradicionais inscrições em congressos e viagens com despesas pagas incluídas até presentes para consultórios, como poltronas ou aparelhos de uso diário. Tudo dentro da lei, nada ilegal — e quase regular.

​Desde março de 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) supostamente exige que todos os médicos brasileiros declarem, na plataforma CRM Virtual, eventuais conflitos de interesse relacionados à indústria farmacêutica. A exigência foi publicada no Diário Oficial a partir da Resolução 2386/24 e prevê que os médicos podem enfrentar processos disciplinares e até ter o registro cassado caso não deem transparência às contratações, como palestras, pesquisas ou consultorias, que tenham prestado às farmacêuticas.

​As partes do “quase regular” e do “supostamente” encontram amparo na realidade prática em três pontos. O primeiro é que a norma rege que, antes de qualquer manifestação pública e até de entrevistas, os médicos apresentem seus conflitos de interesse – o que se mostra incomum, mesmo em transmissões de TV, rádio e ainda mais nas redes sociais. O segundo é que, a contragosto até de quem a propôs, a regra deixa de fora a exigência de transparência quanto a presentes pessoais ou profissionais recebidos pelos profissionais.

“O meu texto original tinha isso [exigência de declaração de tudo o que for recebido], mas foi retirado”, afirma Raphael Câmara, um dos 28 conselheiros do CFM e autor da proposta que norteou a resolução, que diz acreditar ser difícil que um nível mais duro de transparência venha a ser aprovado num futuro próximo. “Só se vier uma lei, se vier por outro caminho. […] Mas nada impede que, daqui a um ano, até com a pressão da mídia e pressão popular, isso venha a ser considerado”. O médico destaca, ainda, que, em sua avaliação, a falta de cuidados com o assunto dos presentes, congressos, jantares e outros “mimos” representa um problema mais significativo do que vem sendo percebido pela categoria. “De irrelevante não tem nada; a resolução, inclusive, é por isso. É um problema maior para o sistema público, porque você, hoje, tem uma pressão enorme dessas indústrias para que os medicamentos sejam incorporados ao SUS, né? Ficam dizendo que são as melhores coisas do mundo e se utilizam de porta-vozes de notório saber, respeitados pela sociedade – e muitas vezes é a imprensa que cria essas pessoas”, adiciona Câmara.

Por que isso importa?

  • A intrincada relação financeira entre a indústria farmacêutica e os médicos, evidencia como a falta de transparência e de fiscalização pode comprometer a imparcialidade das prescrições, o que impacta diretamente a saúde da população, deixando uma alerta aos pacientes sobre os possíveis incentivos por trás do crescimento exponencial nas vendas de canetas emagrecedoras.

O terceiro ponto impressiona pelo caráter oficial: literalmente quase nenhum médico cumpre a obrigação de realizar a declaração na plataforma nacional. No Brasil existem quase 600 mil médicos em atividade. Em 2025, apenas 94 profissionais cumpriram a exigência em todo o país, segundo o próprio conselho.

“A gente entende que muitos médicos ainda talvez não estejam cientes da lei”, avalia Câmara. Ele esclarece também que o CFM prevê punições pelo descumprimento de resoluções, que podem chegar até à cassação; no entanto, nenhum procedimento de fiscalização foi realizado para fazer valer a regra até o momento. Uma campanha de conscientização vem sendo planejada desde 2025 para que os conselhos regionais, presentes em todos os estados, realizem ações que informem os médicos sobre a exigência de declaração de conflitos de interesse, mas, até o momento, não há prazo de veiculação definido pelo órgão.

A resolução do CFM é o único dispositivo nacional para coibir a cooptação de médicos pela indústria farmacêutica e visa ampliar a transparência das transações econômicas e dos benefícios indiretos entre a indústria e os profissionais de saúde. Na prática, a norma é uma versão nacional, porém desidratada, de uma obrigação estadual em vigor em Minas Gerais, com adesão muito superior, ainda que não disponha de fiscalização relevante.

A plataforma DeclaraSUS reúne as doações e patrocínios de indústrias farmacêuticas a médicos e sociedades médicas e expõe, por tipo de benefício, os recebimentos dos profissionais de saúde do Estado, abrangendo desde despesas com alimentação até contratos particulares e até mesmo inscrições em eventos. O site é de acesso aberto à população e foi concebido em conformidade com as leis 22.440/16 e 22.921/18. Segundo o UOL, a indústria farmacêutica investiu R$ 200 milhões entre 2017 e 2024 apenas com médicos mineiros. Um em cada dez profissionais de saúde listados entre os beneficiados pela indústria farmacêutica no estado é de endocrinologia.

Canetas emagrecedoras: boom nos dois lados do “balcão”

De acordo com a Associação dos Distribuidores Farmacêuticos do Brasil (Abafarma), os medicamentos para emagrecimento e diabetes, incluindo os chamados “análogos do GLP-1”, dominam o mercado brasileiro e seguem em ascensão. São R$ 19,2 bilhões apenas entre setembro de 2024 e setembro de 2025, metade de tudo o que se vende hoje nas farmácias nacionais e uma dominância completa do top 5 dos remédios mais vendidos, segundo levantamento da IQVIA para a Abafarma. Os números não chocam quem observa a corrida que se formou no setor nos últimos dois anos.

Uma outra curva significativa no período, mais discreta, não é facilmente percebida. O mesmo DeclaraSUS, que exibe as doações recebidas por médicos, também serve de termômetro das tendências de mercado das companhias farmacêuticas. Desde 2017, o desembolso só cresce por conta de duas desenvolvedoras das chamadas “canetas emagrecedoras”, que detêm três dos cinco medicamentos mais vendidos no Brasil no ano passado – a Novo Nordisk, que comercializa a semaglutida sob as marcas Ozempic e Wegovy, e a Eli Lilly, que vende a tirzepatida sob o nome de Mounjaro. Juntas, as empresas declararam ter investido quase R$ 24 milhões para beneficiar ou contratar médicos apenas em um estado da federação: Minas Gerais, o único em que a declaração transparente é obrigatória.

Não é possível atestar correlação entre as duas curvas, ou uma relação de causa e efeito, apenas evidenciar seus comportamentos proporcionais e simultâneos. Segundo a Abafarma, o Brasil, que consumia 4,1 milhões de unidades de canetas emagrecedoras em 2021, passou para 7,3 milhões no ano passado, um crescimento de 78,3%. Enquanto isso, entre 2021 e 2024, ambas as empresas quase triplicaram o investimento em relacionamento com profissionais médicos. A Eli Lilly passou de investir R$ 586 mil em um ano para aplicar R$ 1,4 milhão em profissionais de saúde mineiros em 2024. A Novo Nordisk, no mesmo período, passou de R$ 1,4 milhão para R$ 3,9 milhões.

A Novo Nordisk se firmou entre os dez laboratórios que mais investem na relação com profissionais médicos em Minas Gerais nos últimos dez anos. Um dos esforços para a integração com profissionais é o programa Discussão de Caso Clínico, no qual a empresa aprova um estudo de caso elaborado por um médico convidado que tenha acompanhado pacientes com o uso da semaglutida, para que, durante um jantar, ele possa ter uma troca direta com pequenos grupos de três ou quatro outros profissionais, em geral endocrinologistas ou nutrólogos, sobre a experiência com os medicamentos. A interação entre os profissionais durante confraternizações pós-análises é publicada de forma recorrente em perfis de médicos nas redes sociais.

Do convite à ação

Convite realizado por representante da Novo Nordisk a endocrinologista no ano de 2024 para participar de encontro do Programa Discussão de Caso Clínico
  • Médicos, em geral endocrinologistas e nutrólogos, registram encontros informais com colegas da área de saúde em jantares promovidos por fabricantes de canetas emagrecedoras

Procurada pela Agência Pública, a Novo Nordisk alegou que o programa discute “casos clínicos reais, anonimizados, trazidos pelos médicos” e se apresenta sob a crença de que a “capacitação de quem está na linha de frente é a forma mais responsável de contribuir para a saúde da população”. A companhia informa que “se trata de uma iniciativa de educação médica continuada, uma prática padrão da indústria e considerada essencial para a evolução da medicina e, consequentemente, para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes” e destaca que “nessas iniciativas não há contato algum da indústria com o paciente”.

Já a Eli Lilly, não deu retorno até a publicação. 

​A presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, Marisa Palácios, lembra que, na década de 1970, representantes comerciais sequer eram autorizados a adentrar ambientes hospitalares, o que mudou a ponto de se tornar naturalizado na contemporaneidade. Ela avalia que o contato das indústrias com os profissionais e com o ambiente de pesquisa científica deve ser controlado, e que a discussão precisa ser levada a sério. “Essa relação interfere na forma como o médico atende o paciente e na pesquisa que realiza, e precisa ser controlada. É preciso que isso seja discutido no âmbito das publicações [científicas], das profissões e das instituições”.

Entrevista

Líder em recebimentos da indústria, médica mineira detalha R$ 833 mil em benefícios: “amo essa classe medicamentosa”

“Ana Paula, seus olhos brilham quando você fala disso (canetas)”. É assim que a endocrinologista Ana Paula Xavier Zanini conta que se referem a ela quando apresenta seus conhecimentos sobre os análogos de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras. A médica mineira lidera a lista de profissionais de saúde do estado de Minas Gerais que mais receberam recursos das produtoras desses medicamentos, a dinamarquesa Novo Nordisk e a norte-americana Eli Lilly. Desde 2017, declarou o recebimento de R$ 833 mil das duas empresas, sendo R$ 782 mil apenas da farmacêutica europeia que produz a semaglutida sob os nomes comerciais Wegovy e Ozempic.

Em entrevista à Pública, ela falou, entre outros assuntos, sobre o universo dos medicamentos, sobre sua experiência em consultório e os desafios no enfrentamento à obesidade. Os trechos a seguir foram os destaques da conversa em que ela detalha a participação no programa Discussão de Casos Clínicos, da Novo Nordisk, conta as preocupações que mantém para não burlar limites legais e éticos e como a prática de aproximação da indústria farmacêutica já se tornou parte regular da sua rotina nos últimos anos.

Com a queda da patente da semaglutida em março de 2026, o que muda na expectativa de tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil?

Eu acho que isso é uma evolução, um processo de ampliar o acesso da população com diabetes e obesidade a esses medicamentos, porque vão entrar no mercado – é o termo que o pessoal usa na nossa área – “novos players”, né? Então seriam outras empresas do ramo farmacêutico que vão disputar esse mercado e, consequentemente, quando a gente tem várias disputando o mercado, o preço é uma questão que vai ser o primeiro ponto para atrair os pacientes. Existe uma diferença entre a medicação atual e uma medicação biológica, a semaglutida sintética, que vai entrar no mercado, o que envolve, às vezes, alguns custos de produção, que são mais baixos. Do ponto de vista do médico, nós vamos ter a curiosidade de avaliar se não vamos encontrar diferenças do ponto de vista clínico e de prática, porque eles (os medicamentos) têm essa diferença.

A patente da liraglutida, anterior e mais fraca que a da semaglutida, já caiu no Brasil, e há biossimilares no mercado brasileiro, mas fala-se bem menos sobre essa substância do que sobre as que vieram depois. Por que a senhora acha que a semaglutida (Ozempic) não seguirá o mesmo roteiro de sucesso da tirzepatida (Mounjaro)?

Eu acho que é porque a potência da semaglutida é realmente superior à da liraglutida. Ela atende um grande volume de pacientes porque a gente tem expectativas muito altas quanto à perda de peso. Às vezes, você tem pacientes que perdem 15% do peso. E, como no Brasil a gente tem uma população em que a maior parte não tem obesidade mórbida, e sim uma obesidade mais leve, essa medicação seria suficiente para atender.

Eu acho que o que está tirando um pouco do brilho desse momento é que tenho a entrada desses produtos manipulados e, de origem, vamos dizer assim, duvidosa. Por que você tem produtos de que você não sabe nada, de onde eles surgem, de onde eles vêm? É uma farmácia que manipula. De onde vem essa base? Não passa por fiscalização; gera muita insegurança para nós, médicos. Eficácia tem, mas eu não sei se tem segurança; não sei o que tem ali dentro, nem como foi feito o transporte desse produto. Eu tenho mais de 30 anos de formada e nunca vi nada do tipo durante a patente de uma molécula. Você tem um tanto de marcas chegando do Paraguai e da China, produtos manipulados. Eu nem sabia que podia fazer isso…

Na verdade, nem pode, né?

Coisas que acontecem no Brasil. Existe uma brecha legal. A Anvisa permite a manipulação de alguns produtos sob patente sob a alegação muito exclusiva de “aí eu preciso de uma dose específica para aquele meu paciente porque a dose que seria adequada para ele não existe”. Então, há uma brecha nesse campo para realizar manipulações. Mas o que nós estamos assistindo não é uma dose individualizada, fora do padrão; é uma indústria de produção em massa, nada individualizada, com produtos, infelizmente, sem nenhum tipo de documentação que ofereça segurança. A pessoa pode desenvolver complicações ao longo do uso ou devido ao emagrecimento significativo. E aí a gente está usando uma molécula que a gente não sabe exatamente o que é. Eles alegam que é uma tirzepatida, mas eu não tenho documentação sobre aquilo ali, como tenho ali na farmácia, com todo o rigor.

Ana Paula, como é que a senhora, pessoalmente, utiliza a sua experiência com esses medicamentos e também mantém um distanciamento ético em relação à indústria farmacêutica? Para, de repente, não cair na coisa da propaganda, do estímulo ao uso?

O paciente que chega aqui é um paciente doente. Eu não tenho essa demanda, assim, da pessoa que está vindo aqui puramente por estética, por 2, 3 quilos, não é? Os meus pacientes são pacientes com patologia associada, ou seja, diabéticos ou com alterações coronarianas, que realmente precisam manter controle metabólico. Então, o medicamento não é a questão. Talvez o grande desafio para o médico seja escolher qual medicamento você vai tomar. E o que pesa é a eficácia, a segurança, o custo, o fato de que essa medicação precisa ser mantida a longo prazo… Então, também não adianta a pessoa ter condições financeiras para realizar apenas um mês de tratamento. Eu preciso pensar em uma medicação contínua. Agora, ética é ética. Ou você tem ou você não tem. Eu acho que isso é muito mais uma questão de caráter do indivíduo.

Pergunto por que, em Minas Gerais, a gente tem um caso muito significativo, diferente do resto do país, porque a gente tem aquela questão da declaração obrigatória com a Secretaria de Saúde, o DeclaraSus, que é justamente para falar sobre a relação das indústrias com os médicos. Por exemplo, quando a gente entra na base de dados, há contratações dessas empresas, Novo Nordisk e Eli Lilly, de uma série de profissionais, a maioria deles, endocrinologistas, o tipo de coisa que não fica tão transparente para o paciente, ou que poderia colocar em xeque a opinião do profissional de saúde. Por exemplo, eu chequei aqui: o seu nome aparece como o que mais recebeu benefícios da Novo desde 2017, em contratação, hospedagem, estudo de caso clínico…

Não, são aulas. São aulas que a gente faz pelo Brasil. É de todos porque eles têm três produtos. E eu divulgo, vou dizer assim, o que apresento aos médicos. É um comprimido de semaglutida, chamado Rybelsus, sobre o qual não se fala muito na mídia. Tem o Victoza, depois, veio o Ozempic e, depois, o Wegovy. E a empresa faz uma escolha entre duas opções. Primeiro, quem tem muito volume de prescrições. Eu sempre gostei muito de tratar a obesidade. Então, eu sempre tive volume de prescrição. Se existisse um dado, por exemplo, sibutramina, seria a única opção; você acharia meu nome lá.

Como é que surge esse convite para dar aula? Aí tem uma característica do profissional. Você tem que ter um pouco do perfil de saber falar bem, de não ficar com vergonha em público. São pessoas diferentes que fazem convites para o médico. Ah, tem um gerente lá em Manaus, ele precisa de uma aula. Quando é que eles chamam a gente? Eles chamam quando, exatamente, veem que o volume de vendas naquele lugar está baixo. Tem eventos em congresso também, patrocinados, né? O congresso, todos os congressos médicos, o que você falou da questão da ética? É muito complicado isso. Como funciona isso no congresso médico? Eu tenho que pagar pelo auditório. Se eu for trazer um palestrante internacional, tenho que custear o transporte dele e assim por diante. Então, as empresas que são fabricantes de medicamentos, se aquele congresso tem um público de médicos prescritores de seus produtos, é interessante para elas patrocinarem aquele congresso. Então, é uma via de mão dupla. Eu vou falar sobre o seu produto e você vai viabilizar esse encontro científico.

Mas uma coisa que aí, eu falo aqui, entra também a ética e o estado profissional. A empresa, quando você está contratada por ela, lhe fornece o material que pode apresentar. Todo o material que pode ser apresentado no evento consiste em artigos científicos. Eu não posso falar nada sobre a minha opinião. Se eu for perguntar sobre a minha experiência para alguém lá, eu posso falar “eu faço assim, eu faço assim”, mas eu tenho que apresentar aquilo que está na bula, dentro das indicações da bula. Por exemplo, quando eu dava aula sobre Ozempic, ele não estava aprovado para o tratamento da obesidade. Eu usava no meu consultório, off-label, para o tratamento da obesidade, porque já havia publicações internacionais que respaldavam essa conduta. A empresa não pode falar nada sobre obesidade num evento médico, senão o que consta na bula da Anvisa; senão, vai pagar multa também. E eles cobram isso muito do profissional.

Mas do jeito que a senhora falou, por exemplo, que a senhora fazia esse uso off-label antes de ele ser aprovado, quando você apresenta isso em outros estados para outros profissionais e acaba respondendo sobre sua experiência pessoal, isso não seria uma forma de influenciar seus colegas?

Se alguém me perguntar uma opinião pessoal, eu tenho que falar “olha, gente, isso não está na bula, isso não tem respaldo, mas eu tenho o costume de fazer de tal forma”. Por exemplo, como é que eu vou contornar os efeitos colaterais? Prisão de ventre é efeito colateral comum a esses dois medicamentos. Na bula não fala que deve usar o remédio A, B, C ou D, mas aí eu posso, se for me perguntar, “ah, gente, eu tenho feito assim e assim. É uma opinião, mas o que é apresentado durante a aula é só o que está na documentação científica e o que está na bula. Não pode passar nada ali em cima. Quando a gente está fazendo uma discussão científica, a gente fala sempre em nível de evidência, né? O nível de evidência ocorre quando você tem um artigo publicado, mas sua experiência clínica não alcança esse nível. Na medicina, nem tudo vai estar no papel, algumas coisas vão estar realmente na experiência de como cada um vai encontrando um caminho para, às vezes, gerar melhor tolerância, melhor adaptação ao tratamento, mas isso não é considerado errado ou antiético do ponto de vista médico.

Aqui consta, desde 2017, que a senhora recebeu R$ 782 mil por contratações, hospedagens, inscrições, refeições e transporte da Novo Nordisk.

Eu não sei se dá esse dinheiro todo, gente.

Eu só queria confirmar se o registro estava correto na base de dados.

Eu gerei essa despesa toda. Onde eu descubro isso?

É no site do DeclaraSus, do governo de Minas. Hospedagens, R$ 428 mil. Contratações R$ 268 mil…

Eu não faço a menor ideia por que, quando a gente é contratado, eles mandam para a gente: “Você vai ficar no hotel tal”. Não sou eu que escolho. Não pode ser um hotel de luxo; tem que ser de três estrelas. Justamente essa preocupação com as questões de “ah, está comprando médico e tal”. Não, é um hotel bom, decente. Aí tem o cara que se transporta do aeroporto ao evento. Ele se transporta do aeroporto ao hotel. A alimentação eles pagam na área do hotel: R$ 250 para almoçar e isso tem que ser no hotel. Então a gente tem uma série de coisas. O protocolo, né? Eu só posso chegar, no máximo, 12 horas antes da aula, 8 horas antes, pra não configurar o turismo. Se no dia seguinte eu quiser ficar, tenho que pagar do meu próprio bolso. Eu não posso ficar muito tempo, então é sempre um bate e volta.

A senhora já fez muitas dessas aulas? Essas viagens para dar aula são costumeiras?

Não.

Não atrapalha a dinâmica do seu consultório?

Aqui, como a gente consegue remanejar os pacientes, porque, como eu falei, para eu fazer um evento desses, eu fico ausente do consultório 24 horas. Então, eu falto por um dia e meio, no máximo. Às vezes também tem aula na minha cidade ou em uma cidade próxima. Tem cidade que eu vou, a Divinópolis; vou e volto no mesmo dia. Eu dou aula e volto à meia-noite pra Belo Horizonte. Prefiro dormir na minha casa…

Entendi…

Agora, voltando à sua pergunta, né, sobre a ética, é uma questão que sempre vai ter. Esse questionamento sempre será oportuno. Por quê? Como a indústria seduz o médico? A indústria seduz o médico com pequenas coisas, até pela vaidade. Quando você é convidado para um evento, você já vai. Você não precisa nem ganhar; você já se sente valorizado.

O Conselho Federal de Medicina lançou, em 2025, uma norma para fazer algo semelhante ao que ocorre em Minas Gerais, que exigia declarações nacionais. A senhora chegou a fazer?

Não, eu nem sabia que tinha que fazer a declaração. Os médicos, ninguém sabe. Você está sabendo de algo que eu não sabia.

Edição:
Дело Вкуса/delo-vcusa.ru/Creative Commons
Arquivo pessoal/cortesia
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