Os japoneses criaram uma palavra pra designar a prática de acumular livros: Tsundoku. Algo como tsun-empilhar e doku-leitura. Pra ter gerado um conceito específico, a prática não deve ser incomum por lá, o que maculou um pouco meu estereótipo de estimação sobre a moderação do mundo oriental.
Prática talvez não seja a melhor palavra, parece estar mais na esfera da mania, vício, falta de noção de realidade e tempo de vida. Os tsundokuers (o anglicismo é por minha conta) vão, ao longo do tempo, erguendo suas bibliotecas. Porém, a consequência de ser este tipo de empilhador é erguer, em paralelo, uma antibiblioteca: um conjunto de tudo o que ainda não leu, quem sabe jamais lerá. Não parece uma coisa muito boa, mas fazer parte da categoria dos que só criam antibiblioteca, é pior. Estes, sequer apelido japonês têm.
Também existem os bibliófilos, esses com raiz grega biblio = livro. Têm livros raros, edições únicas, várias traduções dos mesmos textos. Humberto Eco tinha uns 30.000 livros e, pelo que se sabe, era desprovido de antibiblioteca. Tenho pra mim que um tsundokuer gera muito mais empatia do que um bibliófilo.
Uma antibiblioteca é sempre motivo de angústia. Inclusive quanto à sua disposição nas estantes. Talvez alguns os organizem colocando todos os livros nunca lidos em prateleiras específicas, ou camuflem o acervo, misturando-os aos livros lidos, impressionando visitas e apaziguando um pouco sua mente devedora.
Pra você que lê isso e, em pânico, começa a caçar na sua estante tudo o que comprou e sequer tirou do plástico, calma. Lendo Irene Vallejo, autora de O infinito em um junco (que comprei e li!), minha porção livreira nipônica foi acolhida. Ter uma porção de livros não lidos é sinal de otimismo, esperança na vida. É a crença materializada de que há um futuro você e que esse você do futuro um dia lerá tudo aquilo. O livro que você comprou hoje é uma aposta no amanhã. Bom, né?
Mas e quando você descobre, como eu, que além da biblioteca e antibiblioteca, você tem biblioteca ectoplásmica, composta por todos os livros que leu, despossuída de si mesma? Funciona assim: encontro um determinado livro na estante e penso: caramba, eu tinha esse livro, nem sabia, vou ler! Abro e vejo rabiscos, comentários, trechos sublinhados. A primeira reação é a indignação: quem se atreveu a rabiscar meu livro? A segunda, mais lúcida, percebe os indícios: garranchos no estilo único da minha letra feia; sublinhados no estilo inconfundível de um eletroencefalograma. Sim, fui eu. Li fora do corpo, não restando sequer um traço de memória sobre aquilo.
Alguns me dizem: ah, teu cérebro não gravou porque você não se interessava pelo assunto? Elas não me compreendem. As reflexões, as anotações, os diálogos que travei com o autor, tudo mostra que sim, me interessava e muito. O que me faz concluir que alguns cérebros vêm com o software que junta interesse + armazenamento. A memória então fica lá, salva e resgatável. No entanto, há os que vieram com o software, porém jamais atualizaram sua versão. Estes quase se equiparam à minha categoria, a de muitas (muitas) leituras fantasmagóricas.
Talvez deva adotar a estratégia de um amigo, também praticante de leitura incorpórea. Ele foca no momento, lê e não se frustra, apenas desfruta. Tipo mindfulness. Já outra amiga, leitora desde que circulava pelo mundo só usando Pampers, tem a capacidade de citar de memória trechos inteiros. Nossa amizade sólida me salva das retaliações pela minha inveja explícita.
Tento aprender a conviver com isso, mas ainda tenho o péssimo costume de prometer a mim mesma as releituras. Assim, todos os que foram lidos — biblioteca, mais os que estão por ler — antibiblioteca, mais os livros ectoplásmicos, somam-se às releituras que nunca farei.
Me resta arrumar minha estante, colocando todos os livros misturados, dando volume, porque, sabe, isso sempre impressiona as visitas.
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