Apesar do empenho do governo federal para aprovar antes da eleição a PEC da Segurança Pública, a votação da matéria no Senado deve ocorrer entre o 1º e 2º turno eleitoral. Em entrevista à Agência Pública, o relator do texto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Rogério Carvalho (PT-SE), afirmou que aposta no período para que o presidente da Casa Alta, Davi Alcolumbre, paute a proposta.
A avaliação de Carvalho é de que, apesar do governo ter “acumulado” matérias de interesse no Senado devido a um desgaste na relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), recentemente superado, o combinado foi cumprido.
O acordo feito na semana passada, segundo Carvalho, era de colocar a PEC da Segurança Pública para “andar”. Sobre a proposta não ter ido para o Plenário ainda nesta semana. O senador destacou que “isso já estava precificado” e “que não tem nada fora do acordo que foi feito”, já que o presidente do Senado havia prometido à “Lula que ia liberar [a proposta] para tramitar”.
A PEC da Segurança Pública estava parada no Senado desde a sua aprovação na Câmara dos Deputados, no dia 4 de março deste ano. Ela foi liberada para discussão na CCJ após acordo selado no dia 26 de agosto entre Lula, Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Bets escapam de financiar Fundos para a segurança pública
O texto-base da PEC foi aprovado na CCJ em votação simbólica, sem a contagem nominal de votos. Falta, no entanto, a análise de três destaques. Já o dispositivo que designava 30% da arrecadação de Bets para financiar o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional foi retirado do relatório pelo senador. O termo havia sido apresentado anteriormente no plenário da Câmara e aprovado pelos deputados.
À Pública, Rogério Carvalho argumentou que manter o dispositivo “constitucionalizaria” o setor de apostas, já que haveria a inserção na Constituição Federal de normas sobre este mercado.
“É inoportuno constitucionalizar a distribuição de receitas de um jogo. Vários segmentos pediram para deixar a matéria sobre regulamentação em lei ordinária. Só para o esporte, representaria uma perda significativa. Vamos discutir esse ponto posteriormente”, afirmou Carvalho durante a discussão na CCJ.
O senador não é considerado da bancada das Bets, mas como revelou a Pública, está entre os parlamentares que são frequentemente “citados como aliados dos integrantes e cuja influência os tornam essenciais na costura de acordos sobre o assunto no Congresso”.
A briga que travou o Congresso
A relação entre Alcolumbre e Lula estava rompida desde abril, quando ocorreu a rejeição no Senado de Jorge Messias, Advogado-Geral da União, ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O embate travou as principais pautas do governo no Congresso, entre elas a PEC da Segurança Pública e a que propõe o fim da escala 6×1, consideradas como trunfos de Lula no período eleitoral.
“[A gente] teve uma votação de um candidato a ministro do STF que não deu certo, tiveram vários desencontros, vários problemas e apostas cegas”, disse o senador Rogério Carvalho. “O desenrolar da política trouxe para esse cenário e acho que a gente acumulou [pautas]. Mas, no cenário que a gente tem, foi bom [a aprovação do texto-base por unanimidade na CCJ]”, completou o parlamentar.
A PEC da segurança pública é uma das principais apostas do governo federal para se consolidar no tema, que tem sido tradicionalmente dominado pela direita no país e, não à toa, é uma das principais pautas em disputa nesta eleição. Lula já manifestou que aguarda a aprovação da proposta para criar o Ministério da Segurança Pública, uma de suas promessas de campanha em 2022.
A matéria em tramitação descentraliza a coordenação da União nas políticas de segurança pública. Na versão original, enviada ao Congresso pela gestão do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, estava estabelecido o oposto: maior integração entre a União e os Estados na construção dessa política. O texto, porém, enfrentou forte resistência dos governadores e foi modificado pelo deputado federal Mendonça Filho (União-PE), relator da proposta na Câmara.

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