Nos meus 16 anos de igreja evangélica, fui ensinada a toda vez que o mundo estivesse um caos, que eu não soubesse que caminho tomar, que houvesse barulho demais, ideias demais, eu recorresse à Deus como norte e à igreja como refúgio. Me lembro que tinha até uma pulseirinha, vendida na lojinha da igreja, com as letras OQJF? “O que Jesus faria?”. É claro que o Jesus que chutou os mercadores do templo, mencionado no Novo Testamento, não era muito a referência para as igrejas neopentecostais. A gente aprendia que questionar o pastor, a congregação, e as ideias que eram apresentadas ali pelo representante de Deus na Terra era “falta de fé” e, em última instância, rebelar-se contra o próprio Deus.
Uma outra doutrina pregada reiteradamente era a de que as guerras, os conflitos, as crises políticas, econômicas – micro e macro – eram materializações de batalhas que estavam sendo travadas nos céus por anjos e demônios: batalhas espirituais.
Graças a Deus (?) os muros da igreja não foram capazes de conter minha rebeldia adolescente por muito tempo. Logo conheci o feminismo, o punk, os movimentos sociais, Marx, Foucault, Judith Butler, Simone de Beauvoir, a comunidade queer, a psicanálise.
Mas décadas depois, voltei a mergulhar nesse universo evangélico como jornalista e pesquisadora, primeiro para uma reportagem da Agência Pública sobre a bancada evangélica no Congresso Nacional e a força política dessa fatia de uma fatia da população que crescia aceleradamente. Essa matéria levou a outras, a especiais transnacionais, a um livro que está sendo traduzido para seu terceiro idioma, e nunca mais larguei o assunto.
Aprendi então que essas “batalhas espirituais” tinham um nome: Teologia do Domínio. A teologia do domínio basicamente defende que os cristãos devem governar e influenciar todas as esferas da sociedade, a partir de uma visão maniqueísta, na qual o poder político é visto como um instrumento legítimo de conquista espiritual e social. Ela surgiu ali no meio calvinista norte-americano entre as décadas de 1960 e 1970 e foi amplamente abraçada pelos pentecostais nos anos 1980.
No meu livro, citei uma fala do pastor RR Soares, líder fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus – que tem nada menos que cinco parentes concorrendo nestas eleições – que acho que ilustra bem: “não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”.
Nessa lógica, o crente está sempre sendo atacado por representantes do diabo que “vêm para matar, roubar e destruir” e no jogo político, quem não tem as bençãos do pastor, é parte do front inimigo.
A extrema direita, em especial o Bolsonarismo, foi espertamente se amalgamando a essas narrativas e colocando que a esquerda, o “comunismo”, as feministas, as universidades, os “professores doutrinadores”, a imprensa, a comunidade LGBT+, como inimigos a serem combatidos em nome de batalhas mais profundas, missionárias, messiânicas.
É daí que vem esse apoio crescente de grande parcela dos evangélicos à Flávio Bolsonaro e à André Mendonça, nesse momento de crise política em que ambos estão diretamente implicados e com os rabos mais presos que calango em boca de sapo no escândalo do Banco Master, por mais incoerente que pareça. Ele não surpreende quem cresceu dentro dessa doutrina.
Há alguns dias, o ministro André Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais agradecendo as mensagens de “oração e carinho” de líderes religiosos e disse que essas “preces a Deus têm sido fundamentais” para o sustentar. Em seguida, Michelle Bolsonaro afirmou que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que Mendonça permaneceu fiel aos princípios e se manteve forte e corajoso. “Você foi chamado para este tempo. A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”, disse em suas redes sociais. Correntes de fiéis têm chamado às orações por Mendonça.
É a jornada do STF sendo transformada em cruzada, em missão, levada a cabo corajosamente por Mendonça, sobretudo contra Alexandre de Moraes, que encarna o mal.
Nessa cruzada, Flávio Bolsonaro, que tem rodado igrejas evangélicas pelo país e que não era exatamente amado pelos evangélicos no início da campanha por conta da querela com Michelle, tem conseguido se inserir como opção divina pela proximidade a Mendonça, pela contraposição à figura de Alexandre de Moraes e pelos ataques ao STF. Arrisco dizer que é isso que tem levado a um crescimento nas pesquisas de intenção de votos dessa população.
A última pesquisa Quaest, por exemplo, mostra Flávio à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40% do atual presidente.
Numa doutrina em que a política é entendida como batalha espiritual, nenhum escândalo vai pesar mais do que uma unção, porque duvidar do ungido segue sendo, para milhões de fiéis, duvidar do próprio Deus.
E como me disse uma vez o pastor presbiteriano Caio Fábio, que foi presidente e fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e é alguém que conhece os bastidores da articulação política dos evangélicos: “enquanto o Diabo continuar a existir para os evangélicos da forma como existe, eles [os políticos que dizem representar a Deus] podem continuar roubando, porque o Diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada.”
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