Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Assunção e pequenos agricultores. Blefe!

“Na agricultura brasileira, está comprovado que 70% da alimentação vem do pequeno agricultor”, disse Valmir Assunção (PT-BA), deputado federal, na quarta-feira (14), no plenário

Checagem
16 de outubro de 2015
19:24
Este artigo tem mais de 11 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

blefe m laranja

Apesar de ser repetida há muitos anos, a afirmação de que 70% da alimentação vem do pequeno agricultor não é fruto de nenhum estudo ou levantamento, sendo muito difícil precisar quando e onde surgiu o mito dos 70%. A publicação estatística mais completa e confiável sobre a produção dos pequenos agricultores analisa, na verdade, os agricultores familiares, conceito definido pela Lei nº 11.326, de 2006. Elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo Agropecuário 2006 calcula a produção de alguns tipos de alimentos, sem, contudo, apresentar um percentual geral, como fez o parlamentar. Além disso, o documento estima a produção agrícola, não o seu uso na alimentação.

Segundo o caderno de agricultura familiar do Censo Agropecuário 2006, cujas pesquisas de campo se deram em 2007, os agricultores familiares responderam, naquele ano, por 87% da produção de mandioca, 70% do feijão, 67% do leite de cabra e 58% do leite de vaca. Possuíam 59% do rebanho suíno e 50% do plantel de aves. As demais variáveis pesquisadas pelo instituto apresentam índices bem inferiores, se destacando o milho (46%), o café (38%), o arroz (38%) e o trigo (21%).

Embora não sejam sinônimos de pequenos produtores, os agricultores familiares também não trabalham em grandes propriedades. Conforme a Lei nº 11.326, a definição de agricultor ou empreendedor familiar rural abrange os trabalhadores rurais com terras menores do que quatro módulos fiscais e que necessariamente administram a propriedade com os familiares – que devem ser a mão de obra predominante. Assim, um proprietário que tenha 10 trabalhadores assalariados em uma pequena porção de terra não tem o status de agricultor familiar. Outro critério estabelecido na legislação é que a renda da família deve ter um percentual mínimo oriundo das atividades econômicas do empreendimento.

Professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), Rodolfo Hoffmann dedicou um artigo à análise do índice, em 2014. Ele conclui que “a afirmativa de que ‘a agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos no Brasil’ não tem base e, pior, não tem sentido”. “O reconhecimento da importância da agricultura familiar no Brasil não precisa de dados fictícios”, escreve.

De fato, é inegável a contribuição dos agricultores familiares à produção rural brasileira. Basta constatar que dentre as culturas apresentadas no censo do IBGE, aquela que apresenta a menor participação desta categoria de produtores foi a soja, com 16% da produção – que já era, na época, um dos principais itens plantados e exportados pelos grandes monocultores. Além disso, ainda segundo o IBGE, trabalhavam em propriedades familiares 12,3 milhões de pessoas, ou 74,4% da mão de obra do campo.

Apesar de equivocada, a utilização do índice de 70% não é exclusividade do deputado Valmir Assunção. A reprodução do percentual tem se tornado uma tônica nas notícias oficiais. Os portais do governo federal reproduziram o índice, por exemplo, em 2011 e em 2015, sem citar fontes. O valor também foi utilizado pela presidente Dilma Rousseff no segundo turno das eleições de 2014 para criticar as políticas públicas do PSDB para o trabalhador rural.

O valor já foi citado até pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas. Em nota à Agência Pública, o ministério informou que a agricultura familiar é um segmento estratégico para o desenvolvimento do Brasil, com importância na soberania alimentar e nutricional, na oferta de alimentos e na redução dos índices de inflação. A pasta elaborou um estudo a partir dos dados do Censo Agropecuário 2006 que reforça o valor dos produtores familiares em muitas regiões do país. No Amazonas, por exemplo, 99% de todo o feijão foi produzido por eles e em Santa Catarina, 90% do café. Decenal, uma nova edição do Censo Agropecuário começará a ser preparada pelo IBGE em 2016 e deverá ir a campo em 2017, segundo informou o instituto.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais
Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos
Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca
Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa