Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Os impostos no Canadá são como no Brasil?

Senador do PSB também afirmou que a educação é gratuita, a saúde e os serviços públicos funcionam no país norte-americano e não há miséria. Será?

Checagem
30 de junho de 2016
13:22
Este artigo tem mais de 10 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Exagerado, distorcido ou discutível

“A carga tributária do Canadá é semelhante à brasileira, em torno de 34%, 34,5%. (…) No Canadá, não existe miséria, a população é inteiramente assistida, os serviços públicos funcionam, a saúde funciona, a educação é pública e gratuita, a Justiça também é pública.” – João Capiberibe (PSB-AP), em discurso no Senado, no dia 21 de junho

Exagerado, distorcido ou discutível
Exagerado, distorcido ou discutível

O senador João Capiberibe (PSB-AP) fez uma comparação entre Brasil e Canadá para justificar seu voto favorável a um projeto que amplia o enquadramento de empresas no Supersimples. A principal mudança da proposta, que foi aprovada em primeiro turno no Senado, é a elevação do teto anual para empresas de pequeno porte (EPP) de R$ 3,6 milhões para R$ 4,8 milhões. Mas Capiberibe derrapou em seu discurso ao dizer que “a carga tributária do Canadá é semelhante à brasileira”. Na verdade, ela é menor. A frase foi verificada pelo Truco no Congresso – projeto de fact-checking da Agência Pública feito em parceria com o Congresso em Foco.

Em 2013, o índice canadense foi de 30,5%, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ante 35,95% no Brasil, de acordo com dados da Receita Federal. Apesar de possuir a maior carga tributária da América Latina, o Brasil mantém um índice comparável ao dos países ricos da OCDE – grupo das 34 economias mais desenvolvidas do mundo, que inclui a brasileira –, onde a média de impostos equivale a 34,4% do PIB. Procurado pela reportagem, o gabinete do senador afirmou que o dado utilizado é da OCDE, porém está desatualizado: 34,5% era o valor da carga tributária no Canadá em 1994.

O senador afirmou ainda que “não existe miséria no Canadá”. De fato, o país norte-americano sequer se encontra no estudo anual do Banco Mundial que estima a população mundial vivendo abaixo da linha da pobreza. Por esse motivo não há dados precisos para compará-lo ao Brasil. Segundo a instituição, 4,9% da população brasileira vivia na miséria em 2013, ou seja, com menos de US$ 1,90 por dia.

No Canadá, embora não haja estatísticas sobre miséria, 13,5% da população é considerada de baixa renda pelo governo por possuir rendimentos inferiores a metade da média nacional. Como a renda familiar média é de 76.500 dólares canadenses por ano, o parâmetro canadense é muito distante do utilizado para delimitar a linha da pobreza, de US$ 1,90 por dia. Ainda assim, 850 mil canadenses são auxiliados todos os meses por bancos de alimento, boa parte deles no norte do país, onde a oferta de comida é menor e os preços, mais altos.

Em análise bastante subjetiva, o senador afirmou também que, no Canadá, “a saúde funciona”. Não há pesquisas recentes e abrangentes sobre a qualidade dos diferentes sistemas de saúde pelo mundo. A última, realizada pelo OMS, data do ano 2000. Por isso, o Truco no Congresso conversou com cidadãos canadenses que confirmaram que o sistema é eficiente, embora em cidades grandes esteja sobrecarregado, o que gera filas. Em um ranking qualitativo de 2014 feito pelo Commonwealth Fund, o sistema de saúde do Canadá ficou em 10º lugar dentro de um grupo de 11 países desenvolvidos, à frente apenas dos Estados Unidos.

Em seu discurso, Capiberibe disse ainda que a educação no Canadá “é pública e gratuita”. No entanto, esse cenário é verdadeiro somente para estudantes do 1º ano até o final do high school, nível equivalente ao ensino médio no Brasil. O ensino superior é sempre pago. O custo médio de uma universidade ou faculdade no Canadá para residentes é de 6.191 dólares canadenses por ano, segundo dados recentes do governo. Os gastos dos estudantes com ensino superior podem ser facilitados por meio de empréstimos, subsídios e créditos fiscais concedidos individualmente.

 O senador João Capiberibe (PSB-AP), que comparou as cargas tributárias do Brasil e do Canadá. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O senador João Capiberibe (PSB-AP), que comparou as cargas tributárias do Brasil e do Canadá. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O gabinete do senador foi procurado novamente pelo Truco e informado sobre o resultado da checagem, que mostrou que a afirmação estava exagerada. Não houve resposta, no entanto, no prazo estipulado.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas