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Meninas em Jogo

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12 de maio de 2014
17:51
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Meninas em Jogo – Making of

Fazer uma reportagem inteira em quadrinhos. Pensada e concebida para o formato HQ. Investigativa. Sobre um tema delicado, complexo, triste e sobretudo urgente: a exploração sexual de crianças e adolescentes em Fortaleza. Revisitar a pauta antiga como a violação dos direitos dos meninos em um novo contexto, a Copa do Mundo no Brasil.
Como ponto de partida, eu tinha uma denúncia feita por pessoas que estão nas ruas convivendo diretamente com o aliciamento dessas meninas em outras cidades do estado do Ceará para trabalhar em Fortaleza durante o megaevento. Uma realidade dramática que não podia ser retratada de forma chapada, burocrática, didática ou superficial. E ainda tinha a novidade da linguagem, minha primeira reportagem em quadrinhos.

Te parece uma ideia maluca? Escrevendo isso agora, confesso que me parece. Mas a Pública acreditou e nos incentivou a inscrever o projeto no Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo da ANDI, que nos trouxe informação de qualidade sobre como tratar desse tema sem ferir ainda mais as vítimas do abandono da sociedade e do Estado; e também recursos financeiros para realizar essa jornada. A parceria com o De Maio já tinha rolado antes, em projetos menores, sempre admirei o trabalho dele. Os traços sombrios, realistas e duros que vi pela primeira vez na redação da Caros Amigos, em uma parceria De Maio e Ferréz, nunca saíram da minha cabeça. Quando eu pensava em uma reportagem investigativa em quadrinhos (é um sonho antigo e compartilhado com a Natália Viana) eram essas imagens que vinham à mente. Então por que não achar o cara e fazer a proposta? Convicto de que qualquer reportagem pode ser feita em quadrinhos, ele topou de primeira. E lá fomos nós para o Ceará.

“Danou-se, agora tem que dar certo”.

A narração em quadrinhos traz alguns recursos novos. Permite, por exemplo, que o leitor acompanhe o processo da reportagem enquanto ela é feita, o repórter está em cena, pesquisando, entrevistando, e muitas vezes dando com os burros n’agua também, e o leitor está ali, descobrindo junto. É uma forma que considero muito honesta e ao mesmo tempo subversiva de fazer jornalismo. Mas traz alguns desafios.
Pessoalmente, tive de me acostumar com a ideia de me ver personagem, achei essa exposição bem estranha no começo! “Preciso mesmo aparecer aqui?” o De Maio ria e me provocava: “Você já leu um cara chamado Joe Sacco?”. O próprio processo de reportagem é diferente em quadrinhos. Em uma reportagem escrita, você pesquisa, vai a campo, faz entrevistas, volta para a redação, transcreve tudo, lê e depois escreve: campo, aspas, dados. Com quadrinhos o processo se parece mais com um roteiro de filme que precisa ser criado ao longo da investigação. Tive muita sorte de ter um parceiro bacana e paciente como o De Maio e uma editora brilhante como a Marina Amaral que conseguiu ir além dos desenhos, editar o conteúdo jornalístico e ainda segurar alguns momentos de crise e insegurança desta repórter que vos escreve.

No Ceará, procuramos conversar com pessoas que convivem, denunciam e lutam pelo fim da exploração sexual como o pessoal da Cufa (Central Única de Favelas), da Barraca da Amizade, da Aproce (Associação de Prostitutas do Ceará), do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e Adolescente do Ceará) e tantos outros que aparecem na reportagem. Optamos por não abordar meninas nas ruas, como explico na matéria, mas falamos com meninas abrigadas que abriram suas vidas de forma voluntária e num fôlego só, surpreendidas apenas pela pergunta final: “E o que você quer ser quando crescer?”. Aí apareciam sorrisos e alguns minutos de silêncio, seguidos de sonhos bonitos de se ouvir.

Também não vou esquecer as andanças pelos cabarés (bordeis) com o pessoal da Aproce e as conversas com mulheres que um dia já foram essas meninas e que continuam nas pistas, sustentando suas famílias, filhos, abandonados pelos pais, sobrinhos, parentes doentes.

Foram muitas conversas (mais de 30 entrevistas), muita gente, muitas histórias, muito “tem mas não está tendo”. “Tem um programa que atende mas no momento estamos mudando a gestão e está parado” ou “tem o Conselho mas não tem conselheiro, não tem carro, é longe”. “Tem a delegacia mas só uma delegada para todo o Ceará”. Tem condições de mudar. Mas não tem vontade política.

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